Dia de São Sebastião: o santo que vive nas artes e na música em um Rio movido a fé

Das chagas de São Sebastião, flechado a mando do imperador romano Diocleciano por professar a fé cristã, verte inspiração para músicos e artistas visuais que querem falar das mazelas e do poder de superação dos cariocas. Afinal, como num samba, o santo agonizou mas não morreu e alguém o socorreu. Sob os cuidados de Santa Irene, ele se recuperou. Dado por morto, poderia ter fugido, mas foi novamente encarar Diocleciano para reiterar sua fé e, então, ser espancado até o suspiro derradeiro. O padroeiro do Rio tem sido muito retratado nas artes, mas é visto por aqui desde a época do fundador da cidade, Estácio de Sá, como aponta o historiador Luiz Antonio Simas:

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— Na mitologia de fundação da cidade, consta que teria ocorrido uma aparição milagrosa de São Sebastião para auxiliar os portugueses nas guerras da Guanabara. De um lado, havia os portugueses apoiados pelos temiminós, que eram os indígenas do Arariboia, e, do outro lado, os franceses com os tupinambás. É preciso lembrar que Sebastião foi um militar, um soldado da guarda romana.

No entanto, os portugueses — cujo líder, Estácio de Sá, acabaria ironicamente vitimado por uma flecha envenenada — não foram os únicos a se apropriar desse santo guerreiro.

— Nas macumbas do Rio, houve um cruzamento entre São Sebastião e o orixá Oxóssi, que tem como referência um arco e flecha — explica Simas. — O curioso é que Sebastião foi flechado, e Oxóssi é o orixá que usa a flecha, embora não para guerrear, e sim para caçar e prover comida. Para os tupinambás, aquele que você mata se torna um elemento constituinte do seu ser. De acordo com a versão portuguesa da conquista da Guanabara, São Sebastião matou os indígenas e, por fim, ele foi indianizado pelos fenômenos do sincretismo.

Essa transformação serviu de mote para uma obra do artista visual paulistano Ozi. Em 2012, ele grafitou um São Sebastião de cocar e bermuda no respiradouro do metrô da Cinelândia e o batizou de “Menino do Rio”. Três anos depois, em meio a uma onda de assaltos com esfaqueamentos na cidade, Ozi fez uma nova intervenção usando a imagem do mártir cristão.

— Eu amo o Rio e via a cidade sendo assassinada de uma maneira cruel. Então, quis fazer uma releitura do santo — conta Ozi, nascido na Zona Leste de São Paulo. — O curador Marco Antonio Teobaldo mapeou os lugares onde pessoas haviam sido assassinadas a tiros ou a facadas, e eu fiz uma série de lambe-lambes retratando Sebastião com ferimentos. Eu e o Teobaldo saímos pelas ruas e colamos cerca de dez desses trabalhos em locais onde ocorreram crimes.

O santo no samba

O sambista Moacyr Luz — coautor da canção “Saudades da Guanabara”, que acaba com os versos "Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro / Que São Sebastião do Rio de Janeiro / Ainda pode se salvar" — responde de bate-pronto a pergunta sobre quem seria o carrasco de Sebastião caso o santo nascesse no Rio de hoje.

— A milícia — crava o músico, que faz show em homenagem ao padroeiro hoje, às 14h, num palco a céu aberto na Rua do Senado. — Claro que vou tocar “Saudades da Guanabara”. A música termina com versos otimistas, porque é cada coisa absurda que acontece no Rio, bicho, que só com a crença de que a cidade ainda pode se salvar é que podemos renascer todo dia. É uma cidade movida a fé.

As áreas dominadas da cidade também inspiram obras de Mulambö, como “Na guerra, cupido vira caçador”, que aparece ao lado.

— É uma foto de uma operação na Cidade de Deus e tem um policial armado passando na frente de um menininho. Fiz uma intervenção, transformando esse menino em um Oxóssi caçador — explica o artista saquaremense, cuja mãe trabalha na Maré.

Criticar essa estrutura de poder é também o objetivo do artista André Griffo na série de pinturas "Vendedor de miniaturas".

— É um comerciante que vende personagens de um sistema de poder da cidade do Rio. Tem pastor, traficante, miliciano, policial e outros. Ao lado de um São Sebastião, botei um adolescente flechado. Ele representa a alta mortalidade de adolescentes por causa da violência - descreve Griffo.

Uma famosa representação de São Sebastião baleado está na capa do disco “Caça à raposa” (1975), de João Bosco. O autor foi o artista plástico Glauco Rodrigues, morto em 2004. Coincidentemente, Bosco e Glauco nasceram em outras cidades que também têm o mesmo padroeiro do Rio, respectivamente, Ponte Nova (MG) e Bagé (RS).

— É um santo de luta e volta por cima, porque ele não morre com as flechas. A luta sempre continua, e isso faz com que os brasileiros se identifiquem com ele — opina Bosco. — Esse disco é do tempo da ditadura. O Glauco fez uma capa onde colocou São Sebastião com o braço esquerdo levantado e preso, o que é muito simbólico, além de uma ave tropical e uma pessoa anônima cuja arma é o seu instrumento, um violão. É a luta do homem comum. É o que esse disco representava.

Viúva de Glauco Rodrigues, Norma Estellita Pessoa confirma o subtexto político dado pelo artista ao santo.

— Ele fez mais de cem trabalhos usando o santo e, sem dúvida, é a expressão do brasileiro. É massacrado, sofre, mas resiste. Glauco fazia uma pintura crítica. E quando tinha um bloqueio criativo, desenhava São Sebastião.

Versátil, a figura de Sebastião parece se adequar a vários contextos e minorias injustiçadas. Luiz Antonio Simas lembra que o santo também foi adotado pela comunidade LGBTQIA+, muito antes de essa sigla existir.

— Oscar Wilde já via São Sebastião como um ícone gay, e Rainer Maria Rilke tem um poema que trabalha com essa ideia. O que se diz é que São Sebastião se recusou a esconder aquilo que era. Ele viveu a sua história publicamente. Desafiou o imperador afirmando, na frente dele, que era cristão — diz Simas.