'Digam que a eleição foi corrompida': comissão relata pressão de Trump sobre Departamento de Justiça

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Na quinta audiência televisionada da comissão da Câmara dos EUA que investiga a invasão do Capitólio, em janeiro do ano passado, depoimentos mostraram que Donald Trump ordenou que o Departamento de Justiça afirmasse que a eleição de novembro de 2020 foi "corrompida", e que ele enfrentou uma rebelião interna quando tentou mudar o comando da pasta.

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A falsa narrativa de fraude eleitoral foi usada por Trump para incitar sua base de apoiadores nas semanas que se seguiram à votação e, para os deputados, foi elemento central no ataque ao Congresso. A invasão tentou impedir que a vitória de Joe Biden fosse certificada pelos Legislativo.

— Ele [Donald Trump] queria que o Departamento de Justiça o ajudasse a legitimar suas mentiras, que chamasse a eleição de corrompida, mesmo sem base para isso — disse, na abertura da sessão, o presidente da comissão, o deputado democrata Bennie Thompson. — Foi uma tentativa declarada de usar o Departamento de Justiça para ajudar na agenda política pessoal do presidente.

Como nas quatro audiências anteriores — e nas milhares de horas de sessões prévias, abertas e fechadas, da comissão, criada em julho de 2021 — ex-funcionários do governo Trump revelaram ações pouco éticas envolvendo o então presidente e alguns de seus aliados mais próximos.

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Em depoimento gravado, o ex-secretário de Justiça William Barr afirmou que, mesmo sem qualquer evidência de fraude na eleição, ele se viu obrigado a autorizar investigações sobre as denúncias, segundo ele, para garantir que houvesse uma transição de poder.

— Senti que a coisa responsável a fazer era me apresentar em uma posição capaz de dizer se houve ou não fraude — disse Barr, em declarações gravadas. — Por vezes penso em como a situação estaria se a posição do departamento [de Justiça] fosse de “nós não vamos analisar isso antes de Biden ser empossado”. Não estou certo de que teríamos uma transição [de poder].

Um caso central ocorreu em dezembro de 2020, quando aliados de Trump produziram o rascunho de uma carta que seria enviada a estados em que o ex-presidente tentava mudar os resultados: o texto dizia que o Departamento de Justiça estava “preocupado” com as alegações de fraude. Segundo os depoentes, tal preocupação não existia, e um advogado da Casa Branca, Eric Herschmann, afirmou que, se tal carta fosse enviada, os responsáveis estariam cometendo uma contravenção.

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Richard Donoghue, então subsecretário interino de Justiça, revelou outro pedido de Trump: em uma reunião, o presidente teria afirmado aos funcionários do Departamento de Justiça que “simplesmente digam que a eleição foi corrompida e deixem o resto comigo [Trump] e com os congressistas republicanos”.

Durante a audiência, o papel de deputados trumpistas na propagação das teorias falsas de fraude foi ressaltado, com vídeos de discursos inflamados, incluindo na véspera da invasão.

Rebelião na Justiça

O ex-presidente também tentou emplacar um de seus aliados como chefe do departamento: Jeffrey Clark, que ajudou a escrever a carta com falsidades e atuava como advogado de questões ligadas ao setor de energia. Tal movimento deixaria o Departamento de Justiça inteiramente a seu serviço, e registros do dia 3 de janeiro de 2021 já tratavam Clark como o novo secretário.

A manobra foi duramente criticada.

— Eu disse que Jeff Clark não era competente para servir como secretário de Justiça. Ele nunca foi um advogado criminalista. Jamais conduziu uma investigação criminal em sua vida. Nunca esteve à frente de um grande júri, quanto mais de um tribunal do júri — afirmou Donoghue em declarações gravadas por vídeo, se referindo a uma reunião com Trump em dezembro de 2020.

Integrantes do alto escalão da pasta ameaçaram entregar seus cargos se Clark fosse confirmado.

