Dia da Consciência Negra: confira eventos em quilombos e centros culturais

Um momento de reflexão, para relembrar todas as lutas; de resistência, a fim de reivindicar mais direitos e igualdade; e celebração, para festejar a riqueza cultural herdada da ancestralidade. É assim que lideranças pretas e pessoas ligadas ao movimento costumam definir o Dia da Consciência Negra, comemorado hoje, acrescentando uma ressalva: a negritude deve ser pauta diária.

— É um dia de celebrar toda a nossa história e de debatermos sobre a mortalidade dos nossos jovens negros e as desigualdades social e racial do nosso país, além de simbolizar a luta para que nossa etnia tenha mais oportunidades de emprego, educação e saúde — resume Hosania Nascimento, coordenadora do Ponto de Cultura Quilombo Aquilah.

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Quilombo Aquilah

O espaço, na Rua Godofredo Viana 64, no Tanque, é um dos que têm programação especial para a data. Realizará neste domingo, dia 20, das 11h às 17h, a Festa da Consciência Negra, com feijoada quilombola, um espetáculo do grupo de palhaçaria Cia 2 Banquinhos e apresentação das Pastoras do Aquilah, grupo de mulheres sambistas. A entrada é gratuita, e a feijoada custa R$ 35. O valor arrecadado será destinado à reforma da sala de cursos de capacitação profissional do local. Pelo reconhecimento do trabalho desenvolvido, o Aquilah recebeu este mês da prefeitura a medalha Ordem de Mérito Cultural.

— Aquilah, em afro-árabe, significa mulher guerreira, que não espera as coisas acontecerem e vai à luta — explica Hosania. — Trabalhamos prioritariamente a saúde da população negra, que tem mais dificuldade de acesso a esse serviço. Montamos sempre postos de atendimento nos quilombos da Baixada de Jacarepaguá. Paralelamente, temos atividades de dança, de música e agroculturais, incluindo reflorestamento de vegetação nativa, farmácia fitoterápica e horta medicinal.

Outro ponto forte do quilombo é a gastronomia:

— Estamos logo na primeira página do Zungu, guia de gastronomia preta do município. Nossa culinária é afetiva e bem reconhecida pelos cariocas, com pratos da região Sudeste, como Minas Gerais, de onde vieram a maioria dos antepassados das nossas mulheres, e também da Bahia.

O Aquilah oferece atendimento jurídico para mulheres de comunidades do entorno vítimas de violência. E também consultas nas áreas de geriatria, cardiologia e clínica médica, oficinas de percussão e aulas de canto, artesanato e capoeira. Tudo gratuitamente.

— É importante sempre lembrar o papel do negro na construção desse país, com sua rica contribuição cultural. Muitas coisas que trazem riqueza e atraem turistas para o Rio, como o samba, foram criadas pelo preto. Até as belezas naturais devem muito ao cuidado de nossos ancestrais com a questão ambiental. Todo esse ativismo faz parte do nosso trabalho — diz Hosani.

Quilombo Cafundá Astrogilda

A temporada de eventos relacionados ao Dia da Consciência Negra também é um bom pretexto para se visitar as comunidades quilombolas de Jacarepaguá.

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Neste domingo, das 9h ao meio-dia, o Quilombo Cafundá Astrogilda, localizado na Rua Luiz Borracha 722, em Vargem Grande, dentro do Parque Estadual da Pedra Branca, receberá o público com um café da manhã da roça, preparado e servido pelas matriarcas de um dos núcleos familiares do quilombo, o Dinda Laura. A programação terá também teatro, dança, música e artesanato. Durante a tarde, das 13h às 17h, a festa continuará, com feijoada, feirinha e roda de samba, na Escola Quilombola.

— É um dia de celebrar, então, amigos e parceiros do quilombo vêm participar do evento e cada um apresenta sua arte. É tudo muito espontâneo. Não são oficinas. A música vai ser uma roda de samba depois da feijoada — explica Sandro da Silva Santos, presidente da associação de moradores do quilombo. — Disponibilizamos as barracas e cada morador ou parceiro traz seu produto, geralmente alimentos da agricultura local ou artesanato.

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O quilombo mantém o projeto Ação Griô, cuja proposta é receber escolas, universidades e turistas para aulas de campo e oficinas de agroecologia. Segundo Santos, o programa recebe entre 1.200 e 1.500 pessoas por ano. Já a Escola Quilombola funciona como centro social, desenvolvendo trabalhos dentro do território e em comunidades da vizinhança.

