Diferentemente do que diz Bolsonaro, manifesto não é cartinha, é cartada, afirma economista

*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, 25.09.2019 - Luiz Gonzaga Belluzzo (economista). Lançamento do livro
*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, 25.09.2019 - Luiz Gonzaga Belluzzo (economista). Lançamento do livro

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos signatários da "Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado democrático de Direito" a ser lançada no dia 11 de agosto, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que testemunhou a apresentação de documentos semelhantes no passado, diz que a batalha pela democracia é "uma jornada longa, que a gente imagina que vai se realizar rapidamente e não se realiza".

Para ele, diferentemente do que disse Bolsonaro, o manifesto, que teve a assinatura de grandes nomes do empresariado, é cartada e não cartinha.

"Esse documento é importante do ponto de vista não só do número de signatários, que é muito grande e ainda deve angariar mais assinaturas, mas é, de outra forma, a reprodução daquelas atitudes, dos manifestos que foram escritos naquele período, que ajudaram muito. É importante na formação da convicção das pessoas", diz Belluzzo.

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PERGUNTA - Qual é o peso desse manifesto na opinião do sr.?

LUIZ GONZAGA BELLUZZO - Eu tive uma experiência de vida ao longo dos anos 1970 como assessor do doutor Ulysses [Guimarães] batalhando pelo restabelecimento da democracia, pelo fim da ditadura. É uma jornada longa, que a gente imagina que vai se realizar rapidamente e não se realiza.

Me lembro das várias manifestações. Esse manifesto, na verdade, é uma reprodução, uma revivescência do manifesto do Goffredo da Silva Telles Junior, que foi meu professor na Faculdade de Direito.

A partir de 1977, teve o "Documento dos Oito", que era do Fórum Gazeta Mercantil. Eu acho um texto bonito, que foi assinado pelos grandes empresários brasileiros na época. Eram oito empresários.

Depois, teve o "Esperança e Mudança", que é o documento do PMDB, de 1982. Por dever de ofício, eu tive participação. Eu era assessor do Fórum Gazeta Mercantil e também era do PMDB, assessor do Ulysses, com o Luciano Coutinho.

Esses documentos todos incluíram empresários importantes. O "Documento dos Oito", sobretudo, mas também o "Esperança e Mudança", que foi muito bem aceito.

E isso foi encaminhando a nossa saída da ditadura. Tudo é um processo coletivo, exige a cooperação de muita gente. E é o que estamos observando hoje. É um fenômeno que acaba se reproduzindo de outra maneira. Culminou nas Diretas Já.

Estamos observando um fenômeno parecido em outras circunstâncias. Estamos falando de um momento em que o presidente é quem está com essas aspirações autoritárias e ditatoriais, mas nós estamos ainda em uma democracia. Naquele tempo, o bicho era mais feio. Era mais difícil.

Esse documento é importante do ponto de vista não só do número de signatários, que é muito grande e ainda deve angariar mais assinaturas, mas é, de outra forma, a reprodução daquelas atitudes, dos manifestos que foram escritos naquele período, que ajudaram muito. É importante na formação da convicção das pessoas.

P - Já houve manifestos anteriores na gestão de Bolsonaro, e os ataques às urnas continuaram. O que se espera de diferente?

LGB - Isso é um processo. Isso significa que tem a sociedade civil, nas suas várias dimensões e categorias sociais, empenhada em defender a democracia. Isso é que é a diferença dos outros. Juntou todas as categorias sociais.

Tem empresário, pessoal do mercado financeiro, Febraban, Fiesp, artistas, intelectuais. É um empenho da sociedade civil brasileira, que não vai admitir que se tente uma investida contra as regras da democracia e contra o resultado das eleições.

P - O sr. diz que a lista dos signatários tem nomes de pessoas que votaram no Bolsonaro em 2018. A que o sr. atribui?

LGB - Sim. A vida social é assim mesmo. As pessoas se dão conta. Muitas pessoas das minhas relações, que votaram no Bolsonaro, agora estão dispostas a não votar mais. Não são poucos. Isso é típico da democracia. Você percebe que cometeu um erro de escolha, um equívoco.

Naquele momento, parecia a eles que o Bolsonaro seria o mais adequado para o Brasil. Só que ao longo do governo, parece que não demonstrou essa capacidade de encaminhar direito as questões da sociedade brasileira, que são muito complexas. Ele é uma pessoa que tem uma tradição de intolerância.

P - O presidente chamou o manifesto de cartinha. Como isso foi recebido?

LGB - Esse manifesto não é cartinha. Eu chamaria de cartada. E ele ainda disse que os banqueiros assinaram por causa do Pix. Eu nunca vi uma besteira tão grande. É uma bobagem, porque o Pix é muito bom para os bancos. Facilita as transações.

P - Foram muito exaltados os nomes de banqueiros, empresários, economistas. Por que é tão importante esse endosso do setor privado e da economia?

LGB - É importante porque se está despindo de uma condição particular de banqueiro, de economista, de personalidade, de celebridade. Estão se despindo disso para se juntar a um projeto coletivo de defesa da democracia.

Esse é que é o grande sentido disso. Você se despe da sua particularidade e se entrega a uma manifestação coletiva que torna todos cidadãos brasileiros. Não é o empresário A ou B. Não é o economista A ou B, o artista. É o cidadão que está se manifestando. A visão e a alma do cidadão brasileiro.

P - O sr., sendo um signatário que tem proximidade com o ex-presidente Lula, sente que alguém pode deixar de assinar por ter receio de sofrer retaliação do governo ou por achar que pode ser interpretado como um endosso a Lula, já que os dois candidatos, Lula e Bolsonaro, estão disparados na frente?

LGB - Boa parte das pessoas que assinaram não tem proximidade ao Lula. Eles superaram essa particularidade. Podem ter outros candidatos. Superaram para revelar um empenho pela democracia. Trataram isso como cidadãos. Foi isso que atraiu boa parte das pessoas.

Pode ter gente que pode, estreitamente, pensar que isso é um endosso à candidatura do Lula. Não é endosso à candidatura de ninguém. É, na verdade, uma manifestação de apreço pelas instituições democráticas.

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RAIO-X

LUIZ GONZAGA BELLUZZO

Formado em direito pela USP, o economista foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda durante o governo José Sarney. No estado de São Paulo, passou pelo cargo de secretário de Ciência e Tecnologia (1988-1990). Além de professor titular de economia da Unicamp, foi um dos fundadores da Facamp

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