De Joesley a Moro: discussão sobre disse-não-disse é o "Dia da Marmota" da política brasileira

Manifestante protesta contra Sergio Moro. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Disse.

Não disse.

Não foi bem assim.

Tem um contexto.

Até disse, mas o assunto era outro.

Ele estava com sono. Não prestou atenção no que o interlocutor dizia.

Vai cair?

Pode cair.

Ele anda sem moral, mas pode botar para funcionar sua tropa de choque no Congresso.

Há exatos três anos, essas eram as questões que botavam o governo Michel Temer numa panela de pressão após receber em sua residência oficial, na madrugada, o empresário Joesley Batista, da JBS.

Joesley, que costurava uma delação premiada conturbada com a Procuradoria Geral da República, trazia escondido um gravador na visita fora de hora.

No dia 17 de maio de 2017, o empresário e seu irmão, Wesley, levaram até o Supremo Tribunal Federal o que na época foi chamado de “bomba atômica”: com um dúbio “tem que manter isso aí”, Temer tinha dado aval ao empresário para comprar o silêncio do ex-aliado Eduardo Cunha (PMDB), ex-presidente da Câmara preso em Curitiba.

Na conversa, Temer indicava o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para resolver uma “pendência” do interesse dos irmãos Batista. Pouco depois, o emissário foi filmado recebendo uma mala com R$ 500 mil enviados por Joesley.

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A cena era clara, mas nas semanas seguintes a discussão interminável em Brasília era o que Temer queria dizer quando disse o que disse. “Tem que manter isso aí” era, afinal, o aval para a mesada ao ex-deputado ou para o bom relacionamento citado pelo delator?

A resposta é óbvia, mas os malabarismos jurídicos, semânticos e políticos fizeram com que Temer seguisse — desidratado, é verdade — até o fim do mandato que tanto fez para poder chamar de seu.

Pouco mais de um ano antes, outra gravação embaraçosa, obtida por meios até hoje contestados, impediu a posse de Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Civil. Nela, a então presidente Dilma Rousseff orientava o antecessor a como agir após receber de um emissário, o Bessias, um termo de posse. A orientação foi interpretada como uma espécie de vacina caso a polícia batesse às portas do líder petista com uma ordem de prisão assinada na primeira instância (alguém lembra quem autorizou a gravação?). Como ministro, ele teria foro privilegiado.

Dilma sempre negou que foi aquela a intenção, mas o estrago estava feito e seus dias como governante, por um fio.

Em maio de 2020, o Brasil vive novamente seu Dia da Marmota, como o personagem de Bill Murray que acorda sempre na mesma data odiosa no filme “Feitiço do Tempo”.

A discussão agora é se Jair Bolsonaro disse o que Sergio Moro disse que ele disse na tal fita da reunião ministerial em que foi ameaçado de demissão. O ex-ministro da Justiça jura que Bolsonaro o pressionou para trocar, como de fato fez, a direção-geral e a chefia da Polícia Federal no Rio sem apresentar um motivo razoável. No meio da conversa surgiu a menção aos filhos, segundo quem assistiu ao encontro.

Bolsonaro jura que se referia à troca da segurança dos herdeiros, o que não era atribuição do ministro da Justiça cobrado ali, e sim do Gabinete de Segurança Institucional.

A defesa do presidente está armado: não tem referência à Polícia Federal na fita. Segue o jogo.

Segue?

Moro afirma que o registro da reunião comprova o que afirmou em depoimento e em entrevistas: Bolsonaro tinha interesse em mudar a direção da PF.

Quais, não se sabe.

A suspeita é que ele quisesse fechar na nascente uma possível investigação contra os filhos, possivelmente envolvidos com rachadinhas e gabinetes de ódio. Bolsonaro jura que não há nada contra eles.

Ao menos um ex-delegado já o desmentiu.

O dito pelo não dito agora é questão de fé, esta que levou Bolsonaro à Presidência sob o manto do mito -- ou mitomaníaco, para alguns, inclusive o filtro do Instagram para fake news.

No meio de uma pandemia, tempo, recursos e energias preciosas são dispensados sobre ditos e não ditos que podem servir como balas de prata se não forem desmentidos, mesmo sob os arranjos mais chinfrins.

Não tem lógica que mantém de pé a conversa de que a segurança dos filhos fosse tema da reunião ministerial de 22 de abril.

Acredita quem quer, mas quem quer é exatamente quem pode ou não levar a suspeita adiante, na Procuradoria ou no Supremo.

Não bastasse isso, Bolsonaro acaba de apresentar, após quase dois meses de dito-não-dito, as provas de que ele não foi infectado pelo coronavírus como seus auxiliares. Ele, não: Airton, Rafael e 05, os pseudônimos usados nas fichas médicas. 

Por quê? E por que demorou tanto tempo para simplesmente provar que era verdade o que ele disse que disse?

Não se sabe. O que se sabe é que a discussão, como as outras, já ganham feições novelísticas e está longe de acabar.

É o que fazemos de melhor.

É o que fazemos de pior.

São mais de 13 mil mortos na pandemia. É mais do que todas as previsões feitas pelo presidente desde o início da crise, inclusive sobre a cura. E daí? Que valor têm as palavras de um presidente numa crise dessa proporção, não é mesmo?

Na dúvida, o presidente que errou todas acaba de editar uma Medida Provisória (MP) que livra de responsabilidade o agente público que cometer um erro nas ações de combate à pandemia do novo coronavírus. Por quê? Que comece a discussão.

Só lembrando: 13 mil mortos.

Treze.

Mil.

Mortos.


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