Dia do refugiado: Saiba quais são as crises de deslocamento forçado mais negligenciadas do mundo

Quase quatro meses de guerra na Ucrânia foram suficientes para desencadear uma das mais rápidas e sérias crises de deslocamento forçado de pessoas desde a Segunda Guerra Mundial. Mais de 14 milhões de ucranianos deixaram suas casas desde o início dos ataques russos em fevereiro deste ano, dos quais cerca de 7,5 milhões cruzaram as fronteiras do país em busca de asilo, segundo a ONU.

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Tamanho êxodo — e em tão curto tempo — repercutiu mundialmente, gerando respostas rápidas de ajuda humanitária, ações políticas imediatas e grande repercussão na imprensa. Contudo, enquanto os holofotes estão sobre a Ucrânia, dez nações africanas estão às sombras das atenções e encabeçam a lista de países com as crises de refugiados mais negligenciadas em todo o mundo, conforme o relatório anual do Conselho Norueguês para Refugiados (NRC), divulgado no início de junho. Esta é a primeira vez em que só constam países do continente africano na lista, com 30,4 milhões de pessoas afetadas.

O ranking da ONG, com dados relativos a 2021, mostra os países que menos recebem atenção diante de graves crises, seja pela falta de esforços da política internacional, da cobertura da mídia ou dos financiamentos destinados a cobrir necessidades básicas nas regiões afetadas. São eles: República Democrática do Congo (RDC), Burkina Faso, Camarões, Sudão do Sul, Chade, Mali, Sudão, Nigéria, Burundi e Etiópia.

Marca da negligência

Alguns desses países estão na lista há alguns anos — como a RDC, que ocupa o primeiro lugar há dois anos e figura no ranking há seis — o que demonstra que pouco se tem feito para mudar o cenário.

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Segundo o relatório da agência da ONU para Refugiados (Acnur), divulgado semana passada, havia cerca de 100 milhões de deslocados no mundo até o fim de maio. Até o final de 2021, 27,1 milhões eram refugiados — isto é, pessoas que cruzaram a fronteira dos países de origem —, mas esse número já deve ser muito maior devido aos desdobramentos da guerra na Ucrânia.

A guerra iniciada pelo presidente russo, Vladimir Putin, também afeta o continente africano diretamente, uma vez que 44% das importações de trigo de lá vêm da Rússia e da Ucrânia. Isso acarretou uma alta nos preços dos alimentos e, consequentemente, a deterioração da situação nutricional — já delicada — de milhões de africanos.

Liderando a lista de esquecidos pelo segundo ano consecutivo, a RDC tem, atualmente, cerca de um milhão de cidadãos refugiados em outros países e 5,5 milhões de deslocados internos, de acordo com os dados do Acnur. Destes, 33,6% são homens entre 18 e 59 anos.

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O número de vítimas de deslocamento forçado na RDC tem crescido substancialmente desde 2018, quando o total era pouco menos da metade em comparação com os dados atuais. Apesar de sua situação interna, o país abriga cerca de 520 mil refugiados de outras nações africanas, como Burundi e Sudão do Sul.

Embora seja um dos países mais pobres do mundo e classificado com o nível mais alto de emergência de ajuda na ONU, a RDC recebeu apenas 44% dos US$ 2 bilhões necessários para suprir a demanda por assistência humanitária em 2021. A fome afeta um terço da população, com 27 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar.

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— É uma das piores crises humanitárias deste século, mas aqueles, dentro e fora da África, com poder para efetuar mudanças estão fechando os olhos para as ondas de ataques brutais, direcionados a civis e que destroem comunidades — disse Jan Egeland, o secretário-geral do Conselho Norueguês para Refugiados, no lançamento do relatório.

Segundo o documento, a RDC foi o país que menos recebeu atenção da imprensa em relação à sua crise de refugiados em 2021, quando comparado ao número total de pessoas deslocadas.

Com 976 mil refugiados e 2,8 milhões de deslocados internos, Burkina Faso (segundo lugar no ranking) se aproxima do topo da lista devido à instabilidade política — sobretudo após o golpe militar de janeiro. O país enfrenta um ano de avanço da violência e deterioração da segurança, exacerbando a crise humanitária.

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Só 15% da ajuda necessária

Segundo a ONU, 53% dos deslocados internos são mulheres, dois em cada três são crianças com menos de 15 anos, e 2,3 milhões de pessoas vivem sob insegurança alimentar no país.

Até o momento, Burkina Faso recebeu pouco mais de 15% do montante requerido (US$ 590 milhões) para financiamento de assistência humanitária em 2022.

Outro país da lista que se destaca é o Sudão do Sul. Além de ser estreante no alto do ranking de 2021, em quarto lugar, o Sudão do Sul também está entre os cinco países que mais contribuem para o número total de refugiados em todo o mundo — juntamente com a Síria (6,8 milhões), Venezuela (4,6 milhões), Afeganistão (2,7 milhões) e Mianmar (1,2 milhão), o que corresponde a 69% do total global, segundo o Acnur.

O Sudão do Sul, hoje, soma o maior número de refugiados (2,3 milhões) entre os listados no relatório da organização humanitária norueguesa, além de 2 milhões de deslocados internos. O país também abriga cerca de 330 mil pessoas fugindo de conflitos em outras nações vizinhas — principalmente do Sudão, que figura na sétima posição do ranking e, sozinho, tem mais de 1 milhão de cidadãos refugiados.

'Troca' de refugiados

Tal “troca” de refugiados, comum entre países vizinhos, evidencia a negligência no enfrentamento das crises humanitárias na África. Grande parte delas, conforme aponta o relatório, é de natureza prolongada e agravada por uma combinação desastrosa de diversos fatores, tais como movimentos de insurgência, violência contra civis, fome e desastres climáticos.

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Na Nigéria e na Etiópia — ocupantes da oitava e décima posições, respectivamente — também se observam alguns dos mais altos índices de deslocamentos internos, causados por graves conflitos regionais.

O conflito na região de Tigré, no Norte da Etiópia, por exemplo, é considerado um dos mais brutais do mundo e já provocou um êxodo interno de cerca de 4,5 milhões de pessoas. A Anistia Internacional estima que mais de 100 mil pessoas já morreram por causa das disputas em Tigré.

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A crise na Etiópia também se traduz em dados ainda mais alarmantes. Atualmente, 29,7 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária no país, dado que o coloca em primeiro lugar na lista de países mais carentes de ajuda.

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