Diante de ex-auxiliar de Bolsonaro, Múcio assume Defesa e diz ter convicção de que terá convivência harmoniosa com Forças Armadas

O novo ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, tomou posse no cargo na tarde desta segunda-feira e afirmou ter convicção de que manterá uma convivência harmoniosa com as Forças Armadas. Ele comandará uma das áreas mais sensíveis do governo, dada a ligação de boa parte da caserna com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e foi escalado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para pacificar a relação com Exército, Marinha e Aeronáutica.

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Após a cerimônia, Múcio falou sobre os acampamentos montados em frente a quarteis de todo o país em que apoiadores de Bolsonaro promovem atos inconstitucionais para protestar contra a vitória do petista nas urnas. O novo ministro revelou que tem parentes entre os acampados.

— Aquilo vai se esvair. Falo com muita autoridade, porque eu tenho parentes lá, no Recife, e tenho alguns amigos daqui. É uma demonstração da democracia. A gente tem que entender que nem todos os adversários são inimigos, a gente tem amigos também — afirmou a jornalistas no fim da solenidade.

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Fechado à imprensa, o evento foi acompanhado por três ex-ministros da Defesa, entre eles o titular da pasta durante a gestão passada, general Fernando Azevedo e Silva. Também compareceram os ex-ministros Raul Jungmann e o general Joaquim Silva e Luna, que também presidiu a Petrobras durante o governo Bolsonaro. Outros ex-titulares da cadeira, Paulo Sergio Nogueira e o general Walter Braga Neto, candidato a vice na chapa bolsonarista à Presidência, foram convidados e não compareceram.

Também estavam presentes os novos comandantes das Forças Armadas: general Júlio Cesar de Arruda (Exército), almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen (Marinha) e tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno (Aeronáutica). Múcio afirmou que Lula terá um “diálogo fraterno e franco” com os três comandantes. Ainda não há data para um encontro deles com o presidente.

— O meu sentimento é de responsabilidade, pela condução equilibrada do espírito conciliador, cooperativo, agregador que vejo permear todas as relações pessoais e profissionais no âmbito desse ministério e das Forças Armadas que o integram. Responsabilidade por cultivar o permanente amor à pátria, profissionalismo e o senso do dever que todos, sem exceção, demonstram em sua conduta cotidiana e em todas as suas manifestações — afirmou em seu discurso.

A respeito dos convidados, Múcio disse ter respeito e admiração por todos os ministros que o antecederam. Saudou especialmente Paulo Sergio Nogueira de Oliveira, titular do posto no governo anterior, afirmando que o general foi cortês e eficiente durante a transição. O novo ministro ressaltou ainda que as Forças Armadas são instituições de Estado e que sempre se posicionaram à serviço da paz:

— Nosso país possui tradição pacífica, apesar de sua relevante dimensão geopolítica. O Brasil e as suas Forças Armadas sempre se posicionaram a serviço da paz, da democracia, do respeito às instituições e da cooperação com seus vizinhos.

Múcio afirmou ainda que está comprometido em cuidar dos programas e projetos estratégicos de cada força, incrementando o intercâmbio das estruturas militares com a base industrial de Defesa brasileira e com meio acadêmico. O objetivo dessas interfaces é estimular a evolução técnica, tecnológica e científica.

Biografia

Ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Múcio assumiu seu primeiro cargo público em 1975, quando se tornou vice-prefeito de Rio Formoso (PE). Na época, era filiado à Arena, partido que dava sustentação à ditadura militar no país. Foi eleito cinco vezes deputado federal, a primeira em 1990, e passou 16 anos na Câmara. Era líder do PTB quando ocorreu o escândalo do mensalão, detonado pelo então presidente de seu partido, Roberto Jefferson, em 2005, no primeiro governo Lula.

O mesmo estilo moderado e conciliador o credenciou para ocupar o Ministério da Defesa do terceiro governo Lula, o levaram o posto de líder do governo na Câmara em 2007 e, na sequência, a assumir o cargo de ministro das Relações Institucionais, responsável por fazer a interlocução com o Congresso.