Dez novos deputados foram eleitos para a Alerj com o apoio de parentes políticos

Num estado em que historicamente clãs ganham espaço nos centros do poder, sobrenomes de peso continuam dando as cartas na renovação da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) em 2023, só que, desta vez, com dinastias nascentes lado a lado das antigas. Dos 32 deputados estaduais de primeiro mandato (45,7% do total de cadeiras), dez são parentes de políticos, metade deles de prefeitos da Região Metropolitana. Uma prova da supremacia dessas linhagens se revela na lista dos mais votados para o legislativo fluminense, com mais de cem mil votos. Dois são representantes das “casas” em ascensão: Douglas Ruas (PL), filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson; e Guilherme Delaroli (PL), irmão do prefeito de Itaboraí, Marcelo Delaroli.

Os dois, além de integrarem o mesmo partido, têm outras características em comum: são policiais, aliados do governador Cláudio Castro e, antes da primeira eleição, ocuparam cargos e funções de destaque nos seus municípios, beneficiados no último ano com recursos do leilão da Cedae e das emendas de relator, o polêmico “orçamento secreto”. Ruas é da Polícia Civil e foi nomeado secretário municipal de Gestão Integrada e Projetos Especiais em São Gonçalo logo que o pai assumiu a prefeitura, adotando um perfil de “super secretário” e ficando à frente das obras na cidade. Capitão Nelson chegou a ser acusado pela oposição no município de prática de nepotismo, mas acabou elegendo o filho com a segunda maior votação entre os candidatos que tomarão posse na Alerj.

– A minha entrada na política foi algo que aconteceu naturalmente. Cresci acompanhando e aprendendo ao longo da carreira política do meu pai – afirma Ruas, que tem irmão vereador e foi subsecretário de Trabalho de São Gonçalo entre 2017 e 2018, além de superintendente regional do Inea entre 2019 e 2020. – Sem dúvidas, o trabalho do prefeito enquanto estive secretário, com um volume de obras jamais visto, foram determinantes para que as pessoas me dessem essa oportunidade de ser representante raiz da nossa cidade na Alerj.

Ruas caminhou ao lado de Jair Bolsonaro e Cláudio Castro em São Gonçalo, cidade primeira do ranking no estado com recursos do orçamento secreto: mais de R$ 111 milhões somente este ano, de acordo com a ONG Contas Abertas. Do leilão da Cedae, já entraram nos cofres mais de R$ 700 milhões. Enquanto isso, a vizinha Itaboraí, de Guilherme Delaroli, recebeu até agora R$ 160 milhões da privatização da companhia e foi incluída em emendas de relator que somam este ano pouco mais de R$ 21 milhões.

Guilherme é policial militar, nasceu em São Gonçalo, mas foi criado em Maricá, onde chegou a se candidatar a vereador em 2012, recebendo apenas 40 votos. Seu irmão acabou mudando sua base política para Itaboraí, se elegendo prefeito e colocando Guilherme na prefeitura. No executivo municipal, atuava na área de transportes e obras como assessor especial. No dia a dia, o agora deputado eleito comandava inaugurações, fiscalizava intervenções pela cidade e representava e acompanhava o prefeito em agendas e solenidades, mesmo em Brasília. Ele diz que trabalhava na sua empresa de terraplanagem e que não tinha pretensões políticas até o irmão virar prefeito de Itaboraí, após três tentativas frustradas do irmão de ocupar a mesma cadeira em Maricá.

– Assim como meu irmão, Marcelo Delaroli, via meu pai (José Delaroli) tentando mudar a realidade das pessoas quando eleito vereador. Por ter seu trabalho e esforço reconhecidos, ele foi eleito e reeleito quatro vezes consecutivas em Maricá – conta o eleito.

A cientista política Mayra Goulart, responsável pelo Laboratório de Partidos e Política Comparada da UFRJ/UFRRJ, diz que o fenômeno visto nesta eleição para Alerj, na verdade, tem caráter nacional:

– A eleição para a Câmara dos Deputados mostrou uma certa orientação geral da política brasileira de retorno ao que seria seus padrões tradicionais. Ou seja, houve uma redução dos componentes ideológicos e um fortalecimento das elites políticas tradicionais. Essas grandes famílias retornaram com força nesta legislatura, inclusive no caso do Rio – afirma a cientista política Mayra Goulart, responsável pelo Laboratório de Partidos e Política Comparada da UFRJ/UFRRJ, acrescentando uma análise sobre o perfil de novos eleitos no estado. – Não foi através da correlação com o plano nacional que eles se elegeram. Isso mostra que a política no Rio de Janeiro ainda é determinada por vínculos locais, que é o que chamamos de política tradicional. Ela diz respeito ao controle de bases territoriais. Esse é o grande resultado que a gente vê nesta eleição.

