Dia das Mães: filhos de profissionais de saúde escrevem cartas de amor às mães que atuam no combate ao coronavírus

Leda Antunes, Raphaela Ramos e Renata Izaal
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Os filhos Daniel, Maria Eduarda e Igor e a mãe, Alícia

Ninguém poderia imaginar um Dia das Mães como este. Almoços de família, encontros, aglomerações e abraços sendo desencorajados e a distância física se impondo como a melhor demonstração de carinho neste momento em que o isolamento social é a medida mais eficaz para conter a propagação do novo coronavírus.

Para médicas, enfermeiras e outras profissionais de saúde que se dedicam diariamente ao cuidado de pacientes com Covid-19, a atenção às medidas de prevenção é redobrada. Em função da alta exposição ao risco de contaminação pela doença, muitas adotaram o isolamento dentro da própria casa ou se distanciaram dos filhos para mantê-los em segurança enquanto exercem bravamente seu ofício.

Para homenageá-las neste domingo, a equipe de CELINA pediu para que filhas e filhos destas mulheres escrevessem cartas de amor para as suas mães. Recados singelos, repletos de carinho, muitos cheios de saudades, mas também de orgulho pelo trabalho tão fundamental e corajoso que estas profissionais realizam.

'Só de te ver, aprendo e me inspiro'

Maria Eduarda tem 21 anos e é filha da médica intensivista carioca Alicia Araújo Oliveira, 45 anos. Elas não vão poder se encontrar neste Dia das Mães. Maria Eduarda está em Petrópolis, junto com os irmãos Igor, 15, e Daniel, 6, desde o dia 19 de março. Quando a pandemia se agravou e a mãe passou a se dedicar aos pacientes com Covid-19 em um hospital no Rio de Janeiro, os filhos foram para a casa do tio na serra. "Além disso, dispensei minha funcionária, que tem mãe idosa. Estou sozinha. Mais da metade dos meus amigos médicos está longe da família", conta a Alícia. A filha Maria Eduarda diz que a saudade aperta, mas que conta que a tecnologia ajuda a matá-la, com as chamadas de vídeo feitas pelo menos duas vezes por semana. Leia a carta que ela escreveu:

"Mãe, uma pessoa comeu um 'murcego'(sic) e ficou com corona e agora você tem que vir me ver com fantasia de dinossauro que nem aquele moço." Não preciso nem dizer quem escreveu isso né, mãe? O Daniel tá morrendo de saudades e disse que, de presente de Dia das Mães, quer te dar a fantasia de dinossauro. O Igor disse que, mesmo não sendo seu chefe, te daria férias, não só porque você merece, mas porque ele quer te ensinar a surfar numa surftrip (eu apoio!). Vindo de mim, as palavras e a promessa de muitos abraços demorados quando nos vermos de novo!

Estava lendo sobre as deusas da mitologia grega e como cada uma carrega um arquétipo de mulher. Atenas e Artêmis, por exemplo, ambas com capacidade de focar nos seus objetivos, alcançar suas realizações pessoais obstinadas; Deméter e Héstia, maternais, dedicadas ao acolhimento do lar e ao bem-estar dos seus filhos; Afrodite, deusa da beleza e do amor, encanta e magnetiza, dispensa apresentações. E você é todas elas e mais algumas, mãe.

Ser mulher é ser guerreira, jovem, mãe e anciã em um só corpo e você me ensina isso há 21 anos sem dizer nada — só de ver a força da natureza que você é, eu aprendo e me inspiro.

Feliz dia e obrigada, mãe, por me gestar, por me parir, por me cuidar, me alimentar, por me ninar, por me dar amor, por me ensinar sobre o mundo. Obrigada por todas as vezes que você esteve aqui pra me aplaudir ou acolher meu choro. Obrigada também por todas as vezes que você não pode estar, porque trabalhava para criar uma realidade ainda melhor pra gente, como você está fazendo agora.

Te amo e te admiro!

