Dia do Professor: hoje, há mais dor do que delícia na profissão

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Por Lucas Reginato

Não há aluno que passe por uma sala de aula e não se recorde, anos depois, com carinho de algum professor. A convivência cotidiana gera uma relação de confiança, e as lições, de livros e de vida, são preciosas na infância e na adolescência, por mais que só anos depois venhamos a reconhecer.

A professora Maria Sena está aposentada há cinco anos, lecionou por trinta e cinco e não queria ter parado. Conhecedora de salas de aula na Zona Leste de São Paulo, de escolas como Luzia de Queiroz e Hermínia de Andrade, foi impedida por um problema de saúde. “Imagina um professor sem voz. Eu tive problema na tireoide, fiz cirurgia e fiquei quatro meses sem recuperação. Me afastaram da sala de aula, foi bastante difícil para mim. Fui para a biblioteca, e ali pelo menos eu estava com os alunos todo dia”.

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Ela se lembra com carinho de um episódio que aconteceu no Dia dos Professores. “Um dia eu estava em casa e recebi um telefonema:

- Eu quero dizer para a senhora muito obrigado. E parabéns pelo dia do professor!

Eu disse que quem agradecia era eu, e quis saber por que me ligava.

- fui seu aluno, a senhora me deu um trabalho, e pediu para fazer a exposição. Eu não queria, porque tinha vergonha. E a senhora insistiu tanto que eu fiz, e, quando terminei, a senhora me disse, ‘nossa, não queria apresentar e falou como um advogado. E hoje eu sou um advogado!”.

Ela conta que, quando começou a dar aula, “as escolas eram muito precárias, a gente tinha lousa e giz, e só um livro para o professor, que os alunos não tinham. Uma grande melhora que eu percebo é que os alunos hoje recebem lanche, porque muitas vezes não têm o que comer”.

Contexto desfavorável ao aprendizado

Segundo dados do Censo Escolar de 2016, 58% das escolas de Ensino Fundamental no Brasil não possuem rede de esgoto, e em 11% nem água e energia elétrica. Mais da metade delas não possui laboratório de informática, e 65% não tem acesso à internet. Condições que dificultam a tarefa de estimular jovens a buscar conhecimento.

Para Vagner Marques, na função há 15 anos, professor da rede municipal de Ferraz de Vasconcelos e idealizador do Cursinho Popular Martin Luther King, os obstáculos estão não na sala de aula, mas principalmente na estrutura sócio econômica do país. “Nos anos 90 os Racionais cantaram ‘molecada sem futuro eu já consigo ver, só vão na escola pra comer, apenas, nada mais. Como é que vão aprender sem incentivo de alguém?”.

“Um dia de férias, de feriado ou qualquer suspensão nas atividades, são duas refeições a menos. Isso há que ser problematizado, alguém vai deixar de tomar café da manhã e almoçar”. Ele afirma que a crise econômica vivenciada pelos brasileiros nos últimos anos agravou esse problema. “Na educação básica, há um contexto de pais que perderam o emprego, de violência doméstica e institucional, que gera baixa autoestima, dificuldade em lidar com as próprias potencialidades”.

Marques afirma que é professor por acreditar que a atuação professoral é libertadora: “antes de tudo, é uma forma de contribuir para o processo de emancipação e humanização. O contato cotidiano e horizontal com alunos é uma forma de me humanizar, e de humanizá-los”. Por outro lado, fica indignado quando questionado sobre o patamar de remuneração dos professores no Brasil. “Somos a nona maior potência econômica do mundo, o problema não é ausência de recurso, mas o valor simbólico que nossa sociedade dá para a educação”.

O piso salarial do país para um docente em jornada de 40 horas semanais é de R$ 2.455,35, quase 1/3 da média dos membros Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, do qual o Brasil é vice lanterna nesse quesito, à frente apenas da Indonésia. Mesmo assim, em 55% dos municípios brasileiros, o piso não é respeitado, segundo o Ministério da Educação.

Profissão ainda tem prestígio entre jovens

Há, mesmo assim, muita gente que reconhece o valor que tem o professor. Vanessa Terra e Jadson Leonato são dois jovens professores que saíram de Minas Gerais e hoje dão aula em Caruaru, em Pernambuco. “Quando era pequeno fingia que estava ensinando, gostava de ouvir as coisas e passar para frente, sempre que sabia algo interessante guardava para repetir”, diz o professor.

Os dois integram o projeto Ensina Brasil, iniciado em 2016, que tem a proposta de formar lideranças, professores que atuem em regiões desprivilegiadas do país. A entidade privada faz parcerias com estados e municípios, treina esses jovens professores e eles vão a campo fazer a diferença no dia-a-dia.

“Apesar de ter 30 anos, é um desafio lidar com a geração de alunos, pelo menos na escola onde eu atuo, muitos não enxergam como um lugar de oportunidade, onde se pode aprender e garantir um futuro melhor. Mostrar que a escola tem um sentido é o mais difícil para mim”, ele relata, e dá uma pista do porquê as crianças se desestimulam: “A escola era em uma comunidade bem grande e antiga chamada Rendeiras. Mas o prédio original foi interditado pelo Corpo de Bombeiros por risco de desabamento”.

“Hoje a escola aluga o espaço de uma faculdade, mas não é mais no bairro onde a maioria dos alunos mora”. A prefeitura fornece ônibus para que as crianças não deixem de ir à escola, mas o percurso entre os bairros de Rendeiras e Petrópolis leva até 30 minutos. “Em todas as escolas que atuei, sempre faltam laboratórios, os alunos poderiam ter experiências mais vivas. Tem escola que nem quadra tem, e os alunos sentem que não pertencem àquele lugar”.

Já Vanessa comenta que “enquanto professora posso até intervir na estrutura física ou numa ferramenta didática, mas muito pouco posso fazer ante um aluno com grande que precisa interromper os estudos para trabalhar e ajudar nas despesas da casa. Como argumentar com a família que o estudo é importante ou solicitar que os pais, analfabetos, auxiliem na execução das tarefas de casa?”

Nenhum deles, mesmo assim, demonstra arrependimento na escolha profissional. “Em um país onde mais da metade dos estudantes matriculados no Ensino Fundamental I tem níveis de leitura e escrita considerados insuficientes, lecionar para crianças que chegam no 5º ano no nível pré-silábico de escrita faz com que todos os dias as pequenas conquistas se tornem inesquecíveis”, ressalta Vanessa.

Jadson relata a surpresa agradável que é encontrar ex-alunos que vêm lhe cumprimentar. “Às vezes me encontram pela cidade e me agradecem, por um conselho, por uma chamada de atenção, porque mandei eles estudarem. Eles me dizem ‘obrigado, agora entendi o que você dizia’. Porque às vezes o aluno não percebe na hora, mas depois para e pensa que realmente aprendeu alguma coisa. Isso me anima, dá vontade de continuar trabalhando”.

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