As família tradicionais estão, inclusive, no futuro ministério do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Jader Filho, filho de Jader Barbalho, será ministro das Cidades, e Renan Filho, filho de Renan Calheiros, assume a pasta dos Transportes. E ainda terá Daniela do Waguinho, mulher do prefeito de Belford Roxo, Waguinho, no Turismo.

A cientista política afirma que na Baixada Fluminense, vista como reduto bolsonarista, os candidatos a deputado mais bem sucedidos – mesmo pertencendo ao espectro ideológico da direita – não fizeram campanha extensiva durante o primeiro turno para Bolsonaro. Da região, três prefeitos conseguiram ver herdeiros eleitos para a Alerj: Renato Cozzolino, de Magé, com o primo Vinícius Cozzolino (União Brasil); Marina do Modelo, de Guapimirim, com o irmão Júlio Rocha (Agir); e Jorge Miranda, de Mesquita, com o irmão Renato Miranda (PL). Todos eles comporão a base do governo Castro.

Ex-secretário de Governo e Fazenda de Magé, Vinícius é mais um na política da “dinastia” de cerca de quatro décadas da família Cozzolino na cidade da Baixada. Ele diz ter sido criado com o atual prefeito como “irmãos”:

– A gente montou as estratégias de campanha juntos, como também fizemos no governo dele. Eu fui secretário de Governo e fui chefe de gabinete dele na Alerj. Apesar de não ser conhecido, sempre contribuí de certa forma com o processo político.

Júlio Rocha também vem de um clã conhecido da Baixada. Ele é irmão da prefeita de Guapimirim, Marina Rocha, e do vereador Marlon do Modelo. Seu pai, César do Modelo, também foi vereador no município. Em 2008, se candidatou para a Câmara Municipal, mas terminou como suplente. De abril de 2021 a junho deste ano, ocupou cargo comissionado de assessor na Casa Civil do governo do estado. Antes disso, chegou a ser assessor parlamentar na Alerj. Na sua diplomação de deputado, declarou que vai “ajudar o governador Cláudio Castro”.

Em Mesquita, Renato Miranda exibe seu principal cabo eleitoral, o irmão prefeito, até no perfil do Instagram. Ele conta ser formado em administração, com MBA em gestão empresarial. Diz ainda ter trabalhado em consultorias e como professor antes de entrar definitivamente na política: ele foi por seis anos secretário municipal de Governança em Mesquita.

– Na verdade, meu pai (Sérgio Miranda) foi um dos emancipadores da cidade de Mesquita e se tornou vereador. Iniciei minha vida política desde muito novo ao lado do meu irmão e do meu pai – afirma o novo eleito da família. – Se não fosse o Jorge, nada disso estaria acontecendo.

O cientista político Eurico de Lima Figueiredo, do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF, destaca que a influência de clãs sobre a composição da Casa foi até maior no passado e que, mais uma vez, o Rio tem um número expressivo de eleitos favorecidos pelo uso massivo da máquina pública.

– O poder local e estadual sempre foi parte muito importantes da engrenagem política eleitoral. Quando tratamos de coronelismo, oligarquismos e máquinas políticas partidárias, temos que lembrar que há uma herança que vem de longe, que se caracteriza pela capacidade de certas lideranças se transformarem em coronéis de grupos clânicos. Se não são eles os eleitos, é o filho, o pai, um irmão ou irmã, a mulher... Isso é uma característica do sistema político brasileiro que ainda persiste – ressalta o professor, citando o clássico da ciência política “Coronelismo, enxada e voto”, livro do jurista, ex-ministro do STF e professor da UFRJ Vitor Nunes Leal.

No final dos anos de 1940, Nunes Leal jogava luz sobre esse aspecto do processo eleitoral brasileiro:

– Não me causa surpresa que ainda exista esse tipo de liderança com capacidade de transferência de votos por meio de máquinas políticas montadas. São prefeitos, deputados, secretários de estado e municipais que mostram ter essa capacidade. E quando persistem na linha do tempo mais fortes eles ficam. Mas não são imutáveis, podem ser superados pelo próprio processo político, como aconteceu no Maranhão com o clã Sarney e na Bahia com a família de Antônio Carlos Magalhães.

Entre os novatos da Alerj, um chama a atenção por ser fisicamente idêntico a um velho conhecido por lá, o ex-deputado Márcio Pacheco, hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE). No dia da diplomação, Fred Pacheco (PMN) inclusive foi confundido com o irmão gêmeo por convidados. Ambos são cantores católicos e formam a dupla Fred & Márcio. O deputado eleito ainda é vocalista da Banda Dom, famosa no meio da igreja. Pela ligação da família com o governador reeleito, Fred deverá atuar como fiel escudeiro de Castro na Alerj. Márcio começou como vereador em 2004, empregando no seu gabinete Castro (que também é cantor católico) como seu assessor. Na sua primeira eleição a deputado, em 2014, levou o amigo, que chama de “irmão”, para ser seu chefe de gabinete.