— O presidente disse “O que eu tenho a perder?”. E foi realmente uma boa forma de iniciar o diálogo, porque respondi a ele que “tinha muito a perder” — completou o então subsecretário de Justiça, mencionando uma conversa com Trump. — Comecei a explicar o que ele tinha a perder, o que o país tinha a perder e o que o departamento tinha a perder.

Jeffrey Rosen, que ocupou interinamente a pasta depois da saída de William Barr, em dezembro de 2020, disse que é importante que o Departamento de Justiça observe os fatos e a lei, e que seria "muito ruim" caso ocorresse algo diferente.

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Nos EUA, o chefe da pasta da Justiça, “procurador-geral” em tradução livre, é responsável por funções que, no Brasil, estão a cargo de outras instituições, como a Advocacia Geral da União (representação do Estado nos tribunais) e a Procuradoria Geral da República. Ele ainda fornece assistência legal ao presidente e chefes de órgãos do Executivo, e controla agências ligadas ao departamento, como as responsáveis por investigações criminais.

Nesta quinta-feira, agentes do Departamento de Justiça realizaram uma operação de busca e apreensão na casa de Clark, no estado da Virgínia, uma ação ligada às investigações sobre o ataque de 6 de janeiro. Não foram dados detalhes da busca, e a defesa de Clark não se pronunciou. Na audiência na Câmara, Adam Kinzinger, deputado republicano que é adversário de Trump, disse que o advogado estava disposto a fazer tudo para ajudar o ex-presidente a ficar no cargo.

— Quem é Jeffrey Clark? Um advogado ambiental sem experiência relevante para liderar o Departamento de Justiça. Sua única qualificação? Ele faria tudo que o presidente quisesse, incluindo derrubar uma eleição livre e democrática — afirmou Kinzinger.

'Muito agitado'

À comissão, Rosen disse ter sido procurado por Trump praticamente todos os dias para que abraçasse suas teorias da conspiração.

— Ele sugeriu criar um conselho especial para as fraudes. Ele pediu que eu me reunisse com seu conselheiro de campanha, o sr. [Rudolph] Giuliani. Também questionou se o Departamento de Justiça não deveria entrar com uma ação na Suprema Corte — disse Rosen. — Houve pedidos de declarações públicas e entrevistas coletivas. Em uma de suas últimas ações, veio a questão de mandar a carta para os Legislativos da Geórgia e outros estados.

Rosen mencionou um pedido do presidente para que o Departamento de Justiça confiscasse urnas usadas nos estados, uma denúncia que surgiu em outros depoimentos na comissão. Mas o então secretário de Justiça disse que não tinha autoridade para tal.

— Não vimos nada de errado nessas urnas, e disse que especialistas foram ao Departamento de Segurança Interna e também nos disseram que não havia nada errado com elas — declarou Rosen.

Segundo Donoghue, Trump ficou “muito agitado” ao ouvir essa negativa.

Nas cinco audiências realizadas até o momento, a comissão mostrou evidências de que Trump buscou ativamente mudar os resultados das eleições de 2020, tentando usar a Casa Branca e as instituições de Estado para ajudá-lo a levar adiante a narrativa falsa de fraude.

Os depoimentos revelaram manobras como a alteração de listas de eleitores no Colégio Eleitoral, pedidos de investigações sem que houvesse indícios de irregularidades e ameaças de morte. As manobras fracassaram, mas o discurso violento ecoou entre seus apoiadores, e foi determinante para a invasão do Capitólio.

De acordo com o presidente da comissão, Bennie Thompson, serão realizadas novas audiências em julho, em datas ainda a serem definidas. Inicialmente, estavam previstas seis audiências televisionadas, mas Thompson citou a necessidade de mais tempo para analisar as provas, como um documentário com imagens inéditas de Trump e sua família, documentos oficiais e para seguir novas linhas de investigação.

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