Diego Ribas se despede do futebol como o imperfeito protagonista do Flamengo

Quando desejarem recontar os feitos do (por ora) segundo maior time da história do Flamengo, os rubro-negros poderão ser guiados por diferentes protagonistas: de Gabigol, goleador de jogos decisivos, a Arrascaeta, maestro de técnica especial, passando pelo gênio controverso de Jorge Jesus. Mas se quiserem narrar a trama completa, com início, meio e fim — e todos os altos e baixos desse percurso —, o nome a ser evocado primeiro será o de Diego Ribas, que fará hoje o último jogo de sua carreira como atleta profissional, diante do Avaí, no Maracanã.

Diego não ocupa esse posto por ser um herói ilibado, apesar da carreira livre de qualquer polêmica e do media training apurado. Na verdade, em um elenco que aos poucos ganha status mítico, ele se torna mais identificável quando se mostra humano, capaz de acertos e erros em igual medida. E foram vários, dos dois lados, numa trajetória que mereceria ser sublinhada apenas pelo fato de ter ocupado raras seis temporadas e meia.

A voz do camisa 10 é a que melhor conta esta história porque foi ela a primeira a ecoar lá no início, quando um Flamengo que atravessara anos de austeridade financeira finalmente começava a botar as manguinhas de fora. A chegada de Diego após uma sólida carreira na Europa, naquele julho de 2016, representou o sinal de partida para novos tempos no Ninho do Urubu. Também nasceu ali o “AeroFla”, acalento da torcida que em tempos recentes tomou o sentido inverso, com os rubro-negros indo despachar o time para três finais de Libertadores em apenas quatro anos.

Não demorou para Diego mostrar, em campo, ser tão diferente. Ele era a principal referência técnica do time que surpreendeu sob o comando de Zé Ricardo. Também foi a principal referência quando uma série de frustrações transformou o Flamengo no time do cheirinho, piada de proporções nacionais. Alguns desses reveses tiveram as digitais do jogador, atrapalhado especialmente ao bater pênaltis. Em outras oportunidades, ele se tornou vitrine apenas porque era quem se dispunha a dar a cara a tapa.

O destino foi generoso e permitiu que a trajetória de Diego na Gávea fosse coroada com conquistas, mesmo que ele tenha perdido o protagonismo no processo. Viu chegarem nomes de peso no atacado pela porteira que ajudou a abrir e enfrentou uma grave lesão no momento mais mágico desse elenco. Ainda assim, teve tempo para dar sua contribuição, por sorte ou luz, no lançamento que encontrou Gabigol para arrematar a Libertadores de 2019 em virada sobre o River Plate.

Ainda houve um canto do cisne, já na temporada seguinte, quando o camisa 10 foi reinventado por Rogério Ceni no papel de primeiro volante, manobra fundamental para a conquista do Brasileiro daquela temporada. Depois, o peso dos 37 anos e o estilo cadenciado provaram-se demais para acompanhar a intensidade de companheiros e adversários. Querido na arquibancada, Diego se tornou figura criticada nas redes sociais.

— Fiz parte do processo e sou extremamente orgulhoso disso. Cheguei em 2016 com muita disposição e saio agora com a sensação de dever cumprido, porque o maior objetivo foi conquistado, que era fazer o Flamengo mais vencedor. Eu me transformei e melhorei como pessoa e como jogador nesse processo — disse o jogador ao site ge, acostumado a conquistas desde o início avassalador na dupla com Robinho, no Santos, e do bicampeonato da Copa América com a seleção.

Parte da transformação pessoal foi narrada há dois anos pelo GLOBO, em reportagem que abordava o engajamento do meia na prevenção do suicídio. Esse esforço, ao lado da mulher Bruna Letícia, foi recompensado com o prêmio Faz Diferença, oferecido pelo jornal em parceria com a Firjan.

A tarde de adeus a Ribas marcará também a despedida de outro Diego, o Alves. O goleiro deixa o Flamengo após cinco anos e meio, sem dizer se encerrará a carreira ou buscará nova casa. Ele será titular, assim como o xará e Gabigol. Com ingressos esgotados, os torcedores verão uma série de homenagens aos dois veteranos.