Márcio esteve ao lado de Castro quando este se lançou na campanha a vereador, em 2016, e participou das negociações para que o amigo integrasse a chapa de Wilson Witzel ao governo como vice. Foi líder do governo dos dois. Após Castro assumir o Palácio Guanabara, virou alvo de uma investigação de nepotismo por ter seis parentes nomeados em cargos de confiança do estado, inclusive Fred.

Os atuais presidentes da Câmara do Rio, Carlos Caiado (sem partido), e Alerj, André Ceciliano (PT), são outros que conseguiram passar seu DNA através das urnas em 2022. Administrador de empresas, Cláudio Caiado (PSD) conta que coordenou todas as campanhas do irmão vereador. No ano passado, ele foi nomeado secretário municipal de Habitação pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes.

– A SMH foi um divisor de águas, não tinha vivido a experiência de contato direto com a população e seus anseios. Foi um momento de reflexão, conversei muito com o meu irmão sobre e decidi me candidatar pela primeira vez – diz Cláudio, que promete seguir na Alerj orientação do partido e do irmão. – A participação do Caiado (na campanha) foi importante, ele é a minha referência de figura pública e pretendo seguir seus passos como homem público.

De Paracambi e filho do presidente da Alerj, Andrezinho Ceciliano (PT), aos 24 anos, será o deputado mais novo da Casa. Para conseguir dar conta da campanha, precisou trancar a faculdade de Direito no Ibmec. Ele reconhece que foi ajudado para além da Baixada pelo pai em sua campanha derrotada ao Senado. Mas tenta se desvincular da imagem que o resume a filho do presidente da Casa:

– Os rótulos acontecem, mas não fiz campanha colada à imagem do meu pai – afirma ele, que diz ter feito uma campanha falando para a juventude, sem fisiologismo e “sem grande máquina política por trás”. – O bacana da campanha do meu pai é que ela se espalhou pelo estado inteiro. Fomos votados nos 92 municípios, nem que seja com ao menos um voto. Ele me ajudou nesse sentido, contribuindo com visibilidade.

Psicóloga, Giselle Monteiro (PL), após ser diplomada para a Alerj, fez um agradecimento especial ao seu grande cabo eleitoral: o irmão Gabriel Monteiro, cassado pela Câmara do Rio e preso desde 7 de novembro em Bangu sob acusação de estupro. Durante a campanha, mesmo investigado pela polícia e réu na Justiça por importunação e assédio sexual, ele conseguiu transferir eleitores para a irmã, eleita na sua primeira disputa.

No setor público, ela já havia ocupado de outubro de 2021 a junho de 2022 cargo de comissão de Coordenador de Vice-Presidência da Faetec, atuando na ouvidoria do órgão. De Niterói, ela também trabalhou como cerimonialista em casamentos, festas e eventos corporativos. Gabriel Monteiro, mesmo após o escândalo, promete nortear a atuação de Giselle, que prometeu nas redes repetir o papel de “fiscalizador” do irmão. O ex-vereador ainda elegeu o pai, Roberto Luiz Rodrigues, a deputado federal.

Otoni de Paula Pai (MDB) é mais um da bancada dos agregados. O nome não deixa dúvidas: ele é pai de Otoni de Paula (MDB), deputado federal reeleito que se destaca por ser bolsonarista ferrenho e causador de polêmicas sucessivas. O pai se define como “cantor e pastor” e não é muito diferente do filho nas suas redes sociais. Aliás, elas têm sido usadas para defender e divulgar discursos e falas do parlamentar do Congresso, que está há mais de um ano com suas redes bloqueadas por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), devido a possíveis ataques à democracia. O pai, inclusive, já postou o filho, que chegou a ser condenado por ofender Moraes, falando do ministro na tribuna do plenário. O nome de Otoni de Paula, o pai, vem fazendo parte de negociações do filho no MDB para um cargo de secretário no governo Cláudio Castro.

Apesar de surfar no eleitorado do deputado federal que leva seu nome, não dá para dizer que Otoni de Paula Pai é um novato na política. Ele já embarcou em campanhas próprias outras vezes: em 2018 e 2020, terminou como suplente ao concorrer, respectivamente, a deputado estadual e vereador. No fim dos anos de 1980, foi vereador em Nova Iguaçu. Seu slogan era “não abro mão da sua amizade”. Um dos seus antigos amigos da Assembleia de Deus é o pastor Everaldo Pereira, que chegou a ser preso por esquemas de corrupção na saúde do estado durante a pandemia. Mesmo tendo sio eleito pelas urnas, Otoni Pai divulgou um vídeo em que Otoni Neto (o sobrenome entrega o parentesco) aparece de verde e amarelo protestando contra a vitória do ex-presidente Lula.