O difícil equilíbrio entre ciência e política em tempos de coronavírus

Por Paul RICARD
Homem reage enquanto um profissional da saúde usa um swab nasal para coletar uma amostra para teste de COVID-19 no Quênia

Qual o peso da opinião dos cientistas nas decisões políticas? As autoridades públicas devem seguir sistematicamente os especialistas? A pandemia de COVID-19 confronta os governos com essas questões espinhosas.

"Se queremos que a COVID-19 se torne uma lembrança ruim e não um pesadelo permanente, o aconselhamento científico deve ser priorizado em todas as decisões políticas, e ponto final", comentou à AFP Sara Belich, especialista em políticas públicas de saúde na universidade americana de Harvard.

"Como cientistas, tentamos esclarecer, mas no final são os políticos que devem decidir", afirma Simon Cauchemez, especialista em modelos matemáticos e membro do comitê que aconselha as autoridades francesas.

Na prática, o equilíbrio é difícil. O debate se cristaliza principalmente em torno da questão do confinamento, que salvou vidas ao impedir o colapso dos hospitais, mas cujo custo econômico e social é terrível.

No Reino Unido, o governo de Boris Johnson foi criticado por tê-lo imposto tarde demais.

"Nós, cientistas, dissemos que deveria haver confinamento. Mas os políticos se recusaram a nos ouvir", acusou a professora Helen Ward, do Imperial College de Londres, em uma coluna publicada pelo jornal The Guardian em meados de abril.

Do lado oposto, algumas vozes começam a surgir na Alemanha contra a chanceler Angela Merkel, que defende um desconfinamento progressivo.

"Quando ouço que todas as outras considerações devem ceder à proteção da vida humana, acho que esse absolutismo não se justifica", disse recentemente o presidente da Câmara dos Deputados, Wolfgang Schauble, ao jornal Tagesspiegel.

- Governo de médicos -

Elogiada até agora por sua resposta à epidemia, Merkel presta muita atenção ao que os especialistas dizem.

"Ajuda o fato de ela própria ser uma cientista [física de formação] e é capaz de entender os números", disse ao The Guardian o virologista Christian Drosten, do hospital Charité de Berlim.

Na França, membros da oposição e intelectuais censuraram o presidente Emmanuel Macron e seu governo por se refugiarem na opinião dos cientistas.

Mas ele também foi criticado pelo contrário: decidiu reabrir gradualmente as escolas a partir de 11 de maio, quando o conselho científico da epidemia defendeu o fechamento total até setembro.

Não há "nada chocante" nessa divergência, comentou à AFP o professor Pierre-Louis Druais, clínico geral e membro do conselho científico.

"Damos orientações, mas não seria muito saudável se em uma sociedade fossem os cientistas que governassem tudo", ponderou.

"Sou contra um governo de médicos. Como amanhã, quando se tratar de trabalho, serei contra um governo de empresários", comentou, por sua vez, o médico Mathias Wargon, cuja esposa, Emmanuelle Wargon, faz parte do governo.

Segundo ele, é importante que o político decida, pois ainda existem muitas questões científicas pendentes sobre o coronavírus, que alimentam as opiniões às vezes divergentes dos especialistas.

Em outros países, também foram criadas estruturas científicas por ocasião dessa pandemia para assessorar o governo, como na Itália e na Espanha.

No Reino Unido, um órgão consultivo, o SAGE (Grupo Consultivo Científico para Emergências), foi reativado após sua intervenção em outras crises, como a epidemia de ebola em 2014.

O caso dos Estados Unidos é particular devido ao caráter do presidente Donald Trump.

Seu conselheiro científico, o renomado imunologista Anthony Fauci, teve que reorientar algumas de suas declarações esdrúxulas. E o presidente também apoiou as manifestações anti-confinamento.

Segundo um especialista americano, essas "tensões" entre políticos republicanos e cientistas estão relacionadas às eleições presidenciais de novembro, em um contexto em que o confinamento causa "perda de empregos e fechamento de empresas".

"O presidente Trump não pode controlar seus instintos políticos: do seu ponto de vista, se isso continuar, ele perderá a presidência", estima Robert Blendon, professor de política de saúde em Harvard.