Dez perguntas para Kátia Barbosa

O Globo
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Berg Silva / divulgação
Berg Silva / divulgação

Criadora do famosíssimo bolinho de feijoada, Kátia Barbosa não perde um Rio Gastronomia. Da primeira área de convivência, montada no Museu de Arte Moderna em 2011, ao ano passado, no Píer Mauá (passando pelos tempos de agito no Jockey Club), a dona do restaurante Aconchego Carioca acompanhou de perto o amadurecimento do evento, hoje o maior do gênero no país. Kátia participou dessa história que é a da evolução da própria gastronomia carioca nos últimos dez anos. No bate-papo a seguir, a chef lembra passagens marcantes de suas participações, fala de pandemia, do trabalho na TV e de novos passos na cozinha.

Qual a primeira lembrança que você guarda do Rio Gastronomia?

Quando fui dar a minha primeira aula o liquidificador explodiu! Foi engraçado e desafiador, era a primeira vez que eu subia num palco para dar aula. Também sempre vem à cabeça a experiência das aulas no caminhão, a Cozinha Show com a qual circulávamos pela cidade. Mas a lembrança mais emocionante talvez tenha a sido a dos ecochefs, um projeto bacana de cozinha e sustentabilidade, que, dentro do Rio Gastronomia, foram para a rua mostrar e vender receitas típicas das outras regiões do país, ou seja, uma comida brasileira que os cariocas não conheciam.

Fora do evento, você já tinha participado desta experiência de estar tão próxima do público antes?

Sou uma cozinheira que gosta do cara a cara com os meus clientes. A relação com plateia, um público que nunca havia me visto, foi muito diferente e bem legal. Nós, seres humanos, precisamos da aprovação das pessoas, né? Para mim, que não tinha feito escola de gastronomia, participar do evento desde o início e ser bem aceita, receber o carinho das pessoas, foi muito importante.

Fazendo um balanço deste tempo, que transformações mais marcantes você enxerga na gastronomia do Rio?

O balanço é super positivo. O Rio deixou de lado a comparação com o serviço e a diversidade de São Paulo e partiu para uma gastronomia criativa e alegre, que valoriza o cliente e o jeito carioca. 0s cozinheiros se especializaram, viajaram e trouxeram uma bagagem linda das experiências de fora, tornando nossa gastronomia muito bacana.

E na sua cozinha?

Mudaram algumas técnicas, mas nos cardápios sigo na mesma linha, de alçar a comida brasileira ao papel de grande estrela.

Em 2013 você dividiu com o público do Rio Gastronomia a receita de um petisco lendário: o bolinho de feijoada. Ver o seu bolinho ser copiado por toda parte te incomoda?

Vou te falar sobre dividir. Meu pai fazia a melhor cocada e o melhor quebra-queixo que eu já comi, mas ele se foi e nenhum dos nove filhos dele, quase todos cozinheiros, consegue reproduzir aqueles doces. Isso é muito triste. Então pensei, qual a graça de criar uma coisa tão gostosa e não poder dividir? Fui lá e contei para todo mundo. Foi lindo e libertador.

Em meio à uma pandemia que trouxe tantas dificuldades para o setor, de que maneira você acha que o Rio Gastronomia pode contribuir para sua recuperação?

Acho que a gente precisa mostrar às pessoas que não vamos parar, vamos nos adaptar! E o evento nos ajuda a trocar energia.

Ao longo do ano você investiu no delivery e criou o Katita em Casa. Foram as saídas possíveis?

Esse projeto já estava na minha cabeça, mas eu precisava testar a técnica, as receitas, e não tinha tempo para nada. Aí a pandemia veio e nos obrigou a parar. Foi o momento. O Katita em casa é um serviço de entregas de comida embalada a vácuo que o cliente recebe resfriada ou congelada. O grande barato é que a embalagem conserva o sabor e textura dos alimentos, e, de quebra, ainda é uma maneira mais segura de transportar a comida em tempos de pandemia.

Há novos planos no horizonte? Pode contar?

Sim, planos eu tenho sempre, sou inquieta e amo trabalhar. Inauguro no dia 24 de novembro o Katita, no Taste Lab do NorteShopping, e também já começamos a produção dos bolinhos em terras lusitanas! Em Lisboa a gente faz entregas por delivery e fornece para alguns restaurantes.

Como foi a experiência de ser jurada nas duas edições do reality culinário da TV Globo,

A TV é uma delícia, muito legal de fazer, e estar com amigos só faz melhorar. No começo fiquei preocupada de não conseguir ser espontânea, mas estamos falando de direção de Boninho e LP Simonetti, aí fica tudo fácil, né? Eu me apego demais, sou completamente apaixonada por jovens talentosos. É muito triste vê-los sair por um erro bobo, mas o convívio em geral é na base de muita gargalhada e brincadeira.

Você agora cuida da cozinha do Bar da Marrom. Como surgiu o convite?

Um dos sócios sugeriu o meu nome e a Alcione disse na hora: foi exatamente nela que eu pensei! Estou encantada com o trabalho, a Alcione tem uma energia fantástica, me ajuda, dá dicas. Além daquele vozeirão, ela é uma tremenda cozinheira. Eu nunca tinha comido arroz de cuxá, por exemplo, e precisei da ajuda dela no preparo. O cardápio da casa se identifica com o samba, com o Rio, mas num bar da Marrom não poderiam faltar coisinhas da terra dela. Então fiz coisinhas como bolinho de arroz de cuxá recheado de camarão, patinha de caranguejo e mocofava, que é mocotó com fava. Uma delícia.