'Deve-se exigir mais transparência das plataformas digitais', diz diretora da Unesco

Audrey Azoulay concede entrevista à AFP em Punta del Este (AFP/Lucia LACURCIA) (Lucia LACURCIA)

A desinformação e as notícias falsas ameaçam a democracia, e para combatê-las é preciso exigir muito mais transparência das grandes plataformas digitais, ressaltou nesta terça-feira a diretora geral da Unesco, Audrey Azoulay, em entrevista à AFP.

"Estas plataformas tornaram-se o lugar do debate público, enquanto lhes demos o poder de estabelecer as regras e normas", lamentou a funcionária das Nações Unidas na cidade uruguaia de Punta del Este, onde participa de uma conferência internacional pelo Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Nos últimos anos, o surgimento das plataformas digitais (Google, Facebook, Twitter, etc.) na gestão do conteúdo noticioso mudou as regras do jogo informativo, propiciando bolhas de opinião que radicalizam a sociedade e pesam na credibilidade da imprensa.

"Tudo isso evoluiu de forma extremamente rápida", reconheceu. "Há novos desafios que são absolutamente necessários enfrentar se quisermos preservar a informação independente de qualidade, que é vital para as sociedades democráticas".

Os algoritmos "governam a distribuição da informação", e a falta de transparência sobre eles blinda as grandes plataformas de assumir responsabilidades, afirmou a funcionária.

Tendo em vista a enorme influência dessas corporações no debate público, para Audrey é fundamental impedi-las de estabelecer as regras que lhes serão aplicáveis. "É urgente que os governos assumam essa questão", pediu.

Outra ameaça que se refere aos veículos de imprensa é sobreviver financeiramente diante do boom de conteúdo digital disponível. Além de repensar seus modelos de negócios, eles têm que dobrar os esforços para combater campanhas de desinformação sofisticadas, em um contexto de educação digital escassa discernir entre a informação verdadeira e as imprecisões ou mentiras.

"Há um desafio econômico, porque existe uma ilusão de gratuidade no digital. Mas na verdade, nada é grátis. A informação tem um custo de produção. Além disso, o mundo digital não vive do gratuito, simplesmente do comércio de dados, do qual as pessoas ainda são muito pouco conscientes", destacou Audrey.

- Jornalistas alvos de ataques -

Para a diretora da Unesco, outra tarefa urgente para proteger a liberdade de imprensa é garantir a segurança dos jornalistas, alvos recorrentes de ameaças e ataques violentos. São os governos que, em primeira instância, devem ajudar com esses mecanismos de proteção”, estimou.

"A liberdade dos jornalistas é a liberdade dos cidadãos. É a possibilidade de ter acesso a informações verdadeiras, informações independentes", motivo pelo qual é "absolutamente necessário sensibilizar" a sociedade.

Um total de 956 jornalistas foram assassinados na década de 2010-2020 no mundo por fazerem seu trabalho, enquanto 2.647 foram presos, segundo dados do Observatório da Unesco de jornalistas assassinados e do Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Além disso, nas últimas três décadas, 85% dos casos de jornalistas assassinados permaneceram sem solução ou sem denúncia, segundo a agência da ONU.

Audrey Azoulay destacou o trabalho da Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede em San José, para exigir que os governos implementem mecanismos de proteção na América Latina, onde as ameaças e crimes contra os trabalhadores da mídia proveem, principalmente, do crime organizado. "Devemos estar cientes de que o que está em jogo é, de fato, o coração da democracia."

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