Dez anos após retomada, Complexo do Alemão perde serviços, e o tráfico volta a dominar

Carolina Heringer e Diego Amorim
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Bruno Itan / Agência O Globo

90559564_FOTO EM ALTA - Complexo do Alemão. Fotógrafo Bruno Itan Rio de Janeiro.jpg

Bruno Itan / Agência O Globo

RIO — Grávida, Vanessa Sales Félix acompanhou a operação de guerra montada pelas forças de segurança para retomar o Complexo do Alemão, há dez anos. Entre tanques e fuzis, ela viu surgir a esperança de uma comunidade livre da violência para criar sua primeira filha. Ágatha nasceu quatro meses depois num ambiente diferente daquele que sua mãe e seus avós conheciam: sem tiroteios, traficantes armados ou disputas sangrentas. Mas a paz não durou muito, e uma tragédia jogou por terra tudo em que Vanessa acreditava. Um tiro de fuzil, disparado por um policial militar, matou sua filha de apenas 8 anos em 2019.

— Eu vejo a ocupação como um projeto falido. Os policiais entraram sem experiência e precisaram sobreviver aqui, acuados. Os conflitos mataram muitos inocentes, incluindo a minha menina, tirada brutalmente de mim. A minha história poderia ter sido diferente — disse Vanessa, que mora no Alemão desde que nasceu.

No início da tarde de 25 de novembro de 2010, tanques da Marinha subiram a Vila Cruzeiro, na Penha. Era a resposta do Estado a ataques promovidos pelo tráfico em toda a cidade. Sem poder de reação, bandidos fugiram pela mata em direção ao Morro do Alemão, uma imagem que marcou uma vitória da segurança pública do Rio. Três dias depois, num domingo, a maior operação já vista — com a participação do Exército e de forças estaduais e federais — tomou em poucos minutos todo o Complexo do Alemão, resgatando uma população de mais de cem mil pessoas do domínio do tráfico.

Projeto promissor

Uma das regiões mais pobres da cidade se encheu de esperança. Todos os olhos se voltaram para lá. Limpeza urbana, cinema, delegacia, bancos, teleférico moderno, lojas de eletrodomésticos, eventos, turistas. Em seguida, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Havia a promessa de R$ 827 milhões em investimentos. Era a favela se tornando uma cidade formal. Sem barreiras, barricadas, bocas de fumo. Um modelo copiado, estudado nas universidades, que se mostrou promissor, símbolo da segurança.

— Essa política vai dar certo — prometeu, na época, o então governador Sérgio Cabral, hoje preso sob a acusação de corrupção.

Dez anos depois, o lixo mal é coletado. O cinema, a agência dos Correios, bancos e até a delegacia fecharam. O teleférico, um investimento de mais de R$ 200 milhões, enferruja. Turistas, nem pensar. O tráfico recuperou pouco a pouco seu antigo território, deixando os policiais encurralados nas bases da UPP. O secretário de Polícia Civil do Rio, Allan Turnowski, que era chefe da corporação quando houve a retomada, admite o retrocesso, apesar de acreditar que o tráfico ainda não se fortaleceu tanto como era em 2010:

— Em matéria de território, voltamos sim (ao que era antes da ocupação). Hoje, quem domina aquele território não é o Estado. É o tráfico. Mas não voltou a ser um entreposto da facção como era naquela época. E é bom frisar que a gente não pode abrir mão desse território — pontua Turnowski.

Policiais lotados nas unidades do Alemão ou que já trabalharam lá também reconhecem a falência do modelo. As equipes hoje pouco circulam pela comunidade. A grande maioria fica dentro das bases e se sente insegura até para sair e comprar algo para comer durante o plantão. Os poucos que ainda fazem patrulhamento ficam restritos a ruas principais, com muito movimento. Um PM ouvido pelo GLOBO calcula que 90% do território estejam sob o controle total do tráfico. Por isso, a produtividade policial é considerada baixíssima, com quase nenhuma apreensão de drogas e armas ou prisões.

Para moradores, que experimentaram uma comunidade efervescente, onde os novos negócios prosperavam, o sentimento hoje é de frustração.

— Nós vivemos anos muito complicados com o tráfico ditando regras e estabelecendo normas sobre a nossa vida. A pacificação trouxe um sopro de esperança que durou pouco. Nos primeiros tiroteios após a UPP, já no ano seguinte, sabíamos que tudo teria sido em vão. Hoje, já não sei mais se o Alemão terá dias de paz novamente — desabafa uma moradora, sem se identificar por medo de represálias.

O medo voltou a calar os moradores. Muitas famílias evitam até receber amigos e parentes:

— Nós, do Alemão e da Vila Cruzeiro, vimos o sentimento de pertencimento à cidade indo embora junto com os serviços. Deixamos um pouco de nos sentirmos cidadãos — comenta um outro morador, há 25 anos no Alemão.

Para o sociólogo Ignácio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), houve erros de planejamento e execução na implantação da pacificação nos complexos do Alemão e da Penha.

— A entrada das UPPs não foi planejada como em outros locais. Foi uma reação a um momento obscuro de ataques em série no Rio. Não houve planejamento, a área é muito grande, com muitas dificuldades. Naquele momento e da forma como foi feita, a entrada da polícia foi um erro — disse o especialista.

O coronel Mário Sérgio Duarte, que comandava a Polícia Militar na época da ocupação, defende as medidas tomadas. Segundo ele, o Rio enfrentava uma onda de ataques: veículos eram incendiados, havia arrastões e ataques a policiais. Assim como Turnowski, o oficial reconhece a derrocada do projeto, mas acredita que a situação atual ainda é melhor que a de 2010:

— Aquilo foi um processo de libertação (da população) mal aproveitado. Mas o tráfico hoje não mantém o mesmo controle.

Reocupação no radar

Na opinião de Turnowski, o fim do projeto das UPPs foi decretado pela falta de integração entre PM e Polícia Civil, que não investigava nessas áreas. A solução, para ele, é focar em investigação para responder “à reocupação do território pelos traficantes”:

— No mundo inteiro, trabalha-se com tecnologia, inteligência e menos homens. No Rio, se multiplicou o número de policiais, e o investimento foi zero em tecnologia e inteligência. Voltamos à Idade Média, quando quem tem o maior exército é mais forte.

O governador em exercício Cláudio Castro disse, em entrevista publicada no GLOBO, no dia 10, que o Rio retomará a ocupação de favelas:

— Não há lugar onde o estado não possa entrar.