'Vai ficar tudo bem, logo vai passar'

A rotina da casa da médica da família e pediatra Patricia Fonseca, de 55 anos, mudou muito nos últimos dois meses. Ela mora com os dois filhos, Thiago, 26 anos, e Nicollas, 15 anos, com o marido, e atualmente com a avó dos meninos. Os filhos contam que, desde o início da pandemia, Patricia optou por ficar em isolamento na própria casa. Dorme sozinha, come sozinha, tem talheres e louças próprias e mantém a distância de pelo menos 2 metros dos outros moradores. Para reduzir a tristeza da distância, a família encheu a casa com fotos de todos dos momentos em que estiveram juntos. "Nós percebemos que ela sente falta de ganhar um abraço. O medo por muito tempo tomou conta de nós, mas também nos uniu como família", conta Thiago. Patricia concorda, mas reforça "a melhor maneira de amar alguém é proteger." Leia a carta de Thiago e Nicollas para a mãe:

"Ser mãe é ser paciente. Espera-se nove meses, para ganhar talvez um dos seus maiores presentes. Prepara-se mentalmente, fisiologicamente, e até emocionalmente. E mesmo assim, ainda acha que não é o suficiente. Porque este amor é eterno, e todo o cuidado do mundo, não é o bastante para o amor materno.

Ser mãe é sacrifício. É acordar de madrugada para fazer o bebê ninar, é nos dar carinho, e nos ensinar a amar. E quando caímos, nossa mãe é a primeira a nos levantar, e diz: 'vai ficar tudo bem, logo logo vai passar.'

Hoje, nossa mãe nos volta ao tempo de criança. Ficamos com medo da pandemia, nos desesperamos, e então caímos e nos machucamos. No entanto, é ela, que mesmo na frente do problema, torna a falar: 'vai ficar tudo bem, logo logo vai passar.' E aquela mesma sensação de segurança que tínhamos quando éramos criança, por um instante é revivida, e toda a apreensão é suprimida.

Esse é o retrato de nossa mãe heroína, que nos intriga e nos fascina. Somente temos o que agradecer, pois você nos mostrou como o verdadeiro significado de 'amor ao próximo' deve ser.

Um beijo à todas as mães, que como a minha, nutrem o mundo.

'Me enche de orgulho'

A estudante de medicina Juliana Porto, 26 anos, e sua mãe, a enfermeira Maria Aparecida Porto de Lima, 58 anos, lidam com a distância há dois anos. Juliana estuda no Paraguai, mas costumava voltar ao Rio de Janeiro para datas importantes, como aniversários e o Dia das Mães. Desta vez, a comemoração será à distância."Será nosso primeiro Dia das Mães distantes, estaremos longe por conta da pandemia", conta a estudante. Aparecida trabalha como enfermeira em um hospital no Rio de Janeiro e comanda uma equipe de profissionais de saúde que atuam no atendimento de pacientes com Covid-19 no Hospital Clementino Fraga Filho. Neste domingo, estará de plantão. Leia a carta de Juliana para a mãe, Aparecida:

"Faz 72 dias que não vejo minha mãe pessoalmente, por escolhas da vida bem antes dessa pandemia de coronavírus assolar nosso país. É que vocês bem sabem, né? Quando temos mulheres guerreiras e fortes dentro de casa, a tendência é certa que elas virem super-heroínas, como é o caso da minha mãe. E aí o final da história todo mundo conhece. Viram inspiração.

Nessa hora, eu respiro fundo, porque escrever sobre minha mãe é algo que enche meus olhos de brilho e, pela pitada a mais da saudade, aquele aperto no peito também vem. Até porque ela faz parte do front line dessa batalha. É ela que aparece no hospital e lidera uma equipe, gerencia outra, chega em casa e ainda tem tempo de cuidar dos seus e, como se ainda não fosse o suficiente, nos vemos por videochamada.

Ela está sempre disposta a ajudar. Desde pequena eu estou acostumada a vê-la assim. Firme, forte, na liderança. Eu poderia arriscar que ela nasceu pra isso. Ela me enche de orgulho e é a inspiração direta que se tornou real e latente na minha vida.

Estaremos qualquer dia juntas, em paz. Feliz dia das mães. Feliz todos os dias pra você, Aparecida. 1.800 km de distância não são capazes de esconder o carinho, amor e gratidão que sinto. Cuide-se! Continue cuidando de todos nós. O abraço? Ah, esse deixa pra depois quando isso tudo passar. Mal vejo a hora.

Amo você!

'Obrigada por ser essa mulher'

Quando a enfermeira Lucimara M., 39 anos, foi chamada para atuar em um hospital municipal no extremo sul de São Paulo há pouco mais de um mês, sua família resistiu em apoiar a ideia. “Eles não queriam que eu fosse, mas eu falei que era necessário. É o meu trabalho”, conta a enfermeira. A filha mais velha de Lucimara, Geovanna M., 20 anos, conta que a rotina da casa mudou muito desde então.

