Dia do Orgulho LGBTQIA+: Qual a importância dessa data?

Todos sabemos - ou deveríamos saber - que o Dia do Orgulho LGBTQIA+ é comemorado em junho. Uma data marcada por festas, paradas e shows no mundo inteiro, que celebra todas as siglas da comunidade, é importante por muitos motivos - mas, não se engane, a comemoração não começou em festa. Pelo contrário, os primórdios do mês do orgulho LGBTQIA+ estão em uma revolução.

Dia do Orgulho LGBTQIA+

O ano de 1969 foi decisivo para as pessoas da comunidade LGBTQIA+. Na verdade, foi ali, nos Estados Unidos, na cidade de Nova York, no bairro de East Village que oficialmente começou o movimento contemporâneo de luta por direitos.

Em 28 de junho de 1969, começou na boate chamada Stonewall Inn uma revolta, tão grande e importante que a data ficou para sempre marcada na história - e é por esse motivo que o dia do orgulho LGBTQIA+ é comemorado nessa data, e o mês de junho se tornou o chamado "Pride Month", ou "mês do orgulho LGBTQIA+", na tradução em português.

Na madrugada daquele dia, gays, lésbicas, travestis e drag queens enfrentaram policiais locais por conta das humilhantes revistas e batidas que a força policial fazia nas boates e bares gays da cidade. O confronto inicial durou seis dias, ao todo, mas o mundo nunca mais foi o mesmo: a partir dali, começaram uma série de manifestações que pediam igualdade de direitos, respeito e o fim do preconceito, da homofobia e da violência policial contra a comunidade LGBTQIA+.

As manifestações em prol da causa, em 1969, não se limitaram à cidade de Nova York, mas se espalharam pelo país, com marchas em Los Angeles, São Francisco e Chicago, como uma forma de apoio e também de lembrança pela revolta.

No ano seguinte, o início de uma nova década, as manifestações começaram a tomar também as ruas europeias, com marchas em Londres, na Inglaterra, em Paris, na França, em Estocolmo, capital da Suécia, e na parte ocidental de Berlim, na Alemanha, então divida em duas pós-Segunda Guerra Mundial e com parte comandada pela União Soviética.

O que antes eram manifestações, hoje se tornaram verdadeiras festas e desfiles, recheadas de shows e demonstrações de alegria, mas a ideia original se mantém: de pessoas LGBTQIA+ ocupando as ruas das cidades e mostrando abertamente quem são, que existem, e demonstrando orgulho por suas identidades.

New York, USA - June 12, 2017: Memorial outside the landmark Stonewall Inn in honor of the victims of the mass shooting at a gay nightclub in Orlando in New York City in 2016.
O Stonewall Inn em Nova York, nos Estados Unidos (Foto: Getty Creative)

O Stonewall Inn como símbolo do movimento

Uma informação importante: o Stonewall Inn, assim como outros bares e boates ao redor dos Estados Unidos e do mundo, se tornou um lugar em que os marginalizados se encontravam - como um esconderijo onde essas pessoas poderiam ser quem são livremente, já que, até então, o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo ainda era considerado um crime nos Estados Unidos.

Foi em 1962, apenas, que o primeiro Estado estadunidense, Illinois, decidiu mudar a legislação e descriminalizar essas relações. A questão é que se passaram 10 anos até que os demais 49 estados do país seguissem a mesma tendência - foi em 1972 que as mudanças reais começaram a acontecer. Em Nova York, por exemplo, palco da revolta, isso só aconteceria oficialmente na década de 1980.

A legislação norte-americana ainda contava com outras restrições, principalmente em relação à venda do álcool, e esse foi um dos motivos que levaram nove policiais a fazerem uma nova batida no local naquela madrugada de junho.

O bar, até então, era mantido pela máfia que pagava propinas para manter o lugar funcionando e abrigava, principalmente, pessoas em condições extremas, como gays e travestis jovens que foram expulsos de casa e moravam na rua.

