Dia do refugiado: Amigo de congolês assassinado no Brasil pede asilo no Reino Unido para tentar fugir da violência e da pobreza

Dias depois de pisar pela primeira vez em Londres, Chadrac Kembilu, de 25 anos, foi algemado por três policiais, que o transportaram para um local onde faria exames que comprovassem a ausência de drogas em seu corpo. Foi ali, no banco de trás do carro, que Chadrac viu pela primeira vez a beleza do Reino Unido, para onde se dirigiu em busca de um futuro melhor após quase 10 anos como refugiado no Brasil.

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— O clima [aqui] é ótimo, a paisagem é linda, parece um filme — disse em entrevista ao GLOBO.

Chadrac deixou sua terra natal, a República Democrática do Congo, em 2013, depois de ser orientado por amigos e familiares a vir ao Brasil, onde acreditavam que o jovem, então com 16 anos, seria bem recebido como refugiado. Seu país de origem, marcado por guerras civis e violações de direitos humanos, é classificado com o mais alto nível de emergência humanitária pela ONU.

Contudo, essa expectativa foi se desfazendo aos poucos e mudou completamente após o assassinato de Moïse Kabagambe, congolês espancado até a morte, em janeiro deste ano, após cobrar um pagamento por um trabalho informal em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio.

A morte do amigo de longa data, com quem morava havia três meses, reavivou em Chadrac o desejo de tentar mais uma vez a sorte fora do Brasil. A primeira vez havia sido em 2017, quando tentou entrar na França, mas foi deportado quase imediatamente de volta ao Brasil.

Após o assassinato de Moïse neste ano, Chadrac decidiu partir novamente, escolhendo agora o Reino Unido. Com visto de turista, o congolês fez duas tentativas.

Em 7 de abril, a empresa aérea rejeitou seu embarque num voo que faria escala em Paris, apesar de ele ter apresentado a documentação necessária, o visto e a passagem, comprada com dinheiro arrecado em uma vaquinha online.

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A segunda tentativa ocorreu em 21 de abril. Com dinheiro que sobrara das doações, o congolês comprou nova passagem, mas, dessa vez, sem escalas. Bem vestido e usando um colar de contas grandes, com pedras pretas e peroladas, e um pingente enorme em formato do continente africano, ele era o único negro do voo.

— Fui o único negro dentro daquele avião. O único a ser parado quando ele pousou. O único barrado pela imigração — relembrou Chadrac, que passou dois dias algemado no Aeroporto de Heathrow, onde também foi interrogado, revistado, obrigado a ficar nu e onde teve seus pertences apreendidos.

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No local em que foi submetido aos exames, Chadrac usou o direito a uma ligação de cinco minutos para telefonar para uma amiga do Rio, que o aconselhou a mudar o discurso de “viagem para turismo” e pedir asilo.

— Ela falou: “Chada, você precisa falar que a sua vida está em perigo no Brasil, que você está fugindo, tem medo do que pode te acontecer aqui e que mataram seu amigo” — relembrou.

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O congolês seguiu o conselho e, após novos interrogatórios, recebeu um aceite provisório de asilo em seu terceiro dia no aeroporto, o que lhe livra do risco de ser deportado para Ruanda sob uma medida britânica que busca desestimular a migração para o Reino Unido. Também teve acesso a documentos garantindo acesso gratuito a hospitais e farmácias e a oito libras semanais para a compra de alimento e itens básicos, que, relata, são "suficientes apenas para água, pão ou biscoito".

Há mais de um mês, ele está abrigado em um hotel que tem parceria com o governo do Reino Unido para acomodar imigrantes e requerentes de asilo.

— É bem diferente do Brasil. Quando eu cheguei aí, não recebi ajuda nenhuma, foi basicamente um “se vira”. Não sabia falar português, não conhecia nada e nem ninguém. Foi muito difícil — afirmou entre risos, ao lembrar as discrepâncias entre os dois países.

A diferença de apoio para os refugiados recém-chegados não é a mais importante, sugere Chadrac:

— Gostei da estrutura do país. É muito organizado, sem crimes, os policiais andam ser armas expostas — afirma o congolês, que ainda espera uma resposta final sobre o visto definitivo para permanecer no Reino Unido.

Dez anos no Brasil

Chadrac saiu do Congo depois de concluir os estudos e complementá-los com uma especialização em Pedagogia, diploma que tentou por anos validar no Brasil, mas sem sucesso. Com seus irmãos Elvis e Emmanuel Kembilu, ele chegou a São Paulo em 2013 por meio de uma iniciativa da Congregação de São Vicente de Paulo, que auxiliava refugiados no Brasil.

De São Paulo, viajaram para o Rio, onde começaram a construir a vida. Adolescente na época, Chadrac conta que estava na Uruguaiana, área central da cidade, quando um grupo de homens negros lhe chamou a atenção e ele resolveu se aproximar.

— Não sabia que tinha negros no Brasil. Eles eram angolanos, foram os primeiros a me ajudar na cidade, onde me levaram até uma barbearia de congoleses na Lapa e lá eu comecei a fazer contatos.

Na barbearia, eles conheceram o congolês Yves Selenge, que os abrigou em casa: uma quitinete na comunidade Cinco Bocas, em Brás de Pina, onde ficaram, em cinco pessoas, por cerca de seis meses. O primeiro “emprego” de Chadrac foi como ajudante de carga e descarga, na qual recebia apenas 20 reais por mais de 10 horas de trabalho ao dia.

— Era um trabalho escravo, hoje eu tenho consciência disso — enfatizou, explicando que voltou nessa função outras vezes por necessidade. — O trabalho de escravo nunca acaba, você pode viajar, mudar, mas ele não sai de dentro de você, de quem você é, da sua cor.

Nos anos no Brasil, ele conquistou cinco trabalhos de carteira assinada, sendo o mais recente e com maior salário o de atendente em um zoológico do Rio, onde teve um salário de mais de R$ 3 mil durante cinco meses em 2021, mas foi dispensado devido à queda das visitações durante a pandemia.

— O Brasil me fez maduro, me ensinou a ser um homem responsável — afirma o congolês ao ser questionado sobre sua melhor lembrança do Brasil. — Foi onde eu conquistei meu primeiro salário, comprei as minhas coisas, paguei aluguel sozinho, fiz amigos para a vida toda.

Entre as piores lembranças estão períodos de fome, de quase despejo por não conseguir pagar as contas e de dificuldades psicológicas, "em que minha mente estava destruída, estava magro, muito magro". Não bastasse, foi onde sofreu uma grande perda:

— Também é o país onde mataram um dos meus melhores amigos e fui perseguido. — afirma, referindo-se a Moïse. — Ser um refugiado negro em um país racista é complicado, a gente sofre muito preconceito e somos impedidos de alcançar nosso objetivo: conseguir dinheiro para ajudar nossas famílias no Congo — afirma, completando: — Depois de 10 anos no Brasil, não realizei esse sonho e por isso precisei partir.

(*Estagiária sob supervisão de Leda Balbino)

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