A mãe atua em plantões noturnos de 12 horas na UTI do hospital, lidando diretamente com pacientes graves com Covid-19. "Conseguimos manter contato nos horários que ela está em casa, mas só a distância, pois a maior parte do tempo ela passa isolada no próprio quarto. Quando chega, ela faz todo o processo de higienização em um banheiro que temos na garagem", conta Geovanna, que embora se preocupe com a mãe, não esconde o orgulho do trabalho que ela realiza. Leia a carta que escreveu para a mãe:

"Mãe, dentre todos os defeitos que você diz ter, o que nós mais concordamos é que você ama demais. Ama demais as pessoas, o seu trabalho, os seus valores. Não existe outra pessoa que poderia nos inspirar tanto, ainda mais em um momento em que o mundo parece estar perdendo cada vez mais a sua humanidade.

Você se entrega por pessoas que talvez nunca lembrem seu nome ou vejam o seu rosto. Mas nós lembramos, todos os dias, todas vezes que você sai pela porta. Por mais que o nosso coração se parta, ele se enche em ter uma mulher como você em nossas vidas.

Obrigada por ser essa mulher, enfermeira e, principalmente mãe. Que não só nas datas comemorativas você se lembre o quão importante e amada você é por nós e por todos que são tocados pelo seu cuidado e atenção.

Feliz dia das mães. Nós te amamos e sabemos que o mundo não seria tão bonito e amado se não houvesse você nele."

Você agora é heroína. Heroína de tantas pessoas'

No dia 21 de abril, a jornalista Kelly Krishna Rios, de 35 anos, publicou um post emocionado no Facebook. Era aniversário de sua mãe, a enfermeira Marilene Souza, de 58, que trabalha no Hospital Gaffrée e Guinle, no Rio de Janeiro. As duas, que não se veem desde fevereiro, não puderam se encontrar para festejar: "Esse ano não teremos almoço, nem visita, muito menos beijo e abraço. Mas tem muito amor e muito orgulho". Elas também não vão se encontrar neste Dia das Maes. Kelly vai passara data com o filho, Arthur, de 9 anos. Marilene segue no front. Leia a carta de Kelly para sua mãe:

"Essa carta, mãe, trata de orgulho e medo. E também de amor e saudade. Mas é, principalmente, sobre coragem.

Eu tenho muito orgulho de você. Engraçado como poucas vezes na vida eu te disse essa frase, mas tenho repetido tanto ultimamente, como se quisesse recuperar o tempo perdido. Orgulho, amor e força são o que me vem à cabeça nos pensamentos mais remotos sobre aquela moça bonita da praia de Iracema – que eu tenho certeza que se Alceu conhecesse, cantaria em versos. Uma mulher que nunca teve medo de recomeçar, uma mulher que me ensinou a encarar os desafios com tanta garra que as adversidades é que teriam medo. Um dia essa mulher – que criou três filhas e deseduca um neto –resolveu dedicar sua vida ao sonho que sempre teve: cuidar do outro. E esse cuidar, hoje, envolve tantos riscos...

É difícil lidar com o orgulho de ver você atuar na linha de frente e com o medo de saber que você está cara a cara com uma doença que parou o mundo. Quanta coragem, mãe. Quanta coragem!

Quando ligou para me contar que já estava atendendo pacientes com a Covid-19, fez toda a mise-en-scène sobre os cuidados, o equipamento, a ciência e a técnica, eu só queria dizer para você não ir. Queria proteger você. Odiei o que eu senti quando ouvi: “Filha, é a minha missão. É a minha vocação”. Em um misto de fascínio e desespero, eu não respondi.

No seu aniversário, há poucas semanas, eu quis mostrar que a minha mãe não era mais só a melhor mãe do mundo, como minhas irmãs e eu escrevíamos nos cartões que a gente fazia na infância. Você agora é heroína. Heroína de tantas pessoas.

O que eu mais gostaria de ganhar nesse Dia das Mães era um abraço seu. Queria ir para a sua casa ouvir uma bronca qualquer e rir das quinquilharias de ginástica que você cisma em comprar. Queria você. Feliz Dia, mãe!

Eu amo você!

Ps: Arthur ama muito a vovó."