As diferenças entre esses dois mapas não provam que a imprensa exagere sobre o calor na Alemanha

Usuários nas redes sociais comparam dois mapas meteorológicos de temperaturas semelhantes emitidos por um noticiário alemão, um de 2017 em verde e outro de 2022 em tons de amarelo e vermelho, para afirmar que as diferenças mostram que a imprensa exagera sobre as mudanças climáticas. O conteúdo tem sido compartilhado centenas de vezes desde 22 de julho de 2022. No entanto, a emissora explicou à AFP que em 2020 o programa passou a adotar um formato mais claro e acessível para representar a temperatura, algo já utilizado em outros espaços televisivos. Além disso, cientistas concordam que o aquecimento global é real.

“Acabou a pandemia, agora é o momento para terrorismo climático como instrumento para impor medidas totalitárias. Previsão do tempo na Alemanha em 2017 e hoje…”, lê-se em uma publicação no Twitter (1, 2, 3). O conteúdo também circula no Facebook (1, 2) e Instagram, e exibe um mapa com o território alemão em verde datado de 21 de junho de 2017, em que aparecem temperaturas entre 20 e 37 graus Celsius, ao lado de outro com temperaturas entre 19 e 32 graus em vários tons de vermelho e laranja, e datado de 21 de junho de 2022, de acordo com as publicações.

Captura de tela feita em 31 de julho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Conteúdo semelhante circulou em outros idiomas como croata, eslovaco, espanhol, inglês e finlandês durante as ondas de calor que a Europa enfrentou entre junho e julho de 2022.

A AFP já explicou em um artigo que, de acordo com o Observatório Europeu de Mídia Digital (Edmo), comparações entre mapas meteorológicos não comparáveis são frequentemente usadas nas redes sociais para desacreditar a mídia tradicional e apontá-la como geradora de medo para que "'poderes superiores' possam controlar e subjugar as pessoas”.

A AFP já verificou outros conteúdos que utilizam esse recurso sobre Espanha, Alemanha, Reino Unido e Suécia.

Mapa de 2017

A equipe de verificação da AFP detectou, a partir dos logotipos vistos nas imagens, que os mapas que aparecem nas publicações viralizadas foram transmitidos pelo Tagesthemen, um noticiário produzido pelas Organizações Públicas de Radiodifusão da República Federal da Alemanha (ARD, na sigla em alemão).

O registro verde foi feito a partir da transmissão de 21 de junho de 2017 (a partir do minuto 1:37). No vídeo, Claudia Kleinert, âncora da seção meteorológica do jornal, mostra temperaturas entre 20 e 30 graus Celsius no norte do país e 33 e 38 graus mais ao sul.

Captura de tela feita em 29 de julho de 2022 do boletim meteorológico do Tagesthemen de 21 de junho de 2017 ( . / )

Mapa de 2022

A sequência em que o mapa meteorológico aparece em tons de amarelo e vermelho também é do programa alemão. Entretanto, foi exibido na transmissão de 20 de junho de 2022 (a partir do minuto 34:33), um dia antes da data que aparece no texto sobreposto à imagem compartilhada nas redes sociais.

No vídeo, Kleinert reporta temperaturas que variam de 20 a 25 graus no norte da Alemanha e 26 a 32 graus mais ao sul. Ou seja, são inferiores aos do mapa verde de 2017.

Captura de tela tirada em 29 de julho de 2022 do boletim meteorológico Tagesthemen de 20 de junho de 2022 ( . / )

Segundos após o mapa vermelho, o boletim meteorológico mostra diferentes gráficos verdes que não são focados na temperatura, mas são previsões gerais com dados de chuva e calor.

Mapas produzidos por diferentes equipes

O gráfico da previsão do tempo do noticiário mudou nos últimos anos. No início de 2020, a rede alemã inaugurou um centro meteorológico conjunto responsável pela produção de muitos relatórios e previsões que vão ao ar nos programas da ARD, incluindo o Tagesthemen.

A operação deste centro, chamado ARD-Wetterkompetenzzentrum, foi atribuída à emissora regional Hessischer Rundfunk (HR).

Sabine Renken, porta-voz da HR, disse à AFP que até o final de 2019 as previsões meteorológicas para Tagesthemen eram feitas externamente.