— A palavra cafundá é uma variação da expressão cafundó, e Astrogilda foi uma das grandes matriarcas da comunidade, que, entre os anos de 1934 e 1962, fundou no território um centro de umbanda — conta ele. — Presente há mais de 200 anos, vivendo da agricultura e dominando técnicas e conhecimentos ancestrais de manejo florestal, a comunidade quilombola Cafundá Astrogilda é a grande responsável por uma das áreas mais preservadas do Parque da Pedra Branca. Hoje, é composta por 110 famílias, alocadas em núcleos distantes uns dos outros dentro da Mata Atlântica, na vertente sul do parque.

Quilombo do Camorim

No próximo sábado, o Quilombo do Camorim, na Estrada do Camorim 922, promoverá o evento Dandara e Zumbi, que será aberto com uma palestra sobre a história do território. Ao meio-dia, será servida uma feijoada preparada a lenha. O almoço será seguido de uma sessão de poesias, algumas autorais, recitadas por moradores e de uma roda de jongo.

— Este é um dos quilombos mais antigos do estado. Data de 1614, com suas tradições históricas e culturais e seus ambientes mantidos por diversas gerações. Trabalhamos, por exemplo, com a proteção do meio ambiente, não só da fauna e da flora, mas do meio em que vivemos, como nossas casas e logradouros. Temos inclusive um núcleo de educação ambiental e reforço escolar em que recebemos alunos de 4 a 16 anos de escolas públicas — explica o líder Adilson Almeida.

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A festividade será aberta ao público e gratuita, inclusive a feijoada, cujo pagamento será opcional. Haverá ainda expositores de artesanato afro e barracas de acarajé e bebida.

— Muito se fala em consciência preta, mas o preto tem consciência do que ele é. O que precisamos é de resistência, para buscar os tais direitos a educação, saúde e moradia que nunca nos foram dados plenamente desde a assinatura da Lei Áurea, em 1888 — pontua Almeida.

Stella do Patrocínio

História de expoentes da cultura negra vêm sendo lembrados ainda nos centros culturais da região. O Museu Bispo do Rosário, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, apresenta uma exposição sobre Stella do Patrocínio, uma empregada doméstica nascida em 1941 que, detida arbitrariamente pela polícia, viveu três décadas em manicômios. O último foi o Juliano Moreira, onde permaneceu até sua morte, aos 51 anos. A mostra, em cartaz até 24 de abril, de terça a sexta-feira, das 10h às 17h, leva ao público uma série de falas de Stella gravadas por artistas que visitavam a colônia.

— Stella era uma mulher muito altiva e tinha uma fala muito poética, mas também muito atual no sentido de retratar a condição da mulher negra, vista como louca. Ela falava sobre como a psiquiatria lidava com esse corpo, de alguma forma objetificando-o, além de fazer uma crítica à nossa sociedade, que acaba excluindo as diferenças — conta Raquel Fernandes, diretora do museu.

Museu do Pontal

No Museu do Pontal, na Barra, até 29 de janeiro uma exposição conta a história do octogenário Djalma Corrêa, um dos mais conceituados percussionistas da música popular brasileira, que tocou com artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. A mostra, de quinta a domingo, das 10h às 18h, é composta por fotos, vídeos e áudios feitos pelo artista em suas andanças pelo país para entender a influência das sonoridades da África, expressa nos terreiros e na capoeira, por exemplo, na cultura brasileira.

— Ele é uma grande referência da música afrobrasileira; fez bases percussivas para grandes artistas — afirma a antropóloga Cecília Mendonça, curadora da exposição. — Formatamos o acervo dele em coleções. Uma delas se chama Religiões de Matriz Africana e mostra registros de sessões em terreiros de Salvador.

Neste domingo, o museu terá ainda uma roda de jongo, às 16h; e, no próximo, no mesmo horário, a encenação da peça “O casamento de Abena”, conto africano sobre uma princesa negra disputada por vários pretendentes.

Musical sobre Alcione

Já na Cidade das Artes Bibi Ferreira estreia, sábado que vem, “Marrom, o musical”. Com texto e direção de Miguel Falabella, o espetáculo revisita Alcione em suas diferentes versões, menina, mulher, filha amorosa, musicista apaixonada e perseguidora de sonhos, fazendo também referência à terra da artista, o Maranhão. A peça fica em cartaz até 5 de fevereiro, com ingressos vendidos no Sympla.