"Dia do Mandela" é marcado por preocupações com mudanças climáticas e fome na África do Sul

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© AP/Nardus Engelbrecht
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O primeiro presidente negro da história da África do Sul, Nelson Mandela, completaria 104 anos nesta segunda-feira (18). Ele faleceu em 2013, aos 95 anos, deixando um legado imensurável. Para dar sequência à sua luta, a ONU criou em 2009 o "Dia do Mandela", celebrado no dia do aniversário deste que é um ícone do combate contra a segregação racial. Neste ano, as comemorações se concentram nas mudanças climáticas e segurança alimentar.

Vinícius Assis, correspondente da RFI em Joanesburgo

A Fundação Nelson Mandela lançou a campanha "Faça o que puder, com o que você tem, onde estiver" e pede aos sul-africanos que usem esse 18 de julho para pensar em soluções sustentáveis ​​contra a crise climática e a insegurança alimentar. Segundo a organização, qualquer boa ação em prol do futuro do planeta é válida.

A principal sugestão é reservar 67 minutos deste "Dia do Mandela" em prol de alguma causa, uma referência aos 67 anos que o ex-presidente sul-africano dedicou à sua luta contra o apartheid, regime de segregação racial que vigorou por mais de 40 anos na África do Sul.

A data não mobiliza apenas os sul-africanos: segundo a Fundação Nelson Mandela, neste ano, foram programadas atividades em mais de 160 cidades em todo o mundo - muitas delas tiveram início do fim de semana. Dentro deste programa, houve plantio de árvores, corridas, ações para a conscientização sobre meio ambiente e, claro, música.

Plateia multirracial

O auditório do Teatro de Joanesburgo lotou na tarde de domingo (17) para o show do grupo sul-africano Ladysmith Black Mambazo, que venceu o prêmio Grammy cinco vezes. Uma das participantes do evento dentro da programação do "Dia do Mandela", a contadora Thando Dlamini disse à RFI que a data é muito importante para ela. “Isso me lembra o propósito de Mandela, que era sobre liberdade. Ele lutou, sacrificou a própria família, a própria paz, a própria vida. Isso sempre me faz refletir sobre qual o propósito da minha vida”, declarou.

O Teatro de Joanesburgo completa seis décadas de existência neste ano. O que se viu neste domingo foi algo que até o início dos anos 1990 era impossível: uma animada plateia multiracial homenageando um dos negros mais ilustres da história do país.

A empresária Simphiwe Teffo era uma das mais empolgadas no auditório que leva o nome deste ícone internacional da luta contra o racismo. Mas, ao lado da amiga Nomalanga Nkabinde, fazendeira, ela lamenta o momento atual enfrentado pelo país.

Ambas concordam que Nelson Mandela não ficaria feliz vendo a África do Sul como está, principalmente em se tratando de segurança e desigualdade. “No fundo, não chegamos aonde nós temos que estar", avalia Nomalanga Nkabinde.

Para endossar o desânimo da população com o cenário interno atual, a energia elétrica no local acabou e o show teve que ser interrompido. Há mais de dez anos a África do Sul enfrenta uma crise energética que frequentemente tem deixado a população sem abastecimento durante horas.

Luzes de emergência e celulares na plateia iluminaram o local por quase meia hora até o show ser retomado. Um telão no fundo do palco exibia fotos de Mandela.

Um legado no passado

Para muitos sul-africanos, principalmente os mais jovens, o legado de Mandela não é mais fonte de inspiração no dia a dia. “Nossas crianças não entendem quão longe chegamos. Foi um caminho longo e acho que eles não entendem a luta que uma pessoa negra encarou para chegar até aqui”, lamenta Nomalanga Nkabinde.

Sob anonimato, homem negro de meia idade conversou com a RFI no Teatro de Joanesburgo e lembrou que "Madiba" - como Mandela também era carinhosamente chamado - conquistou um status de semideus no país. “Todo mundo o ouvia, o respeitava, seguia as palavras dele. Se Madiba quisesse, quando venceu a eleição em 1994, teria começado uma guerra contra os brancos, mas ele não fez isso. O problema é que o legado dele foi ficando no passado”, contou.

Acompanhado de sua esposa, ele culpou o Congresso Nacional Africano, partido pelo qual Mandela foi eleito, pelo momento atual vivido pelos sul-africanos, alegando “incompetência e corrupção”. O simpático casal preferiu não se identificar, mas a mulher fez uma observação antes de encerrar a conversa: “Eu amo o Mandela, mas vocês no exterior pensam que ele lutou sozinho contra o apartheid, o que não é verdade. Inclusive muitas mulheres encararam essa luta também”, ressaltou.

A brasileira Honi Rubik, que vive em Joanesburgo, ressaltou a importância de relembrar da luta do homem que chegou a ficar preso por 27 anos para que todos “não brancos” pudessem, hoje, frequentar todos os espaços públicos que quiserem no país. “É necessário que continue sendo falado sobre o que foi essa segregação para que isso não aconteça nunca mais. E para criar uma sociedade livre, mais igualitária é necessário criar mais oportunidades para todos”, concluiu.

Mobilização das crianças contra a fome

O sul-africano Alan Browde é diretor executivo da SA Harvest, organização criada há três anos, inspirada no legado de Nelson Mandela, que distribui um milhão de refeições mensalmente em três cidades da África do Sul: Joanesburgo, Durban e Cidade do Cabo. Neste domingo ele e sua equipe organizaram um evento para conscientizar principalmente crianças sobre a importância do não desperdício de alimentos.

"Mandela foi, sem dúvida, o maior ícone da história sul-africana. Uma das grandes preocupações dele foi a assistência às pessoas com fome. Ele não toleraria ver pessoas passando fome e o dano ao meio ambiente causado pelo desperdício de comida”, disse.

Segundo ele, o descarte de alimentos gera mais lixo e emissões de gás metano. Browde aponta que cerca de 20 milhões de pessoas, entre elas, cinco milhões de crianças, passam fome na África do Sul, que conta com cerca de 60 milhões de habitantes. “Um terço da população ainda vai dormir todas as noites com fome”, lamenta.

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