"Até o final de 2019, os mapas meteorológicos do Tagesthemen eram produzidos por uma empresa meteorológica externa, a Cumulus. A agência de notícias os tirava de lá", explicou por e-mail em 27 de julho de 2022.

Renken acrescentou que "até o final de 2019, os mapas de temperatura expostos no Tagesthemen mostravam a temperatura exclusivamente em números" e "o fundo verde não tinha relação com a temperatura".

A porta-voz acrescentou que outro programa de notícias da ARD chamado Tagesschau também representa temperaturas com números e também com áreas com zonas coloridas.

Em 2019, esse programa de televisão respondeu a acusações de que havia manipulado os tons de seu mapa para exagerar os efeitos da mudança climática, argumentando que usava tons diferentes nos gráficos porque “a cor permite supor quão altas serão as temperaturas, mesmo onde não há números”.

Alarmismo ou clareza?

A HR informou à AFP em 26 de julho que, a partir de janeiro de 2020, quando o Centro de Competência Meteorológica da ARD assumiu as previsões, o layout e a apresentação dos planos foram padronizados para igualar os boletins meteorológicos do Tagesschau e do Tagesthemen.

Os mapas do Tagesschau mostram a temperatura com cores e números há mais de 30 anos, informou a HR em 27 de julho.

"Não se trata de alarmismo, mas de tornar os gráficos os mais claros possíveis e que possam ser compreendidos rapidamente", disse.

A emissora, através dos seus porta-vozes, explicou ainda que “a gama de cores vai do vermelho escuro para as temperaturas quentes ao azul para as temperaturas frias”. “A equipe editorial de clima da Hessischer Rundfunk muda a gama de cores de acordo com a estação para garantir clareza: cinco graus, portanto, é azul no verão, e amarelo ou laranja no inverno”, acrescentou.

A AFP já havia explicado em outra verificação que o Tagesschau usou durante anos dois formatos para mostrar o clima: um que utiliza tons vermelhos e foca apenas a temperatura de um determinado dia e um plano verde com uma previsão geral do tempo para os próximos dias.

Um exemplo disso é uma transmissão de junho de 1999 (começando aos 15:25 minutos) em que o vermelho foi usado para representar temperaturas entre 25 e 30 graus.

Da mesma forma, uma transmissão de julho de 2010 também mostra o uso dos diferentes mapas. À esquerda, em vermelho, está a previsão de temperatura, e à direita, uma previsão mais geral, incluindo cobertura de nuvens.

Conjunto de capturas de tela da transmissão do Tagesschau de 15 de julho de 2010, feito em 10 de junho de 2022 ( . / )

Uma revisão das transmissões do Tagesthemen mostra que o noticiário adotou um formato semelhante ao do Tagesschau em 2020 (1, 2, 3), bem como que o Tagesthemen usou representações de tempo em vermelho no verão de 2021 (1, 2, 3) .

Capturas de tela tiradas em 27 de julho de 2022 dos boletins meteorológicos do Tagesthemen transmitidos em junho (E), julho (C) e agosto (D) de 2020 ( . / )

Verões quentes e mudanças climáticas

Uma comparação das mudanças de temperatura na Europa em relação aos anos anteriores mostra que os verões naquele continente estão ficando mais quentes.

Em uma avaliação conjunta do clima do verão de 2020, os institutos meteorológicos estaduais da Alemanha, Áustria e Suíça determinaram que a estação nesses países "tornou-se muito mais quente desde a década de 1990" e que as ondas de calor são mais frequentes e prolongadas.

"O que costumava ser um verão extremamente quente agora é um verão médio", observaram.

Os cientistas concordam que as emissões de carbono da queima de combustíveis fósseis estão aquecendo o planeta, aumentando o risco e a gravidade das ondas de calor e outros eventos climáticos extremos.

O World Weather Attribution, um projeto que envolve cientistas climáticos de vários países, realizou vários estudos mostrando como as mudanças climáticas tornaram as ondas de calor cada vez mais prováveis.

Em 2021 e 2022, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicou seu sexto relatório de avaliação, em que alertou para a necessidade de implementar medidas urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa para evitar um aquecimento global catastrófico.

O relatório reflete o consenso global entre os cientistas sobre as mudanças climáticas provocadas pelo homem: “É inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra”, diz o documento.

A AFP já verificou outras peças de desinformação sobre o meio ambiente.

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