Dia do Livro: diferentes iniciativas exaltam a leitura como farol na pandemia

Jacqueline Costa e Larissa Medeiros
·7 minuto de leitura

RIO — Na semana passada, livreiros de Argumento, Berinjela, Blooks, Folha Seca, Janela, Leonardo Da Vinci, Lima Barreto e Malasartes se uniram para fundar o grupo colaborativo Livrarias Cariocas. A turma gravou um vídeo emocionante em defesa das livrarias físicas, que estão lutando para se manter. Perto do Dia Mundial do Livro, amanhã, Marcus Gasparian, da Argumento, no Leblon, diz que está mais do que na hora de valorizar os livreiros e os pequenos estabelecimentos cariocas que vivem de proporcionar não só o prazer da leitura, mas os encontros, a troca de ideias:

— A livraria como espaço físico é um ambiente muito vivo e que humaniza a cidade, o bairro, a rua. Um livro bem recomendado pode mudar a vida de uma pessoa, confortar, abrir um novo norte.

Ele conta que desde o início da pandemia sai, com seu cachorro, o airedale terrier Gaspar, para fazer entregas, que, geralmente, são realizadas no mesmo dia do pedido, sem cobrança de frete.

— Desde o primeiro fechamento do comércio, é uma maneira de fazer frente a gigantes como a Amazon. E eu me sinto realizado ao ver como as pessoas ficam felizes ao receber um bom livro — diz Gasparian.

Nos últimos meses, muita gente reencontrou o prazer de ler ou deu ainda mais atenção a ele. Não há dados que comprovem que as pessoas estão lendo mais na pandemia, mas Suzana Vargas, diretora do Instituto Estação das Letras, diz que os grupos de leitura se multiplicaram.

— A leitura também serviu como uma espécie de terapia contra a depressão que se abateu sobre muita gente. Atividades que pudessem proporcionar instrução e prazer como a escrita e a leitura se ofereceram como opções bastante procuradas — afirma.— Nesse momento temos, no Instituto Estação das Letras, vários grupos/clubes para ler autores como Lewis Carroll, Lygia Fagundes Telles e Monteiro Lobato. No começo de abril, O IEL vai abrigar uma nova edição do Projeto Extremos, do José Castello e Hena Lemgruber, para leitura coletiva de "Torto arado".

Escritora cria Clube de Contos

Moradora da Lagoa, a autora Mayra Sotto Mayor, que está escrevendo seu segundo livro, criou durante a pandemia, em junho de 2020, o Clube de Contos. Mensalmente, cerca de 50 pessoas se reúnem virtualmente para a leitura de contos propostos pela autora.

— Em tempos de pandemia, os encontros são on-line, e a ideia é gerar a discussão. Há sempre diferentes pontos de vista sobre o mesmo texto. Depende muito das vivências de cada leitor— relata Mayra, autora de “Bordados imperfeitos”, da editora Jaguatirica, e dona do perfil @suspirostagarelas no Instagram.

Leitores incentivam cada vez mais negócios locais

Entrar para buscar um livro e sair com amigos, um bom café e uma indicação de leitura deveriam fazer parte da rotina dos leitores da Janela, livraria independente no Jardim Botânico. No início da pandemia, toda a essência de uma visita presencial, projetada desde a inauguração, em 13 de março, três dias antes do decreto de isolamento no município, teve que ficar para depois. As vendas foram para o WhatsApp, a troca entre livreiro e leitor esvaiu-se, e a Janela abriu e fechou as portas algumas outras vezes desde então. A psicóloga Leticia Bosisio, proprietária da livraria em sociedade com Martha Ribas, conta que passar por isso no início da Janela, hoje reaberta, deu ainda mais força ao propósito da livraria local.

— Quando implementamos o on-line, conseguimos nos manter por causa dos moradores que simpatizaram conosco.A diferença entre uma livraria independente e as de grandes marcas é justamente o ambiente, o afeto, a relação entre leitor e livreiro, que acredito ter sido o ponto para a procura da Janela — reflete.

Elisa Ventura, dona da Blooks Livraria, que tem lojas em Botafogo e em São Paulo, sentiu o mesmo carinho. Em julho do ano passado, a loja lançou a campanha “Blooks resiste” com a finalidade de manter em dia as contas da livraria, fechada durante a pandemia. A iniciativa arrecadou mais de R$ 50 mil, um valor muito maior do que o esperado por Elisa.

