Dia de todos os Santos #2: Vila Belmiro, o alçapão

Fábio Lázaro


Urbano Caldeira ou, como é popularmente conhecido, Vila Belmiro. Mas, também poderia chamar-se templo, mística, charmosa, fundamental, mágica, emblemática, surreal, histórica, patrimônio do futebol mundial… a reportagem do L! entrou em contato com torcedores santistas de diferentes épocas e foram esses os adjetivos citados ao estádio do Santos.

O santista sente-se acolhido na Vila Belmiro, pois entende que não há melhor lugar no mundo do que o seu próprio lar. E quando é cruzada a esquina da Rua Princesa Isabel, não há mais contexto histórico, econômico ou social, todos tornam-se irmãos de sangue ao vestirem a mesma camisa. As diferenças são ignoradas no abraço em desconhecidos durante o grito de gol. Forma-se, então, uma grande família dentro ou fora do alçapão.


A Vila mais famosa do mundo

12 de outubro de 1916. Na época, o Brasil não comemorava o dia da padroeira nacional, Nossa Senhora da Aparecida, tampouco das crianças, mas a data era simbólica, pois foi o dia em que o Peixe realizou o sonho da casa própria.

Após quase três anos como andarilho, mandando os seus jogos nos campos da Ana Costa, Conselheiro Nébias e Clube dos Ingleses, o Alvinegro Praiano passava a ter um endereço para chamar de seu.

Na ocasião, o prefeito da cidade era Belmiro Ribeiro de Moraes e Silva. O tal Belmiro da Vila, até então Operária, que por conta do Peixe tornou-se a mais famosa do mundo.

Nos primeiros anos, em um tom intimista, era chamada de “Campo do Santos”. Recebeu nome próprio, Urbano Caldeira, em homenagem póstuma ao ex-zagueiro, treinador e dirigente, em 1933, meses após o seu falecimento. Menção mais do que honrosa a um dos personagens da história santista que mais possuía carinho pela instituição.

A Vila Operária cresceu e tornou-se Vila Belmiro, homenageando o prefeito que doou os terrenos para a construção do bairro, e, de quebra, popularizou-se no nome popular do tal “Campo do Santos”.

Pontapé inicial

A bola rolou oficialmente no estádio santista em 22 de outubro de 1916, na vitória por 2 a 1 sobre o Ypiranga, pelo Campeonato Paulista daquele ano. Mas, até o pontapé inicial ocorrer foram escrito capítulos históricos em um curto espaço de tempo.

Entre a decisão de se adquirir um novo estádio e a inauguração, foi cerca de um ano. Alguns terrenos foram avaliados, mas a decisão de se construir o alçapão santista deu-se por uma série de motivos, conta o jornalista Ted Sartori, subeditor do Santa Portal e autor do livro “Histórias da Vila Belmiro: 100 anos de magia do estádio santista”, em parceria com o também jornalista, Almir Rizatto.

– 70 centímetros acima do nível do mar, com luz elétrica, água e esgoto e a vantagem dos proprietários (Companhia Santista de Habitações Econômicas) desejarem incrementar a ocupação na área. Sem contar que estavam previstas linhas de bonde na região, facilitando o acesso aos torcedores – disse Ted.

Os 66 contos e 600 mil réis investidos pelo clube para a aquisição do terreno corresponderia hoje a cerca de R$ 10 milhões.

Após procura e avaliações durante cerca de seis meses, segundo Ted, o contrato foi formalizado no dia 10 de junho de 1916.

A Vila Belmiro ficou pronta em apenas dois meses. Mas, a expectativa da estreia, primeiramente em agosto, foi retardada por um motivo fúnebre.

– A inauguração aconteceria em 20 de agosto de 2016, mas Álvaro (de Oliveira Ribeiro, presidente à época) acabou falecendo – pontuou Sartori.

Cerca de dois meses depois, o tal 12 de outubro, data marcada para o jogo de inauguração, contra o Ypiranga, pelo Paulistão, acabou adiado por conta da forte chuva que acometia a cidade. O que não estragou a festa, que teve uma partida entre associados e uma programação especial para as crianças – e olhem que, como dissemos acima, o dia das crianças nem era comemorado no Brasil naquele tempo.

10 dias depois, às 15h30, 22 de outubro de 1916, um domingo de outono, a bola rolou para a primeira partida oficial da Vila Belmiro. Ainda não em gramado, pois as recorrentes chuvas impediram o plantio, mas sob o olhar de cerca de 2 mil pessoas na arquibancada de madeira do estádio. Adolpho Millon marcou o primeiro gol da história do Estádio Urbano Caldeira, ainda então “Campo do Santos”.

Seja pelo aspecto intimista da Vila Belmiro, a sua proximidade com o gramado, o acesso ou qualquer outro motivo, fica sob o encargo do torcedor escolher o que mais lhe convém. O parágrafo inicial do texto traz uma série de adjetivos sobre o estádio, fruto de respostas de torcedores ao LANCE!. E dentre tantas definições, fica registrada a do administrador Caio Carvalho Júnior, de 23 anos.

– O Templo Sagrado representa a história do Santos concretizada. A Vila é pequena? Sim. Mas, de fato, a história dela não cabe nem dentro do Maracanã – disse.

O estádio que mais recebeu jogos do Rei, acolheu em berço esplêndido esquadrões desportivos históricos e viu meninos crescerem, tornarem-se homens e brilharem mundo afora, não precisava necessariamente ser enorme. Deveria ser, e é, do jeito que é. Com essa forma e tamanho. Pequeno em estrutura, mas gigante em sentimentos, para suficientemente caber no profundo do coração santista.