Dez surfistas foram presos no fim de semana na orla de Ipanema e Leblon por descumprirem decreto estadual

Gustavo Goulart
Surfista na orla carioca nesta fim de semana

RIO — O fim de semana de sol e de ondas não foi nada agradável para um grupo de surfistas na Zona Sul do Rio. Dez esportistas foram presos pela Polícia Militar por descumprirem um decreto estadual que proíbe a frequência de pessoas em praias, lagoas e rios do estado. Vídeos enviados ao GLOBO feitos por pessoas anônimas mostram prisões de surfistas em Ipanema e no Leblon. Em todos eles, pessoas aparecem circulando pelos calçadões dos dois bairros, muitas delas sem máscaras, enquanto os surfistas eram encaminhados para os carros da PM.

Um deles foi o aposentado Celso Riera, de 59 anos, que foi gerente do Banco do Brasil durante 33 anos de sua vida. Surfista amador, Riera foi preso na manhã de sábado depois de ser flagrado surfando na Praia do Leblon, em frente à Rua Aristides Espínola, sozinho. Ele argumentou aos policiais que pegou apenas duas ondas e que não ouviu os apitos por estar usando protetores auriculares. Em vídeos feitos por um turista e por anônimos, ele aparece tentando argumentar com policiais militares já junto aos carros dos PMs.

— De nada adiantou eu contar a minha história para os policiais militares. Há cerca de um ano eu caí do pico de uma onda e bate na base com uma das orelhas. Teve o tímpano perfurado. E desde então uso protetores auriculares. Eu não ouvi os apitos. Peguei apenas duas ondas isso aí rapidamente quando vi os acenos dos policiais. Conversei com eles mas não teve jeito. Tive que deixar minha prancha no posto 12 para ir a 14ª DP (Leblon), onde assinei um termo circunstanciado por infração de medida preventiva — comentou.

Segundo ele, ao chegar à 14ª DP, encontrou um jovem surfista de 18 anos que fora preso minutos antes no mesmo lugar.

— Era um jovem que mora na Califórnia onde estuda e que está no Rio de Janeiro por causa da pandemia. Estava inconformado com a prisão. Logo depois chegou um outro surfista também preso. Meu sentimento hoje é de que houve uma injustiça, uma incoerência, já que as regras não estão muito claras. Havia muita gente circulando no calçadão das praias e nada acontecia com eles — desabafou o surfista.

Enquanto esportistas eram presos na Zona Sul, nas praias da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes a prática do esporte no fim de semana foi intensa. O presidente da Associação de Surfe da Barra da Tijuca, Milton Waksman, comentou que é muito difícil para a Polícia Militar fiscalizar duas praias tão grandes.

— É humanamente impossível que policiais militares consigam fiscalizar quilômetros e quilômetros de praias. Por isso, no fim de semana, muitos surfistas entraram na água sem serem incomodados — analisou.

O surfista Juarez Oliveira, de 59 anos, surfa eventualmente na Barra da Tijuca em frente ao Posto 5 da Barra da Tijuca. Neste domingo, segundo ele, foi abordado por uma policial militar e deixou o mar prontamente.

— As pessoas estão conscientizadas, ninguém fica mais aglomerado. Tem espaço suficiente na Barra para todo mundo. Queria que fizesse um laudo para mostrar que o mar contamina as pessoas. Eu e meu filho, por exemplo, surfamos com máscaras de lycra, que são impermeáveis.

Presidente da Federação de Surfe do Estado do Rio de Janeiro, Guilherme Aguiar, comentou que os surfistas estão sendo constrangidos. E que é preciso uma regra clara para esta atividade.

— Há duas semanas, 10 pessoas foram presas em São Conrado e outras duas no Arpoador. Gostaria que houvesse uma análise em relação à prática de surf. Vários esportes como ciclismo e corridas estão liberados. Sabemos que precisamos respeitar a lei. Mas é preciso haver bom senso dos dois lados — comentou.

Segundo a PM, no último fim de semana foram efetuadas dez prisões de pessoas que estavam praticando a atividade na orla do Leblon e Ipanema. Segundo a assessoria da PM, diante de uma situação de descumprimento, os policiais militares nas areias tentam verbalizar e alertar os cidadãos.

Segundo o comando do 23ºBPM (Leblon), nas praias em que a unidade atua, no sábado, sete pessoas foram conduzidas para a delegacia e, no domingo, uma pessoa foi conduzida. Já o comando do 19ºBPM (Copacabana) informou que duas pessoas foram encaminhadas para a delegacia, uma no sábado (16/5) e a outra no domingo (17/5). Os dois casos aconteceram na Avenida Atlântica.

A Polícia Militar ressalta em nota que, desde a adoção das primeiras medidas restritivas implementadas pelo Governo do Estado, tem desenvolvido trabalho de conscientização, inclusive com divulgação pelo sistema de alto-falantes das viaturas em diferentes idiomas para orientar sobre os riscos de aglomerações. Ainda de acordo com a PM, as equipes atuam com os recursos operacionais disponíveis, mas há fatos que, segundo a instituição, extrapolam a capacidade operacional.