Em Paris, Dilma alfineta Bolsonaro: 'Ele não tem chip de moderação'

Dilma Rousseff participa de uma série de eventos na França (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Dilma participou de evento chamado “O Brasil ainda é o país do futuro?”

  • Ex-presidente disse ainda que Bolsonaro é “misógino” e “tosco”

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) citou os fatores que levaram ao seu impeachment e à eleição de Jair Bolsonaro (PSL). E comentou, diante do auditório lotado durante palestra na Universidade de Sorbonne, em Paris: “O problema é que Bolsonaro não tem chip de moderação.”

Dilma participa de uma série de eventos na França nesta semana. A viagem acontece em meio à crise diplomática entre Brasil e França, desencadeada pelo aumento do desmatamento e o número recorde de queimadas na Amazônia.

A tensão entre os dois países aumentou quando um dos seguidores de Bolsonaro nas redes sociais postou uma imagem comparando a aparência das primeiras-damas brasileira e francesa. O perfil oficial do presidente do Brasil comentou: “não humilha cara. kkkkkk”.

Na palestra, a petista classificou o presidente como “neofascista”. E fez referência ao comentário sobre Brigitte Macron, dizendo que Bolsonaro é “misógino” e “tosco”:

“Ele é neo porque ele não é nacionalista, ele bate continência para os Estados Unidos. Quando o neofascismo se junta com o neoliberalismo, é fundamental que o aspecto democrático seja ressaltado, porque é ele que cria a contradição. Porque eles [os apoiadores de Bolsonaro] passam a ter incômodo com o fato de ele ser tosco, com o fato de ele ser misógino.”

Dilma também lembrou os participantes da palestra das vezes em que o presidente do Brasil defendeu a tortura e o assassinato político. Recentemente, Bolsonaro fez piada com Michelle Bachelet, Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos e ex-presidente do Chile, cujo pai se opôs ao golpe que instaurou a ditadura no país. A própria ex-presidente do Brasil foi vítima de tortura durante o regime militar, situação também ironizada por Bolsonaro.

Ela chamou a elite brasileira de “golpista” e listou fatores que, em sua análise, possibilitaram a ascensão de Bolsonaro:

“O golpe de 2016, a prisão do Lula e a destruição dos partidos de centro e de direita. Tudo isso com o apoio da mídia, das Forças Armadas, do mercado e de setores políticos, que achavam que seria possível controlá-lo.”

O evento de terça-feira se chamava “O Brasil ainda é o país do futuro?”, e foi organizado pela Sorbonne em parceria com outras universidades francesas e com a Rede Europeia pela Democracia no Brasil (RED.Br). A moderação foi feita por Olivier Compagnon, professor do Instituto de Altos Estudos em América Latina.

Antes do debate, os participantes assistiram ao documentário “Encantado, o Brasil desencantado”, do cineasta brasileiro radicado em Paris, Filipe Galvón. Dilma é uma das entrevistadas da obra.

A filósofa Márcia Tiburi estava presente no evento e, à RFI, comentou o episódio em que o ex-presidente Michel Temer (MDB) chamou o impeachment de Dilma de “golpe”:

“Neste momento o Brasil pode acordar ouvindo o que o Michel Temer falou. Como golpista que ele foi, ter dito que foi um golpe é algo revelador. A revelação do que todo mundo já conhecia e é importantíssimo hoje ouvir Dilma Rousseff falando após esta declaração do pivô do golpe que a depôs.”