Do assedio ao caos na pandemia: machismo político envergonha e mata

Matheus Pichonelli
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BRASILIA, BRAZIL - JULY 02: A member of the 'Levante de Mulheres' (Women's Uprising) group holds a sign that reads
"Levante de Mulheres" foi às ruas contra Bolsonaro em julho de 2020. Foto: Andre Borges (via Getty Images)

Em 16 de dezembro do ano passado, pouco depois de cochichar no ouvido de um colega no plenário da Alesp, a Assembleia Legislativa de São Paulo, como se dissesse “fica vendo o que vou fazer”, e após uma tentativa frustrada de ser contido, o deputado Fernando Cury (Cidadania) se aproximou de Isa Penna, parlamentar do PSOL, que falava com alguém na mesa diretora, a apalpou seus seios, por trás. O assédio, na frente de todos, menos da vítima, foi flagrado pelas câmeras da Casa.

Em 5 de março, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta segunda-feira 8, o Conselho de Ética premiou o assediador com um gancho de quatro meses de suspensão.

Quase um prêmio para quem corria o risco de perder o mandato.

Ao saber da punição, a deputada classificou a decisão como um “tapa na cara de todas as mulheres”. “Passa uma mensagem de legalização do assédio, porque é um precedente político e jurídico. Hoje a gente viu como os políticos tratam a nossa Constituição”, disse ela em entrevista ao jornal O Globo.

O episódio é educativo. Não só porque grita, com o atrevimento, que aquele não é espaço para uma mulher. Mas também porque mostra que a impunidade, como uma nascente de rio, começa no topo. Se os próprios colegas referendam o desrespeito aberto a uma autoridade eleita pelo voto popular, imagina o que não acontece nos corredores das empresas, pontos de ônibus, filas do metrô? Imagina o que não acontece dentro de casa, sem que as vítimas anônimas tenham ao menos um conselho para julgar o agressor?

O caso ocorre no momento em que um clube do Bolinha tem atualmente as chaves do comando do país. O entorno de Jair Bolsonaro, com seus homens carrancudos, é a radiografia desses tempos, em que pese o (ainda tímido) avanço das mulheres nas casas legislativas. (No executivo, o Brasil tem apenas uma governadora nas 27 unidades da federação).

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A política reflete uma disparidade social histórica, agravada pela pandemia que hoje ameaça, com a sobrecarga, direitos conquistados a muito custo. No mercado de trabalho, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, a participação feminina caiu para 45,8% no segundo trimestre de 2020. Regressamos ao patamar de 30 anos atrás. O mesmo jornal noticia, em sua capa, a explosão de casos sem diagnóstico de depressão entre mulheres e a ausência de referências femininas nas discussões sobre a sucessão em 2022. Tudo se conecta num país em que os homens se pintam para a guerra.

Um ano após o anúncio da pandemia, pela Organização Mundial da Saúde, não parece coincidência que os países com os piores exemplos de gerenciamento da crise sanitária tenham no comando o estereótipo do machão. Donald Trump, nos EUA, cimentou o caminho para mais de 500 mil mortes em seu país, hoje em curva decrescente desde que a dupla Joe Biden e Kamala Harris assumiu o governo.

Por aqui não sabemos ainda qual o fim da curva. O segundo país onde mais se morre de Covid-19 do planeta é governado por um ex-capitão que se nega a usar máscara e que no auge da crise manda parar de choradeira, frescura e mimimi. 

Bolsonaro tem, desde o começo da crise, conclamado seus governados a encararem a pandemia “como homens”. E a morrer pela causa, a dele, se for preciso. É o mesmo sujeito que, quando deputado, fazia loas ao torturador de Dilma Rousseff e dizia para uma colega que ela não merecia ser estuprada porque era feia demais.

Eleito presidente, ele hoje espalha perdigotos contaminados por uma cepa da masculinidade tóxica segundo a qual homem que é homem não chora nem fala sobre seus problemas, dúvidas e inseguranças. Explode sozinho num caldeirão de transtornos que perturba todo mundo ao redor. Ao performar sua suposta virilidade diante do vírus, ele talvez não se dê conta de que age como o maior dos covardes. Um menino desobediente que chora, bate o pé e faz bico quando contrariado. Só não diz o que o cidadão —aquele que ouve sua troça sobre a dor alheia e o chama de mito — deve fazer se começar a sentir sintomas de uma doença para a qual não há remédio: tenta a sorte em um hospital colapsado em busca de um cilindro de oxigênio ou bate às portas do Planalto para retirar sua carteirinha de “bundão”?

A tática bolsonarista de gestão da crise é exatamente o oposto do que acontece em países como a Nova Zelândia, onde a primeira-ministra Jacinda Adern se tornou exemplo de liderança global ao adotar duras medidas quando precisou sem jamais deixar de consultar as autoridades sanitárias.

O país ficou boa parte do último ano livre do vírus, enquanto por aqui o vai-não-vai, com boicotes, hesitações e aglomerações alimentadas pela testosterona dos que não têm medo nem agem como maricas fizeram a crise durar mais tempo sem que o morticínio fosse evitado. Trocamos dias duros com hora para acabar por um purgatório pago a conta-gotas.

Como diz a música, é preciso ter consciência para ter coragem. É tudo o que falta aos machões que nos governam.