Deus e fé viram temas onipresentes na propaganda de presidenciáveis

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 13.09.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) participa de um comício em Sorocaba, no interior paulista. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 13.09.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) participa de um comício em Sorocaba, no interior paulista. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quatro anos após vencer a eleição com o slogan "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", Jair Bolsonaro (PL) dobrou a aposta em 2022 com mais referências religiosas na atual campanha.

O atual presidente, porém, não está sozinho. Seus principais adversários, Luiz Inácio Lula Silva (PT), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), turbinaram citações a fé e a Deus na propaganda eleitoral na busca por votos de católicos e evangélicos.

Líder nas pesquisas de intenção de voto, o petista lançou um jingle que repete oito vezes, com variações, a frase "tenho fé e peço a Deus". O Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, foi a última cena que apareceu antes de Lula surgir na tela e pedir que "Deus ilumine o Brasil", na edição de estreia do horário eleitoral, em agosto.

O movimento consolida uma tendência de 2018, quando a religião ganhou destaque na campanha. A novidade pode ser explicada pela transição religiosa que acontece no Brasil, com o aumento de evangélicos e a diminuição de católicos.

"É eleitoralmente mais interessante para os candidatos de um país como o Brasil se mostrar com algum tipo de espiritualidade ou crença em Deus", afirma Rogério Schmitt, cientista político da Empower Consultoria.

No final de 2019, 50% dos brasileiros diziam ser católicos e 31%, evangélicos, segundo pesquisa Datafolha feita com 2.948 entrevistados e margem de erro de dois pontos percentuais.

A diferença ainda é alta, mas vem caindo nas últimas décadas. Em 1994, pesquisa do mesmo instituto identificou que 75% dos brasileiros eram católicos, contra 14% de evangélicos.

Esses dois grupos são os mais importantes para a campanha deste ano, segundo Schmitt, ao lado da clivagem homem/mulher. Assim como o gênero, a denominação religiosa pesa na escolha do candidato, indicam pesquisas.

De acordo com a última pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira (9), Lula é o candidato preferido por 54% dos católicos, contra 27% de Bolsonaro. Entre os evangélicos, o atual presidente tem folga: 51% dizem votar nele, e 28%, no petista.

Explorar a religiosidade, ou a falta dela, de um candidato não chega a ser uma novidade na política brasileira. Em 1985, no último debate na TV entre os postulantes à Prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) não respondeu objetivamente ao ser questionado se acreditava em Deus.

"Respeito a religião do povo e, na medida em que respeito as várias religiões do povo, estou, automaticamente, abrindo uma chance para a crença em Deus", afirmou.

No dia seguinte, quando fez a sua última aparição em horário eleitoral, precisou abordar o assunto. "É a mim que vão chamar de ateu?", perguntou. O tucano perdeu a eleição para o ex-presidente Jânio Quadros.

Cientistas políticos veem um aumento da importância do tema nos últimos anos. Creditam isso ao aumento do eleitorado evangélico.

"O perfil do eleitor pentecostal é muito diferente do perfil do eleitor católico", afirma Fábio Lacerda, professor de ciência política no Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) e na FEI (Fundação Educacional Inaciana).

"O pentecostal tem alta assiduidade ao culto e uma exposição ao líder religioso muito maior que a do católico."

Segundo Lacerda, enquanto os católicos dão menos importância a sinalizações religiosas dos políticos, os evangélicos querem ouvir que seus candidatos estão defendendo seus interesses —talvez por terem sido, até recentemente, parte de uma instituição minoritária no país.

O aumento dessa parcela do eleitorado explicaria as citações a Deus em propagandas e discursos de candidatos a cargos do Executivo, como governo do estado e Presidência da República.

As pautas religiosas eram típicas de campanhas pelo Legislativo, onde é possível se eleger representando apenas um grupo específico.

Foi nessa mudança que o atual presidente reforçou suas ligações com evangélicos no pleito de 2018. Quatro anos depois, seu jingle diz "ele é de Deus, você pode confiar".

A sua mulher, Michelle Bolsonaro, que tem sido exposta na campanha na tentativa de atrair votos femininos, segue a mesma estratégia e lança mão de um vocabulário religioso em seus discursos. Em um culto, ela chegou a dizer que o Palácio do Planalto era "consagrado a demônios" antes de Bolsonaro.

"Deus é maior e a justiça do senhor será feita", afirmou ela no primeiro ato de campanha do marido, ao comentar o atentado a faca que Bolsonaro sofreu em 2019. "Esta campanha mais uma vez é um milagre de Deus."

Lula também faz acenos a grupos religiosos em suas peças de campanha. Na última sexta-feira (9), o petista se encontrou com líderes evangélicos e disse que Deus dirige seus passos.

Em discursos, ele lembra que sancionou a lei do Dia Nacional da Marcha para Jesus, em 2009, e sugere que Bolsonaro usa o nome de Deus em vão. "Se tem um brasileiro que não precisa provar que acredita em Deus, esse brasileiro sou eu", afirmou.

Referências semelhantes foram feitas por Ciro Gomes e Simone Tebet, respectivamente, terceiro e quarto nas pesquisas de intenção de voto. O candidato do PDT lembrou sua formação cristã em vídeo divulgado na internet e exibido no horário eleitoral da televisão.

"Por alguma obra do destino, acabei morando num convento franciscano", lembra Ciro, que diz ter conhecido na época Frei Damião, frade italiano radicado no Brasil que morreu em 1997. "Aprendi o exemplo de São Francisco, seu amor aos pobres e à natureza", completa.

Caminho semelhante ao usado por Tebet, que aparece entrando numa igreja em trecho da propaganda eleitoral. "A fé em Deus é nossa força para seguir em frente", diz a senadora.

Para o professor Fábio Lacerda, menções religiosas em discursos políticos não são, necessariamente, negativas. A laicidade, segundo ele, acolhe crenças diferentes e não as exclui do debate público.

"Faz parte do cristianismo o engajamento no debate público, não é uma religião feita para a esfera privada", diz. "O problema é a instrumentalização da religião, o uso equivocado ou distorcido da mensagem religiosa."

Apesar de todo o esforço das candidaturas, há dúvidas sobre os resultados da estratégia a longo prazo. Em suas pesquisas, a antropóloga do Iser (Instituto de Estudos da Religião) Livia Reis vê um esgotamento dos fiéis em relação à política.

"A gente vê uma saturação dos próprios evangélicos e católicos dessa mobilização intensa no mundo político", afirma. "As pessoas vão à igreja para orar, louvar, agradecer."