— Fiquei surpresa! Ter esse retorno da campanha foi o que ajudou a me manter, não só financeiramente como psicologicamente. Acho que senti o carinho e o valor que uma livraria independente tem para os leitores — conta.

Primeira livraria infantojuvenil do Brasil, a Malasartes, no Shopping da Gávea, também é um espaço de resistência. Para Claudia Amorim, que está à frente do negócio ao lado da irmã e sócia Renata Moraes, não é moleza seguir adiante, mas clientes especiais têm prestigiado e dado fôlego ao lugar.

—Quem lê comprou mais. Também foi interessante as famílias voltarem à leitura compartilhada, como a que envolveu uma criança, a mãe, a avó e a bisavó. Além disso, pude perceber que quem se refugiou na Serra se reabastece de livros quando vem ao Rio —conta Claudia.

Felicia Brafman, moradora do Leblon, diz que tem lido ainda mais na pandemia:

—A leitura foi um instrumento que me distraiu e que me concentrou em outros assuntos que não me lembrassem o vírus. Está sendo muito bom.

Leila Name, diretora geral da LeYa Brasil, diz que os editores sabem, há tempos, que um dos desafios é a disputa do tempo dos consumidores. Mas concorda que houve um aumento do consumo de livros.

— Há muita informação disponível, sob vários formatos, e ainda mais oferta de entretenimento, de ocupação dirigida ao tempo dos consumidores (mais oferta do que tempo, na verdade). A pandemia criou a oportunidade, para determinadas pessoas, de revisão do seu usufruto do tempo. Quem já era um leitor, leu mais. E quem já via o livro como oportunidade consistente de formação e de informação, também leu mais. Sim, houve um aumento — explica.

Na LeYa Brasil, e observando alguns indicadores do mercado, ela acredita que todos os gêneros literários tiveram um aumento. No entanto, seguindo uma tendência que já se impunha, a não ficção cresceu mais, proporcionalmente.

— As editoras que já vinham se preparando para a comunicação direta com o seu público, não só para a venda direta, mas para o conhecimento e a comunicação direta com os leitores, têm a oportunidade de consolidar esses canais e de projetar uma agenda futura de relacionamento direto — continua Leila.

Projetos promovem leitura em comunidades

Que nem todo livro é barato, todos sabem, mas afirmar que “só rico lê” não passa de uma falácia, atesta Hugo Alaor, idealizador, junto a Mila Coelho, do projeto social Além do Morro (@projeto_alem_do_morro), que funciona desde o início da pandemia para democratizar o acesso de moradores das comunidades do Chapéu Mangueira e Babilônia, no Leme, à leitura. A iniciativa começou com uma estante de livros na praça da Babilônia, mas o sucesso foi tanto que hoje já atrai aproximadamente cem crianças, graças também a seu novo espaço: uma casa da árvore no Morro da Babilônia.

— Não podemos ir ao portão que eles já vêm nos procurar. Até os idosos adoram. Fico muito feliz por poder oferecer a leitura para pessoas da favela e ter o interesse como retorno — diz Alaor.

Carlos Maia, idealizador do projeto Somando, que coordena a Biblioteca Comunitária Santo Amaro, no Catete, também vê o mesmo interesse por parte de quem frequenta o espaço — em sua maioria crianças e jovens. Em quatro anos de projeto, ele constatou que elas até se esquecem do mundo virtual quando estão com os livros.

— É muito legal perceber o gosto deles pela leitura, pela história, e vê-los esquecer que existe celular. Afinal, o propósito da biblioteca é esse, tirá-los da realidade e levá-los para o mundo da imaginação.

Raíssa Sousa, idealizadora da Casa Cultural La Bohème, oferece, há quatro anos, um projeto de escrita criativa e leitura para crianças da comunidade Pereira da Silva, em Laranjeiras. Na pandemia, o espaço deixou de funcionar presencialmente, mas o estímulo continuou no modo remoto. Atenta à evolução das crianças, Raíssa elaborou um projeto de escrita e troca de cartas entre os alunos e ela. O objetivo é fazer com que, após a pandemia, as mensagens virem um livreto feito pelas próprias crianças sobre o isolamento social.

— É uma forma de ajudá-los a manter o exercício da escrita e pensar sobre suas próprias realidades. Fora que ver o livreto pronto é ver o fruto daquilo que eles se empenharam em fazer, com as suas próprias ideias — explica.

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