Devassa sobre atos mostra que golpistas têm a tinta do governo

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Supporters of Brazilian President Jair Bolsonaro demonstrate against quarantine and social distancing measures imposed by governors and mayors to combat the new coronavirus outbreak and demand military intervention (AI-5) in Brasilia on April 19, 2020. (Photo by Sergio LIMA / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Apoiadores de Bolsonaro vão às ruas pedir intervenção militar. Foto: Sergio Lima/AFP) (via Getty Images)

Quando, depois de um mês, veio a público o conteúdo da famosa reunião de 22 de abril, passou praticamente batida uma fala de Jair Bolsonaro a respeito das manifestações que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

“Quando um coitado levanta uma placa de AI-5, eu tô me lixando pra aquilo. (...) Porque não existe AI-5”, performou o presidente diante dos ministros.

A referência ao ato institucional de 1968, que fechou o Congresso e cassou opositores na ditadura, era uma resposta aos cartazes onipresentes nas marchas em apoio ao presidente coalhados de pedidos de intervenção militar. Marchas em que o próprio presidente era o convidado principal.

Na reunião com seus ministros, quando se tratou de um pouco de tudo, menos da pandemia que fazia estragos pelo país, Bolsonaro tentou atribuir a uma espécie de geração espontânea a aparição de faixas e cartazes do tipo naquelas manifestações supostamente sinceras e desinteressadas.

Mais de um ano depois, sabe-se agora que os atos tinham um pouco de tudo, menos espontaneidade.

Um relatório da Polícia Federal sobre os chamados atos antidemocráticos mostrou o envolvimento até da deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) na gênese do movimento. A atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça mantinha contato diretor com um ator central dos atos, o empresário Otávio Fakhoury —espécie de mecenas dos “coitados” que levantavam placas com as mensagens criminosas.

Em uma troca de áudio obtida pelo Fantástico, da TV Globo, Fakhoury diz que será “muito difícil terminar esse governo sem entrar de cabeça numa guerra institucional”.

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Para entender os atos, as investigações da PF miraram contas em redes sociais que promoviam “comportamento inautêntico coordenado”. Algumas foram tiradas do ar na época.

Essas contas foram acessadas mais de mil vezes em órgãos públicos como Câmara, Senado, Presidência da República e, coincidência das coincidências, a Câmara dos Vereadores do Rio — onde trabalha, ou deveria trabalhar, o filho 02 do presidente. Foram identificados também acessos também na 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea.

Segundo a polícia, uma das contas era administrada pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Só o marido não sabia.

A rede de acesso era uma trilha aberta em direção ao chamado gabinete do ódio, supostamente operado por Tercio Arnaud Tomaz, um dos principais assessores do presidente.

Para a PF, Bolsonaro e seus filhos mobilizaram as redes sociais para incitar parcela da população à subversão da ordem política. Seus agentes queriam avançar nas investigações, mas a Procuradoria Geral da República foi contra.

O caso segue na mão de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo que há cerca de um ano determinou a prisão de alguns dos protagonistas mais ruidosos desses atos antidemocráticos. Era só a parte visível de um iceberg com base digital.

A investigação da polícia sobre as redes de acesso e financiamento do grupo tem muitas casas ainda a avançar, mas uma coisa já não se pode dizer: de coitados os manifestantes não tinham nada. E Bolsonaro sabe disso.

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