Dias antes de morrer, técnica de enfermagem clamou pelo isolamento social: 'cuidem dos seus amigos e família'

Felipe Grinberg
Dias antes de morrer, técnica de enfermagem clamou pelo isolamento social: 'cuidem dos seus amigos e família'

RIO — Há uma semana a técnica de enfermagem Daniele Costa fez uma transmissão ao vivo em uma rede social contando para seus amigos como era estar com a Covid-19 e clamou para que as pessoas permaneçam em isolamento social. Para alguns amigos e entes queridos, este foi o último contato com Daniele, que quatro dias depois foi internada no CTI do hospital Zilda Arns e morreu nesta segunda-feira.

Muito emocionada, ela narra como seu atendimento no Hospital Geral de Nova Iguaçu a deixou incomodada. Daniele começou a sentir os sintomas no dia 14 de abril e procurou a unidade dois dias depois. O primeiro médico que a recebeu estava há pelo menos 12 horas sozinho no plantão e sem se alimentar. Após realizar a tomografia computadorizada ela foi atendida por outro médico, que segundo Daniele, nem a olhou nos olhos, a liberou logo em seguida e ainda afirmou que achava estar contaminado.

— Eu fui tão maltratada no hospital aquele dia. Sou profissional de saúde, me identifiquei que trabalhava na UPA, mas fui tratada muito mal. O segundo médico nem olho na minha cara. O primeiro, infelizmente não estava lá. Ele me mandou embora sem prescrever a medicação e dizendo que todos iriam pegar — desabafou.

Ao fundo da transmissão feita pela técnica de enfermagem é possível ouvir músicas muito altas. Ela conta que o som vem de uma barraca em sua rua que frequentemente realiza pequenas festas e aglomerações.

— Aqui do lado tem uma barraca e eu vejo reuniões todos os dias. Isso me entristece, dói meu coração. São todos meus vizinhos e pessoas que eu gosto. Fico com medo deles ficarem doentes igual a mim. Não quero que nenhum dos meus amigos e familiares passem pelo que eu passei. Cada dia é uma surpresa e um sintoma diferente. Tenham cuidado, cuidem dos seus amigos e família. Deixe para comemorar depois, fazer churrasco depois. Não é o momento, estão botando suas vidas e de outros em risco. É muito ruim e não é brincadeira — narrou Daniele.

Em seu depoimento a técnica ainda comenta que outros colegas que trabalham na frente do combate ao coronavírus foram infectados. Um deles, inclusive teve duas mortes em sua família.

— Meus amigos da área de saúde, diminuam a carga de trabalho. Eu sei que precisamos, mas estou pagando por trabalhar muito e hoje estou vendo que não é legal. Lutem pelos EPIs de verdade, os EPIS corretos.

Daniele será sepultada nesta quarta-feira às 10 horas no Jardim Sulacap, em Mesquita.

Procurada, a prefeitura de Nova Iguaçu lamentou a morte de Daniele e afirmou que Hospital Geral de Nova Iguaçu vive um cenário atípico devido à pandemia do novo coronavírus, uma vez que os atendimentos usuais de urgência e emergência (baleados, esfaqueados, acidentados e etc) continuam chegando de toda à Baixada Fluminense. O município ainda disse que não havia necessidade de internação naquele momento. E que na última quarta-feira (22), Daniela retornou à Upa de Austin,e foi internada com falta de ar, inserida na regulação estadual e transferida na última sexta-feira (24), para o Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda.

Nosso objetivo é criar um local seguro e atraente para os usuários se conectarem a interesses e paixões. Para melhorar a experiência de nossa comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários dos artigos.