'No Dia das Mulheres, não dê rosa, dê uma máquina de costura'

Projeto hoje conta, somente, com 5 máquinas de costura para atender 21 mulheres. (Foto: Marina Pedroso/Instagram)

Uma “vaquinha virtual” quer ajudar mulheres infectadas com HIV de uma favela no Quênia a conquistar sua independência financeira através de workshops de costura. O projeto, criado em 2015 e batizado de Hope Designers, aposta no empreendedorismo como forma de empoderamento para que as mulheres não sejam mais dependentes e consigam sustentar a si e sua família.

Clique aqui para doar e conhecer melhor o projeto.

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

A proposta do crowdfunding foi idealizada pela jornalista Marina Pedroso, 27, que trabalha como voluntária no projeto, e busca adquirir mais máquinas de costura. Ao todo, hoje são 21 mulheres trabalhando no ateliê para produzirem peças autorais em somente com cinco máquinas de costura.

Os itens vão de bolsas grandes, mochilas, pequenas bolsinhas de mão, aventais e saias, todas com estampas afro “kitenge”, popular em países da África Central, Leste e Oeste. Durante três dias na semana, as mulheres fazem aulas para aprimorarem técnicas de corte e costura na tentativa de saírem da informalidade, que assola a favela Manyatta, em Kisumu, no leste do Quênia.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Depois de prontos, os itens são vendidos no site da Kar.Geno, organização que abriga a Hope Designers, ou por voluntários que se propõem a comercializarem as peças em outros países e repassarem os valores.

“As mulheres podem fazer as aulas de seis meses a um ano e, uma vez que se formam, a ideia é que montem sua própria lojinha. Quando atingem 9 meses de curso, a Hope Designers também oferece aulas de empreendedorismo e administração de negócios às mulheres”, detalha Marina.

Para as mulheres que ainda estão no curso, o valor arrecadado com a venda das peças é dividido em dois. Metade vai para o fundo do projeto, destinado para fazer manutenções no espaço ou nos equipamentos, enquanto a outra metade é destinado para ela, descontado somente o valor do material usado na confecção.

Esse mesmo fundo da organização serve para comprar uma máquina de costura e oferecer uma pequena quantia de incentivo às mulheres que já se formaram, como um pontapé inicial em seu empreendimento. “Depois de formadas, o lucro das peças é 100% delas”, explica Marina.

Após formadas, as mulheres ficam com 100% dos valores das peças confeccionadas. (Foto: Marina Pedroso/Instagram)

Além das máquinas, a jornalista também pretende comprar berços para que as mães tenham condições adequadas para deixarem seus filhos durante o curso. Sem lugar, as crianças acabam dormindo no chão envoltas em panos.

A média do lucro no Verão, segundo a voluntária, gira em torno de 30 dólares por semana para cada mulher. “Os melhores meses são junho e julho, quando o Quênia recebe mais voluntários e turistas. Na baixa temporada, fica em torno de 1 dólar por semana para cada mulher”.

QUÊNIA, O HIV E A INFORMALIDADE

Em 2016, 6% de toda a população do país já havia sido diagnosticada com HIV positivo, um dos índices mais altos da África. Cidades da parte ocidental do país, como Homabay, Siaya e Kisumu - onde funciona o projeto - são as mais afetadas, com taxas de HIV variando de 19 a 25%.

Sendo maioria da população - uma proporção de quase duas mulheres para cada homem - a prevalência de HIV é mais alto para mulheres do que para homens. As mulheres representam 60,6% de todos adultos de 15 anos ou mais vivendo com diagnóstico de HIV, segundo dados da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).

O foco do projeto é justamente atender mulheres já tenham tido o diagnóstico positivo do HIV e forçá-las a deixar o mercado da informalidade, onde representam uma significativa parcela de 80%. “O mercado informal não remunera bem, nem garante planejamento familiar com métodos contraceptivos ou sequer planos de saúde. É uma situação muito vulnerável e que as torna financeiramente dependentes dos maridos. Elas, culturalmente, ‘não têm voz’”, detalha Marina.

A realidade da informalidade somada à alta mortalidade do HIV entre os homens - “eles não vão ao médico por preconceito e descobrem somente quando a infecção nos estágios finais, diferente das mulheres que vão ao médico quando levam os filhos” - deixa as mulheres vulneráveis e dependentes financeiramente falando.

É justamente nessa lacuna que o projeto Hope Designers trabalha.

“O objetivo do projeto é criar ambiente propício e oportunidades para mulheres de classe socioeconômica baixa e afetadas pelo HIV nas favelas de Kisumu, Quênia, aumentando a capacidade e melhorando a sustentabilidade da cooperativa de mulheres”, define o projeto.

A meta da “vaquinha virtual” é atingir o valor de R$ 17 mil, o equivalente a 20 máquinas com um valor médio de R$ 840. “A máquina de costura manual mais a mesa de apoio fica em torno de 18 mil shillings quenianos (moeda local), que dá 180 dólares. Quero que o valor dê para comprar 20 máquinas ou 15 máquinas mais as caminhas pros bebês dormirem”, finaliza Marina.

A 'vaquinha virtual' também pretende ajudar na aquisição de berços para que as mães deixem os filhos com as mínimas condições. (Foto: Marina Pedroso/Instagram)