"Diário da Pandemia", de Alpino, é registro tragicômico de um "ano maluco"

Matheus Pichonelli
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Cartum da coletânea
Cartum da coletânea "Diário da Pandemia", do cartunista Alpino

No sofá da sala, com pijama e um laptop no colo, a mulher é consultada pelo marido sobre os planos para o fim de ano. Vão passar a live na casa da mãe dela ou da mãe dele?

Com o olhar fixo, o jovem enclausurado percebe que a pandemia tirou dele o que mais amava: ficar enfiado na casa dos outros.

“Tem certeza que é domingo, domingo mesmo?”, pergunta a criança para os pais mortos-vivos e esparramados pela casa de bermuda e camiseta surrada durante 24 por dia, sete dias por semana.

Ao ver o dono observando incrédulo, pela janela, uma cidade confinada o pássaro preso na gaiola se sente vingado: “Rá”.

Insone entre os controles da TV e do videogame, o sujeito despenteado e barba por fazer avisa por telefone que ainda não decidiu se vai passar o feriado na sala ou na cozinha.

Na porta de casa, a vizinha de máscara se depara com vizinhos sorridentes e sem máscaras perguntado se ela tem um minuto para uma linda mensagem dos Negacionistas da Pandemia.

Entre o trágico e o cômico, as cenas corriqueiras de personagens caricaturalmente reais povoam o ebook “Diário da Pandemia”, uma coletânea de 170 cartuns recém-publicada pelo ilustrador Alpino, ex-colaborador do Yahoo Notícias. O livro está disponível na loja virtual da Amazon.

Capa do livro
Capa do livro "Diário da Pandemia", do cartunista Alpino

Bem-humorado, o autor e ilustrador avisa logo na introdução que a sequência de cartuns é o registro de um ano maluco marcado por estoques de papel higiênico, quarentena, máscaras, álcool gel, muitos banhos, pessoas cantando nas janelas e casais apaixonados vendo a realização do sonho de passarem mais tempos juntos. “Acredito que em 2021 teremos o maior número de divórcios da história”, aposta. “O motivo não serão os clássicos ‘o amor acabou’, ‘ele me traiu com a secretária’, ‘incompatibilidade de gênios’, etc. Será apenas um: 2020”.

Alpino me enviou a prova do livro há algumas semanas. Abri o arquivo para conferir só os primeiros dez cartuns —e deixar os demais para o fim de semana. Não consegui. Li e reli tudo de uma só vez. Pior: me identifiquei em muitas daquelas cenas, como já me identificava com as ilustrações que ele publica, quase diariamente, em seu perfil no Instagram (@cartuns.alpino).

Minha dica de livro para o fim de semana vem também com um desejo: que os personagens das crônicas em forma de cartuns (todos nós, no caso) apareçam em uma coletânea mais arejada e menos confinada em 2022. Seria pedir muito?