Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha: o que reivindicamos 30 anos depois?

Tela do pintor suíço Félix Edouard Vallotton (Imagem: Wikimedia Commons)
Tela do pintor suíço Félix Edouard Vallotton (Imagem: Wikimedia Commons)

Não contempladas integralmente pelo movimento feminista e pelo movimento negro, um conjunto de mulheres negras instituiu o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha em 25 de julho de 1992. O marco se deu no encontro ocorrido naquela data em Santo Domingo, capital da República Dominicana.

De lá para cá, muitos avanços foram feitos — aprovação da lei de cotas, presença na política e em outros espaços de poder e maior visibilidade para a luta são exemplos —, e 30 anos depois ainda há muito o que reivindicar. Nesta segunda-feira (25), mulheres marcham pelas ruas, a fim de chamar atenção para a garantia de direitos básicos a quem está na base da pirâmide social.

Como diz a professora Sandra Petit, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), os países são marcados por uma herança de 300 a 400 anos de escravismo num contexto em que as mulheres negras são até hoje subjugadas, os principais alvos dos crimes de crimes de violência de gênero e recebem menos do que homens e mulheres brancas que exercem suas mesmas funções nos ambientes de trabalhos.

"Essa violências atingem de forma desproporcional as mulheres negras no Brasil", aponta, ao citar os crimes de feminicídio, violência doméstica, assédio sexual e moral, além de racismo religioso, em entrevista ao Yahoo. "São elas as principais vítimas desses fenômenos, então há muita coisa a se fazer ainda", acrescenta a docente que coordena um Núcleo de Africanidades Cearense.

A avaliação é a mesma feita por Angela Oliveira, pesquisadora de moda e história da arte. Ela ressalta que a luta passa ainda pela garantia de direitos básicos, o que ficou mais evidente com a pandemia de Covid-19. "Para as mulheres negras, ainda falta segurança. [Queremos] menos hipersexualização de seus corpos e oportunidades para ocupar mais espaços de poder", defende.

A política institucional é justamente um dos focos de atenção da militância que contribui para a construção de candidaturas e defende o reconhecimento de novos nomes. No Congresso Nacional, mulheres negras são apenas 2,3% dos parlamentares, segundo relatório de 2019 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), publicado pelo portal "Metrópoles".

Hoje nós lutamos pra que esse número seja mais proporcional à representação negra no paísfrisa Sandra Petit, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC)

No Executivo federal, nenhuma das ministras é mulher negra. Quanto aos candidatos à Presidência da República, apenas Vera Lúcia (PSTU) se enquadra como tal, mas ela não aparece com chances de chegar ao segundo turno. Segundo o último Datafolha, divulgado em junho, a postulante marcou somente 1% das intenções de voto.

Os candidatos mais bem posicionados no levantamento, respectivamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual presidente Jair Bolsonaro (PL), também não contam com mulheres negras nos postos de vice. O primeiro tem como candidato seu ex-adversário político e ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSB). Já o segundo tem o general e seu ex-ministro da Defesa, Braga Netto (PL), na posição.

Além disso, questões caras à comunidade negra como a lei de cotas, que deve ser revisada neste ano, não têm ganhado mais do que o silêncio dos presidenciáveis.

Conscientizar para mobilizar

Professora universitária, Sandra Petit pondera que ainda é difícil difundir o conhecimento sobre a importância do dia 25 de julho e sobre as mulheres que lideraram e lideram até os dias de hoje lutas fundamentais para o coletivo. Um caminho para disseminar esse conhecimento é a Lei 10.639, de 2003. O texto em questão prevê a inclusão de estudos sobre História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial da rede básica de ensino, mas estudiosos apontam que essa implementação anda a passos "lentos e inseguros".

É importante que no próximo governo, que esperemos que seja um governo progressista, nós tenhamos a amplificação dessa implementação. A universidade precisa mudar seus currículos, nós precisamos ter os nomes dessas autoras negras nas bibliografias. É inadmissível que hoje, nas universidades, continuemos tendo um currículo extremamente eurocêntrico, brancocêntrico e masculino".Sandra Petit, professora e pesquisadora

Tereza de Benguela e outras mulheres negras

Neste 25 de julho também se celebra o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder quilombola de Quariterê, no Mato Grosso, que atuou durante o século XVIII. Também chamada de rainha, Tereza é considerada uma estrategista por ter coordenado a ação de grupos negros e indígenas antes da abolição da escravatura.

Além dela, outras mulheres a reconhecer e celebrar são a intelectual Lélia Gonzalez, a diretora do Geledés, Sueli Carneiro, a escritora Conceição Evaristo e a psicóloga Cida Bento, para citar algumas referências brasileiras. Na América-latina, outros nomes lembrados são a militar que combateu na Guerra da Independência da Argentina, María Remedios del Valle, a cineasta cubana Sara Gomez, uma das heroínas da Revolução Haitiana, Suzanne Bélair, a escritora caribenha Maryse Condé, a poeta e coreógrafa peruana Victoria Santa Cruz e a atual vice-presidente da Colômbia, Francia Márquez, entre outras.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos