O dia em que os "loucos" dominaram o mundo

Yokohama (Japão), 16 dez (EFE).- O tão esperado sonho do bicampeonato mundial, que levou milhares de "loucos" a cruzar o mundo, foi enfim realizado neste domingo: o Corinthians venceu o Chelsea por 1 a 0 e fez a festa não só de quem pôde ir do Brasil ao Japão, mas de toda uma nação que torceu - e sofreu - à distância.

O gol do atacante peruano Paolo Guerrero, aos 23 minutos do segundo tempo, deu ao Alvinegro seu segundo título do Mundial de Clubes da Fifa e elevou o dia 16 de outubro de 2012 a uma seleta galeria de datas que jamais sairão da memória da fiel torcida. Como o longínquo, porém inesquecível 13 de outubro de 1977 do fim do jejum. Afinal, foi neste domingo que o "bando de loucos" ganhou o mundo.

A vitória, como não podia deixar de ser, teve contornos dramáticos. O sofrimento é um sentimento íntimo dos corinthianos, nas alegrias e tristezas. Está sempre presente na arquibancada, onde quer que o time jogue, e perto da TV, para quem o acompanha de longe. Nada vem fácil para esses torcedores. Esse foi o retrato do jogo.

Do outro lado do campo, afinal, estava um grande adversário. O campeão europeu, a equipe que derrotou o todo-poderoso Barcelona nas semifinais da Liga dos Campeões e que venceu o Bayern de Munique na final no estádio do adversário. Mesmo estando em má fase agora, é respeitável e temível.

Tanto que, para a final, o técnico Tite pensou em um esquema especial. Sacou o meia Douglas para promover a escalação do atacante Jorge Henrique entre os titulares. O objetivo era deixar a equipe mais rápida no ataque e tirar algumas obrigações de Emerson na marcação no meio.

Conhecido por revezar seus jogadores, Rafa Benítez também fez modificações no Chelsea em relação à semifinal contra o Monterrey. E foram várias.

O treinador espanhol tirou o brasileiro Oscar e pôs o experiente Frank Lampard, de 34 anos, recém recuperado de lesão. Reserva contra o time mexicano, Ramires começou a partida de hoje em campo. Com isso, outro brasileiro, David Luiz, que havia atuado como volante no último jogo, voltou à zaga.

O lateral direito Azpilicueta ficou no banco, e Ivanovic, zagueiro no duelo com o Monterrey, ocupou essa posição, pela qual também atua. Por fim, o atacante Moses começou como titular, fazendo dupla com Fernando Torres, e o volante Mikel foi para a reserva.

Quando a bola rolou, o Corinthians pareceu não sentir o peso de enfrentar uma das melhores equipes do mundo e impôs seu estilo de marcação aguerrida e muita disciplina tática. E como o time poderia se intimidar, se na arquibancada a Fiel torcida, aos milhares, fazia barulho e dominava o ambiente? Era como se o imponente Estádio Internacional de Yokohama tivesse virado o Pacaembu.

Mas como no tradicional palco paulista, o tal sofrimento estava presente. Comprou ingresso para a final de hoje a apareceu pela primeira vez aos 10 minutos, quando, em uma rara bobeada da defesa alvinegra, em uma cobrança de escanteio, o goleiro Cássio foi obrigado a fazer um autêntico milagre. O zagueiro Cahill teve duas chances de marcar dentro da pequena área, à queima-roupa. Mesmo caído, o arqueiro pareceu preencher todo o gol, e a bola simplesmente não entrou.

Após esse lance, o Chelsea cresceu na partida, mas o Corinthians não abdicou do ataque. Após adiantar a marcação e conseguir uma roubada de bola, o time teve boa chance aos 17 quando arrancou em velocidade com Emerson. Porém, ao invés de buscar Guerrero, que estava no meio da área, o atacante preferiu encarar David Luiz, que fez a proteção e deixou a bola sair pela linha de fundo.

Oportunidade melhor ainda aconteceu aos 34 minutos. Guerrero dominou dentro da área, girou, passando por David Luiz e Cahill, e chutou cruzado. A bola saiu fraca, fora do alcance do goleiro e rumo à linha de fundo, mas na segunda trave, quase sem ângulo, Emerson arriscou e acertou o pé da trave.

