O que explica a diferença entre realidade e projeção de votos dos institutos?

A person attends to cast a vote at a polling station, during the Brazilian presidential election, at Colegio Bandeirantes in Sao Paulo, Brazil October 2, 2022. REUTERS/Mariana Greif
Foto: Mariana Greif/Reuters

Uma amiga recebeu um telefonema de um instituto de pesquisa há poucas semanas da eleição. Ela mora em um condomínio fechado, de alto padrão, e pode ser considerada uma ilha progressista cercada de pessoas conservadoras de todos os lados.

Quando desligou o telefone, ela se notou o risco que o entrevistador corria se dissesse que ali, naquela região, um enclave fortificado e recém-construído numa área antes periférica, o voto dela representasse a amostra buscada pelo entrevistador naquele bairro de novos ricos. Seria um retrato distorcido de saída, já que ela não compartilhava das mesmas preferências da maioria esmagadora dos vizinhos.

A limitação desse retrato é consequência de cidades cada vez mais cercadas por condomínios –ao menos naquela área rica do interior. Entre ela e os vizinhos desconfiados de jornais, urnas eletrônicas e institutos de pesquisa havia outra diferença: ela estava disposta a responder ao questionário num lugar onde mais de uma pessoa dizia jamais responder a pesquisas por acreditar que elas eram enviesadas –uma postura que, tomada de maneira coletiva, provoca justamente o que se critica: vieses.

Do retrato apontado pelas urnas no domingo (2/10), nada chamou mais a atenção do que a discrepância entre as intenções de voto para candidatos do campo bolsonarista apontadas pelos institutos de pesquisa (inclusive os que não fazem entrevistas por telefone, vale frisar) e o resultado final da votação.

Na véspera da eleição, Jair Bolsonaro (PL) tinha 36% e 37% das intenções de voto nas pesquisas dos dois principais institutos do país. Lula (PT) tinha 50% e 51%.

Na margem de erro, os institutos acertaram tanto a pontuação do petista quanto do pelotão de trás. Antes da votação as pesquisas apontavam a tendência de que Simone Tebet (MDB) terminaria a corrida à frente de Ciro Gomes (PDT), cujo derretimento já era captado pelos levantamentos dos dias anteriores.

Quem destoou foi Bolsonaro. Ele aparecia nas duas últimas pesquisas com uma distância de 14 pontos percentuais em relação a Lula. A diferença “real” era de 5%. Ele conseguiu 43% dos votos no primeiro turno.

Em nenhum momento da campanha as pesquisas captaram esse desempenho.

Como?

Uma explicação possível (e até aqui corrente) é que os institutos de pesquisa espelham seu campo de amostragem em dados desatualizados do último Censo. O Brasil de 2022 não é o mesmo de 2010, quando o IBGE foi a campo pela última vez mostrar quem somos, onde vivemos, do que nos alimentamos, etc.

Com esse dados desatualizados em campo, dois segmentos-chave para entender os humores dos eleitores podem estar cobertos por um grande ponto cego. Por exemplo, a população mais pobre. Um dos institutos define a população mais pobre, que ganha até dois salários mínimos, como um conjunto representado por 52% da sua amostra. Outros consideram que este contingente é bem menor.

Qual está certo? Difícil dizer. Justamente porque se trata de uma população móvel, que pode passar e retroceder a linha que define a pobreza no Brasil em espaços limitados de tempo. Num mês em que um auxílio emergencial é engordado, a linha fica para trás; quando o benefício escasseia, ela sobe.

Outro segmento que pode hoje estar subestimado nas contas dos institutos é o de eleitores evangélicos, que serão em breve a maioria da população apta a votar. Este dia talvez esteja mais perto do que supunham as projeções demográficas de institutos cada vez mais sucateados.

Numa eleição como a de domingo, em que o Brasil define quais serão os seus representantes políticos para os mais diversos cargos, é comum que as pesquisas tenham dificuldade para capturar, até a véspera, quem são os favoritos para se eleger para Senado, para a Câmara ou mesmo para o governo de seus estados.

A eleição presidencial sempre monopoliza as atenções, mas neste ano é possível dizer que elas monopolizaram ainda mais por conta da disputa do chamado voto útil –até a véspera, quem queria votar em Ciro ou Tebet ainda tinha dúvida se depositava nas urnas um voto de convicção ou exclusão. Era o assunto predominante em qualquer roda de conversa.

Para os outros cargos, não é que a escolha fica historicamente para o último dia: fica para a última hora. Ou você não recebeu nenhuma mensagem de parente ou amigo perguntando em quem poderia votar para o Senado ou a Câmara na manhã de domingo?

No caso de algumas regiões, porém, não tem escolha de última hora que justifique a diferença entre projeção e realidade nas disputas por governos estaduais. Em São Paulo, por exemplo, em nenhum momento Tarcísio de Freitas (Republicanos) apareceu à frente de Fernando Haddad (PT) nos levantamentos.

Eles foram ao segundo turno, como apontavam as pesquisas, mas em situação invertida, com o ex-ministro de Bolsonaro à frente do ex-ministro de Lula. Na última pesquisa Datafolha, Haddad tinha 39%, Tarcísio, 31% e o atual governador, Rodrigo Garcia (PSDB), 23%.

Haddad e Garcia fecharam a corrida dentro ou perto da margem apontada pelos institutos (35% e 18%, respectivamente). O que destoou foi o desempenho de Tarcísio, que recebeu 11% a mais de votos do que o levantamento projetava.

De duas, uma. Ou o fenômeno da busca pelo voto útil é um fenômeno que, na hora em que a barata começa a voar, beneficia apenas o candidato bolsonarista, ou os institutos de pesquisa não estão conseguindo acessar o eleitor destes candidatos.

Bolsonaro e companhia fizeram campanha tentado desacreditar os institutos de pesquisa, o sistema de votação eletrônica e o jornalismo profissional, não exatamente nesta ordem.

A distância entre projeção e realidade dos votos virou combustível para que essa base colocasse os levantamentos em xeque.

Bolsonaro não perdeu a chance, em seu primeiro pronunciamento após encerrada a votação, de ironizar as discrepâncias entre projeções e realidade. E de colocar atrás da orelha do eleitor uma pulga dizendo que alguém agiu de má fé.

Seu ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), pediu com todas as letras que os bolsonaristas, como castigo, não respondesse mais às pesquisas que, segundo ele, sempre projetam seus adversários à frente.

Talvez esse boicote já esteja em curso.