A batida, claro, logo começou a ser violenta, já que além de prender os funcionários do bar por venda ilegal de bebidas alcoólicas, os policiais também detiveram alguns frequentadores de lá. Na hora da prisão, os algemados começaram com provocações que incentivaram os transeuntes a contestarem aquelas prisões, e a coisa toda escalonou: enquanto os policiais começaram a usar mais violência para colocar os presos nas viaturas, quem assistia começou a agir e os manifestantes tentaram, até mesmo, capotar uma viatura.

Os policiais da batida foram encurralados dentro da boate, alguém (não se sabe quem) ateou fogo no lugar e o caos reinou. Enquanto tentavam apagar o incêndio, os policiais usaram a mangueira de água para conter os manifestantes e o restante da comunidade LGBTQIA+ que vivia nas proximidades começou a dar as caras para participar do momento.

Quando tudo acabou, a gerência do bar colocou na porta um aviso de que ele voltaria a funcionar normalmente - o que, de fato, aconteceu. Mas aí já era tarde demais: os próximos seis dias foram marcados por manifestações que pediam por mudanças reais na lida com essa comunidade.

Em 2015, veio um reconhecimento histórico: o bar foi transformado em monumento histórico da cidade pela Prefeitura de Nova York, e no ano seguinte o então presidente Barack Obama o declarou como o primeiro monumento nacional aos direitos LGBTQIA+ nos Estados Unidos.

A importância do Dia do Orgulho LGBTQIA+

Já deu para perceber que essa data e esse espaço realmente tiveram uma importância histórica, certo? É por isso que essa revolta é conhecida como o marco inicial do movimento de luta pelos direitos LGBTQIA+ contemporâneo: a partir dele, uma série de organizações começaram a surgir para, de forma ordenada e não violenta, lutar pelos direitos dessas pessoas e pela legalização da homossexualidade no país.

E se o movimento repercutiu na Europa, era de se esperar que também desse as caras no Brasil, certo? Pois bem, por aqui a situação entra bem diferente.

A Revolta de Stonewall e os reflexos no Brasil

Enquanto a Revolta de Stonewall ganhou força por conta da singularidade histórica do momento que os Estados Unidos viviam - o país acabava de sair do movimento de libertação sexual e borbulhava com as revoltas contra a Guerra do Vietnã -, no Brasil a história era outra: vivíamos o auge da ditadura militar.

Apenas um ano antes, em 1968, era assinado o Ato Institucional nº 5, que limitava liberdades civis e direitos individuais e instaurava, oficialmente, e ampliava a atuação da censura no país. Por isso, foram 10 anos até que a repercussão de Stonewall começasse a dar os primeiros sinais de vida por aqui.

Ainda assim, combinou também com um momento de ebulição político e social brasileiro, quando as manifestações começaram a pedir pelo fim da ditadura e a redemocratização do país. Em 1983 aconteceu o que é considerado um dos principais marcos da luta pelos direitos LGBTQIA+ por aqui, e um reflexo direto de Stonewall, em um bar chamado Ferro's, no centro de São Paulo.

Conhecido como o point das mulheres lésbicas da cidade, sofreu da repressão policial quando o dono do bar chamou a polícia depois de perceber que algumas frequentadoras vendiam por lá uma revista chamada "ChanacomChana", considerada contra os bons costumes da época. No dia seguinte, mulheres e ativistas invadiram o local para ler um manifesto em prol dos seus direitos.

E esse dia, 19 de agosto de 1983, virou um marco na história se tornando o Dia do Orgulho Lésbico no Brasil - e passou a ser referido também como o 'Pequeno Stonewall Inn' Brasileiro.

Antes dessas datas, tanto no Brasil, quando nos Estados Unidos, existiram outras tantas manifestações e reboliços que pediam o reconhecimento dos direitos de pessoas gays, lésbicas, trans e travestis ao redor do mundo, mas a data de 28 de junho, que ganhou força e impulsionamento em um momento de revolução cultural grande em um dos maiores e mais importantes países do mundo acabou se tornando uma importante data na história desse movimento, tanto que a comemoramos até hoje.