ONGs levam café da manhã e banho para pessoas em situação de rua no Largo da Carioca

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RIO — Eles são centenas e vão passar a noite de Natal tendo como companhia apenas o céu e os amigos que conheceram na rua. Na véspera da data, duas ONGs, sem vínculos com governos e que prestam assistência à população de rua, se uniram na manhã desta sexta-feira para oferecer café da manhã, banho e uma palavra de conforto para sem-teto no Largo da Carioca. Na ação, a percepção dos integrantes é de que 2021 está perto do fim com mais gente nas ruas sem ter onde morar, porque perderam emprego e renda desde o início da pandemia, no ano passado:

— A véspera do Natal tem um simbolismo. Nossa tentativa é ajudar a resgatar um pouco de dignidade para essas pessoas. Esse resgate começa com a oportunidade de tomar banho e receber uma nova muda de roupas. Gosto de ajudar as pessoas. Isso não tem qualquer cunho religioso ou político — diz o empresário Ricardo Tavares, de 55 anos.

Ricardo dirige a ONG Organização de Reintegração e Estímulo à Socialização (Ores). A entidade levou para o Largo Carioca um ônibus adaptado com quatro módulos de chuveiros, com pias. Lá, os moradores de rua podem tomar banho, receber roupas novas e curativos novos em pequenas lesões. O ônibus, comprado em São Paulo e adaptado com dinheiro de doações (R$ 78 mil), circula desde abril do ano passado, quando os casos de Covid explodiram. Além disso, a Ores conta com dois chuveiros permanentes no Largo da Carioca, próximo à base do Segurança Presente do Centro

As duchas são conectadas a dois barris com um total de 200 litros de água, que, segundo Ricardo, são suficientes para 40 banhos por vez. Ao todo, 43 pessoas se banharam até às 10h30, exigindo reposição. O empresário conta que, nessa ação, o recorde foi registrado em junho, quando as duchas foram usadas por 323 pessoas. A manutenção do projeto custa de R$ 5 mil a R$ 6,5 mil por mês, incluindo gastos com salários de motoristas e combustível.

Ricardo diz que começou a trabalhar com a população de rua há quatro anos, em memória do pai, Nelon Tavares, que morreu de câncer em 2014 e também gostava de ajudar as pessoas. Divorciado e pai de duas filhas de 2 (Helena) e 14 anos (Gabrielle), ele conta que prefere passar a noite de Natal sozinho. Neste sábado, ele vai visitar as filhas.

— No Natal, me identifico com a dor dessas pessoas que ajudo e vão passar a noite na rua. Fico angustiado e prefiro ficar sozinho a passar essa noite com alguém — diz o empresário, morador da Ilha do Governador.

Nesta sexta-feira, o empresário distribuiu ainda cerca de 600 cafés da manhã com sucos e pães com mortadela, doados por um amigo, dono de uma padaria.

A professora de inglês aposentada Suzana Castro, de 61 anos, por sua vez, integra há dois anos a ONG Dois cafés e um pingado. A organização, que passou um tempo com atividades suspensas no ano passado por conta da Covid, retomou as atividades em dezembro de 2020 na Carioca, atuando todas as sextas-feiras. Além de café da manhã, a ONG auxilia moradores de rua doando toalhas e outros artigos que possam ser revendidos (ajudando a pessoa a ter renda) e o preenchimento de currículos. Os que perderam documentos são encaminhadas aos órgãos oficiais.

— Por ser véspera de Natal, muita gente pensava que não viríamos. Muitas ONGs pararam. Mas a gente queria estar presente em uma data especial. No meio desse caos que vivemos ainda por causa da pandemia, que contribuiu para o aumento da população de rua, queríamos trazer um pouco de esperança nesse dia — explicou Suzana.

Cristã, ela diz que, desde que se aposentou em 2019, tenta ajudar as pessoas. Moradora de Botafogo, ela vai passar a noite de Natal em casa com as duas filhas: Ana Carolina, de 35 anos, e Beatriz, de 31.

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