Dia de convocação dá ao Brasil a memória de quando a bola unia o que o país separava

People pray as they take part in a protest over Brazil's President Jair Bolsonaro's defeat in the presidential run-off election, in front of the Palacio Duque de Caxias (army headquarters) in Rio de Janeiro, Brazil, November 6, 2022. REUTERS/Lucas Landau
Foto: Lucas Landau/Reuters

Não faz muito tempo, escrever sobre política era escrever para (quase) ninguém.

O exercício era frustrante: você arregaçava as mangas, telefonava para autoridades, checava dados sobre mutretas com dinheiro público, botava o nome num abre de página e esperava sentado a revolução. Nada acontecia.

Nas ruas, só se falava de outra coisa. Ninguém lembrava quem era o deputado em quem haviam votado no ano anterior. Ninguém sabia quem era ou quem deveria ser o vice-presidente. STF era só um palavrão, e era mais fácil saber a lista dos 23 convocados para a última Copa do que de algum ministro do Supremo.

Um desafio para estudiosos mais gabaritados do que este escriba é entender em que momento política passou a ser o prato principal de qualquer roda de conversa neste país.

A ponto de todo mundo saber de cor a escalação dos 11 ministros da Suprema Corte e pouca gente conhecer os nomes da maioria dos jogadores que vestirão a camisa do Brasil no próximo Mundial.

Esse interesse repentino por política, obviamente, não é ruim. Mas, com a velocidade e os falsos atalhos oferecidos pelas redes, deixamos de lado o que há pouco tempo chamávamos de consciência política. Repetir slogans de fácil assimilação nas ruas e nas redes é uma coisa; politização é outra.

Esse atropelo da ordem dos fatores permite a qualquer interessado dar pitaco sobre o trabalho de magistrados como Alexandre de Moraes sem ter ideia do que está escrito na Constituição e ainda chamar qualquer coisa de "ativismo judicial".

É como se migrássemos as arquibancadas, onde gritamos, torcemos e xingamos, para a arena da vida política —que, diferentemente do esporte, pede consensos e recuos até de vitoriosos.

Nesta segunda-feira (7/11) o técnico Tite convoca os atletas brasileiros que estarão na Copa do Qatar e o que não falta é gente dizendo que não conseguirá torcer para seus comandados depois do sequestro flagrante da camisa da seleção para fins políticos nos últimos anos, num processo que conheceu seu auge há alguns dias, entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

Em nada ajudou a campanha aberta de alguns atletas, entre eles Neymar, para um dos candidatos na disputa mais polarizada na história, na qual simplesmente não havia meio termo entre amor e ódio entre eleitores de Lula (PT) e/ou Jair Bolsonaro (PL).

Há quem ainda aposte que, quando a Copa começar, tudo isso ficará no passado e que o espírito esportivo será capaz de fazer o que nenhum líder político ou espiritual conseguiu até aqui: desarmar as almas, juntar os divergentes e finalmente unir o país. Será?

Conflito parecido só foi observado na Copa de 1970, quando o auge da repressão militar era escamoteado pelo ufanismo do milagre econômico (insustentável) e das atuações em campo de Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho. O melhor e o pior do Brasil eram os brasileiros.

O dilema foi traduzido em filmes como “O ano em que meus pais saíram de ferias”, de Cao Hamburger, e nas crônicas de apaixonados pela bola como Juca Kfouri, cujo amor à seleção era uma espécie de exercício cívico de resistência: nem a ditadura foi capaz de minar o amor pelas cores de seu país.

Passados 52 anos, o Brasil se encontra em conflito parecido, entre o sequestro das cores e da bandeira por falsos patriotas e o sentimento genuíno que essas cores despertam.

O saldo, até aqui, é parcial. O que se sabe é que explodiram as vendas da camisa azul da seleção.

Muita gente não quer correr o risco de sair com a camisa amarela nas ruas e ser confundida com o rapaz que pegou carona no parachoque de um caminhão e virou meme.

Em entrevista recente ao jornal O Globo, o técnico Tite desconversou ao ser questionado sobre a associação entre a camisa da seleção e a extrema direita brasileira: “Pegue esse peso e fique com ele. Essa batalha fica contigo, não transfira para mim”.

Segundo o treinador, a batalha do futebol é outra. É a batalha da educação, da competição para ser melhor, mais arrojado, mais criativo, mas com limites éticos que levam em conta o respeito por nossas nossas origens.

Ele sabe, porém, que há mais em jogo do que uma simples partida a partir desta segunda-feira, dia de convocação.

Pode não querer ficar com o peso, mas ele já está sobre os ombros de jogadores e comissão técnica.

Não temos mais Pelé capaz de parar uma guerra e arrefecer os ânimos. Mas não custa acreditar.

Pode ser ingenuidade pura, mas se essa equipe que toma forma hoje fizer alguém que hoje se ataca se abraçar ao fim de uma partido, a seleção já terá uma grande conquista da qual se orgulhar.

Só não vai ser fácil.

Nunca foi.