Dificuldade em aprovar privatização motivou renúncia, diz presidente da Eletrobras

ANA LUIZA ALBUQUERQUE
·3 minuto de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO: Retrato do presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO: Retrato do presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Junior, afirmou nesta segunda-feira (25) que a dificuldade em aprovar a privatização da estatal no Congresso, assim como uma descrença pessoal no avanço do processo, motivou sua saída do cargo. Sua renúncia foi anunciada na noite deste domingo (24), por meio de um comunicado da companhia.

Ferreira Junior continuará à frente da empresa até o dia 5 de março. Ainda não foi definido o seu sucessor, mas ele disse, também, que há profissionais na Eletrobras capazes de assumir o cargo, como um dos cinco diretores da estatal.

A jornalistas, Ferreira Junior afirmou que a privatização da empresa é prioridade do governo federal, mas que essa vontade não é suficiente sem o apoio do Congresso. Ele apontou manifestações de candidatos à presidência da Câmara dos Deputados e do Senado que indicam que o avanço do projeto não é prioritário entre suas pautas.

"Com a reestruturação [da estatal] conclusa, o próximo projeto era exatamente a capitalização, que não pôde acontecer nos dois primeiros anos, e que não encontra, na minha avaliação pessoal, essa prioridade dos potenciais candidatos ao Congresso Nacional", disse. Ele também afirmou que não se dispôs a esperar mais, após cinco anos na companhia.

Questionado sobre o envolvimento de Jair Bolsonaro (sem partido) com a agenda de privatização da Eletrobras, Ferreira Junior disse que o presidente deixou clara a relevância do processo quando o projeto de lei foi enviado ao Congresso. O executivo afirmou, no entanto, que o reforço na mensagem é importante.

Ferreira Junior avalia que, se o projeto não for julgado rapidamente no primeiro semestre desse ano, encontrará dificuldades em ser votado no ano que vem, devido às eleições.

"A minha percepção pessoal é no sentido de que esses projetos mais complexos de privatização ainda têm um certo tabu no Brasil, em que pese todos os benefícios que a gente acompanha", disse.

Nomeado durante o governo de Michel Temer (MDB), Ferreira está à frente da Eletrobras desde julho de 2016. Defensor da privatização, ele promoveu uma forte reestruturação na empresa, reduzindo o número de funcionários e vendendo distribuidoras de energia que restavam na estatal.

Após o ministro Paulo Guedes (Economia) manifestar frustração com a agenda de privatizações, promessa de campanha do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), sua pasta divulgou em dezembro do ano passado um cronograma prevendo que o governo irá se desfazer de nove empresas federais em 2021. Entre elas, a Eletrobras.

A venda da estatal é um objetivo perseguido desde o governo Temer, mas que enfrenta forte resistência no Congresso.

A Eletrobras é responsável pela operação de cerca de um terço da capacidade de geração e metade da rede de transmissão de energia do Brasil.

Após a demissão de Ferreira, as ações da empresa operaram em forte queda nesta segunda-feira (25) nos Estados Unidos. Os papéis da Eletrobras recuaram 11,43% na Bolsa de Nova York. O mercado acionário brasileiro está fechado devido a feriado em São Paulo.

Em nota, o Ministério da Economia afirmou que a saída de Ferreira Junior não interfere no programa de desestatizações do governo.

Também em comunicado, a pasta de Minas e Energia disse que a capitalização da Eletrobras (o que resultaria na redução da participação acionária do governo) é "essencial e necessária para a recuperação de sua capacidade de investimento".