Via-sacra para conseguir teste de Covid reflete descontrole da pandemia no Brasil

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People line up at a rapid testing site during a mass testing for the coronavirus disease (COVID-19), after local cases of the Omicron variant were detected in Belo Horizonte, Brazil, January 16, 2022. REUTERS/Washington Alves
Fila para testes de Covid em Belo Horizonte, em 16 de janeiro de 2022. Foto: Washington Alves/Reuters

Minha companheira acordou com dor de garganta na sexta-feira 14.

Como tínhamos planos para o fim de semana, ligamos logo cedo para praticamente todas as farmácias da nossa cidade, no interior de São Paulo. “Estamos em falta” era a resposta recorrente.

Uma das atendentes avisou que até havia possibilidade de realizar o teste por lá, mas seria necessário esperar quatro dias. Quatro dias. O valor? Quase R$ 200.

O jeito foi ir até uma unidade de pronto atendimento e tentar a sorte.

Dúvida número um: ela deveria seguir sozinha ou acompanhada?

Para um casal com filho, a pergunta ganha dramaticidade. Vamos correr o risco da exposição? Levar alguém sem sintomas a um local de possível transmissão?

Melhor não.

Para ela, já estava difícil levantar da cama e ficar de pé. É o que acontece quando sentimos dor no corpo, mas de um tempo pra o sintoma é só o início de uma via-sacra.

Não tinha muita alternativa se não dirigir, sozinha, até o único local da cidade onde havia testes disponíveis. Chegando lá, a impressão era a de que a cidade toda tinha a mesma dúvida.

De pé, debaixo do sol, a fila não andava. Eram ainda 7h.

“Vou esperar até dez e meia. Se não, desisto”, ela me escreveu no WhatsApp, perto das 10h.

Meia hora depois, chamaram o próximo da fila.

“Agora é melhor esperar”.

Ela esperou mais uma hora.

Como numa esteira de produção industrial, quase todo mundo que entrava na sala para o teste saía de lá transformado em paciente positivado.

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A maioria chegava com uniformes das empresas. Via-se que estavam ali para ter o direito de ficar em casa por alguns dias. O resultado serviria como comprovante.

Ninguém mais liga para o trabalho, avisa que não está bem e ganha, por prevenção e confiança, o direito de se resguardar até que os sintomas desapareçam — e, com eles, as chances de transmitir a doença para o resto da equipe.

Ela foi chamada depois das 11h. Feita a testagem, preferiu aguardar o resultado ali mesmo. De pé, debaixo do sol –os sintomas eram leves, e ali só imaginava como faria alguém realmente derrubado pelo vírus da Covid ou da influenza.

Ela chegou em casa já eram 13h. O teste deu negativo, e isso mudava toda a logística da casa nos dias dali em diante, inclusive os planos de isolamento total em um dos quartos.

Já tinha acontecido uma vez, quando ainda não havia vacina e ficamos praticamente uma semana trancados, isolados dentro da mesma casa e pensando em todos os planos para não deixar uma criança de sete anos se desesperar sem a mãe.

As seis horas numa fila desorganizada, debaixo do sol, cheia de pessoas sintomáticas, em uma cidade rica e não muito distante dos grandes centros, era um retrato do descontrole da situação sanitária do Brasil. Imagina como era o contexto longe dali?

Até hoje, quase dois anos após a Organização Mundial da Saúde declarar a pandemia do coronavírus, poucas cidades adotaram programas de testagem em massa como parte do enfrentamento da crise no Brasil. Isso provoca todo tipo de distorção, inclusive estatístico.

Quantos, naquela fila, não desistiram de passar o dia sob o sol para conseguir um teste? Quantos, sem poder provar a infecção, não foram obrigados a se apresentar no dia seguinte ao trabalho –muitas vezes por meio de transporte público?

Quantas pessoas não foram infectadas em razão desse contato evitável?

No mundo pós-pandemia, tornou-se imperdoável e eticamente indefensável expor pessoas ao risco diante dos primeiros sintomas. O caso Djokovic está aí para provar: um ídolo do esporte deixou a Austrália com a imagem queimada porque se negar a se vacinar e sinalizar que não tinha preocupação alguma com as pessoas ao seu redor, além dele mesmo. É preciso ter um chip de empatia com defeito de fábrica para aplaudir.

No Brasil, se alguém quiser entender como superamos 620 mortos e voltamos a flertar com o perigo, mesmo com os anos de suposta aprendizagem com a tragédia, será necessário apontar não o dedo para as versões locais de Djokovic, mas para a ausência de coordenação e políticas públicas de testagem, monitoramento e orientação.

Segundo o Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de São Paulo, a explosão da demanda deixou mais da metade das instituições particulares (55%) sob risco de ficar sem estoque de testes nos próximos sete dias. Nove em cada dez laboratórios relatam dificuldades para repor os materiais.

O resultado, como mostrou reportagem recente da Folha de S.Paulo, é o acúmulo de problemas em série no momento de alta da ômicron.

Afinal, como enfrentar o problema se não há meios de detectá-lo?

Será que os relatos sobre explosão de casos em outros países, antes de a variante ômicron aportar por aqui, não eram sinais suficientes de que um cometa estava prestes a atingir também o país?

No país do apagão de dados, as seis horas na fila para saber se estamos ou não com Covid não é perrengue. É privilégio.

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