Deuses do teatro desembarcam no sul da França para celebrar ‘ágora’ do Festival de Avignon

AFP - NICOLAS TUCAT

Na Grécia Antiga, a “ágora” era a grande praça pública onde eram convidados os cidadãos para debater os rumos da cidade. Uma espécie de parlatório da ‘Polis’, o coletivo, a política. A 76ª edição do Festival de Avignon, o maior encontro de artes cênicas do mundo, celebra essa polifonia cênica, em 140 teatros desta antiga cidadela medieval. Como se os deuses pagãos habitassem, durante três semanas, os templos sagrados da igreja católica, transformados em palcos nesta antiga “Cidade dos Papas”.

Márcia Bechara, enviada especial a Avignon

Turistas e visitantes invadiram as ruelas medievais de Avignon, cidade incrustada na região francesa de Provence, às margens do rio Ródano, para um dos maiores eventos de artes cênicas do mundo, que contabiliza este ano, em sua 76ª edição, nada menos que 1.616 espetáculos, sendo 46 na programação oficial (“In”) e outras 1570 peças em suas ramificações (“Off”).

À frente do Festival de Avignon desde 2014, o diretor Olivier Py assinou nos últimos anos a curadoria e a programação. Segundo ele, o teatro ainda tem bastante a ensinar ao mundo em 2022.

"Primeiramente a presença real. Estamos intoxicados por um mundo onde estamos todos isolados atrás de telas. O teatro é, antes de tudo, reaprender o real, em sua dimensão mais simples, face a uma geração que enfrenta desafios que a humanidade nunca havia experimentado", disse em entrevista à RFI Brasil, em Avignon. "Na minha opinião, há esses dois desafios. Primeiro a perda do real, o fato de que o real tenha se tornado fictício, e, logicamente, a questão ecológica, muito presente este ano nos espetáculos", afirma.

Brasil na programação paralela

O Brasil não marca presença este ano na programação oficial, mas na rica oferta paralela do festival, com duas produções: "Une femme au soleil" ("Uma mulher ao sol"), da companhia de teatro Projeto Trajetórias, dirigida pelo carioca Ivan Sugahara, e "Tom na fazenda", com direção de Rodrigo Portella e texto do canadense Michel Marc Bouchard ("Tom à la ferme", no original, em francês) que inspirou o filme homônimo do enfant terrible e gênio precoce do cinema Xavier Dolan.

Para o ator e produtor brasileiro Armando Babaioff, Avignon significa um sonho. “Chegar [no Festival de Avignon] com um espetáculo brasileiro com texto desse ‘carpinteiro’, que nem chamo de escritor de tão bem escrito que é esse texto do autor Michel Marc Bouchard, é uma realidade que há muito tempo a gente não vive no Brasil”, diz o ator, que protagoniza “Tom na Fazenda” e assina também a tradução do texto para o português. “Isso aqui é viver um sonho, estando acordado. Eu não podia imaginar o tamanho desse festival”, diz Babaioff.

O Festival de Avignon segue me cartaz no sul da França até 26 de julho de 2022.

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