E o tal do sofrimento para os corinthianos? Andava sumido, mas voltou a dar as caras aos 37. Lampard fez longo lançamento para Torres na área. De primeira, o atacante espanhol finalizou fraco, para boa defesa de Cássio.

Dois minutos depois, o coração de toda a Fiel veio à boca quando Moses entrou na área pela esquerda, após receber belo passe de Hazard, e chutou tão bem colocado que quase correu para comemorar o gol. Só não contava com Cássio - sempre ele, o melhor em campo no primeiro tempo. O goleiro, de 1m95, se esticou tanto que pareceu até passar de 3 metros, ou pelo menos o suficiente para espalmar a bola para escanteio.

Se o futebol fosse boxe ou MMA, muitos diriam que o primeiro tempo terminou com vitória do Chelsea por pontos. Mas assim como nas lutas, é possível estar em desvantagem um confronto inteiro e depois, em um lance apenas, conseguir o golpe perfeito. O nocaute.

Talvez essa fosse a ideia de Tite, pois o Corinthians voltou para o segundo tempo aparentemente com uma postura mais defensiva. Parecia à espera de um contra-ataque. E seguiu resistindo à pressão. Aos oito minutos, Mata serviu Hazard, que arrancou e bateu na saída de Cássio. Mas o goleiro, inspirado, fez mais uma boa defesa.

Após o susto inicial, o Alvinegro neutralizou o adversário e passou a tomar conta do jogo. Aos 18, veio a primeira boa chance no segundo tempo. Guerrero dominou dentro da área e tocou para Paulinho, na direita, chutar. A bola foi para fora, mas passou perto do gol de Cech.

Foi então que a Fiel, que não parou de cantar nem no intervalo, se agigantou, confiante. O time correspondeu em campo, e a recompensa veio aos 23 minutos.

Gols históricos não precisam ser bonitos. E quando são sofridos, conquistados na raça, são ainda mais comemorados. O Corinthians é especialista no assunto. Quem não se lembra, por exemplo, de Tupãzinho, em 1990? Ou de Basílio contra a Ponte Preta?

O de Guerrero foi assim. Até no nome de seu autor. Começou a ser desenhado quando Danilo, na área, cortou o marcador e chutou. A bola desviou na zaga e subiu. O atacante peruano então apareceu para cabecear por cima da zaga do Chelsea, que estava em cima da linha e não conseguiu evitar que ela entrasse pelo alto.

Feio? Feio é não fazer gol, como diria Dadá Maravilha. Ou dar entradas desleais como o zagueiro Cahill, do Chelsea, que foi expulso aos 44min do segunda etapa, facilitando o trabalho do Corinthians, que a essa altura sofria uma leve pressão. Antes, Rafa Benítez deve ter se dado conta de que fez outro favor ao time paulista ao ter deixado Oscar de fora, e o pôs em campo no lugar de Moses. A partir daí, a equipe inglesa melhorou.

Se algum torcedor corinthiano estava em sã consciência, apesar da eletricidade da final, enlouqueceu de vez, como os demais, em dois lances no fim da partida - que parecia interminável.

Aos 46, Fernando Torres fez um gol que foi anulado por impedimento. E no último lance da partida, Mata mandou a bola na trave. E então tudo acabou. Veio o apito final. O sofrimento deu lugar à completa loucura. Foi a senha para o "hospício" abrir suas portas e tomar as ruas de São Paulo, do Brasil, do Japão e do mundo.

Ficha técnica:.

Corinthians: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Jorge Henrique, Emerson (Wallace) e Guerrero (Martínez). Técnico: Tite.

Chelsea: Cech; Ivanovic (Azpilicueta), Cahill, David Luiz e Cole; Ramires, Lampard, Mata e Hazard (Marín); Moses (Oscar) e Torres. Técnico: Rafa Benítez.

Árbitro: Cuneyt Cakir (Turquia), auxuliado por seus compatriotas Bahattin Duran e Tarik Ongun.

Gol: Guerrero (Corinthians).

Cartões amarelos: Jorge Henrique (Corinthians) e David Luiz (Chelsea).

Cartão vermelho: Cahill (Chelsea).

Estádio: Internacional de Yokohama (Japão). EFE

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