Milionário comunista vê Putin como patriota, mas quer sucedê-lo no poder

Ignacio Ortega.

Moscou, 16 mar (EFE).- Você pode ser milionário e comunista? Pavel Grudinin, candidato à presidência da Rússia pelo Partido Comunista, acredita que sim. Ele recebeu uma cooperativa agrícola e a transformou em uma das empresas mais rentáveis do país.

"Não inventamos nada. Lenin nunca disse que a propriedade estatal dos meios de produção fosse um dogma. Olhe para a China, está em mãos privadas", disse Grudinin, durante reunião com a imprensa estrangeira.

Grudinin, de 57 anos, rompe os moldes do típico líder comunista, já que é stalinista e crente ortodoxo, um firme defensor da ditadura do lucro e da justiça social, além do investimento em escolas e hospitais.

"Fui batizado em uma igreja construída por Ivan, o Terrível", afirmou, orgulhoso, lembrando que Stalin assinou a paz com a Igreja em 1943.

Mais que um partidário do comunismo, Grudinin é do estilo do sueco Olof Palme, para quem a luta de classes não tem como objetivo punir os ricos, mas funcionários parasitas e oligarcas corruptos.

Dizem que ele construiu nos arredores de Moscou uma "ilha de socialismo" em torno do Lenin Sovkhoz, uma antiga fazenda coletiva soviética cujos lucros atuais permitiram a construção de uma policlínica, creche e escola com os últimos avanços tecnológicos, assim como uma igreja.

Além disso, Grudinin sequer é membro do Partido Comunista, cujo líder histórico, Gennady Zyuganov, foi colocado de lado para que a legenda apoiasse o empresário.

No final de dezembro, o "rei dos morangos", como Grudinin também é conhecido, tinha 45% das intenções de voto, segundo algumas pesquisas, e foi alvo de uma campanha de assédio por parte dos veículos de imprensa estatais.

Por outro lado, ele foi eleito representante do próprio presidente russo, Vladimir Putin, quando apareceu pela primeira vez no Kremlin, em março de 2000.

Grudinin também foi membro do partido do Kremlin, o Rússia Unida, mas o enfrentou em várias ocasiões até que, por fim, deixou a legenda, a qual acusa de fomentar a corrupção na administração pública.

O candidato construiu fama à frente do Lenin Sovkhoz, uma cooperativa que transformou em uma grande empresa da qual é o diretor - cargo que herdou do pai, segundo seus críticos - e principal acionista. De certa forma, tem semelhança com o do presidente de Belarus, Aleksandr Lukashenko, que chegou à política após ter sucesso em um kolkhoz (cooperativa agrícola) e com quem compartilha sua admiração por Stalin.

"Stalin é o maior líder russo do século XX. Sem ele, perderíamos a guerra contra a Alemanha. Graças a Stalin, a URSS foi o melhor país do mundo", comentou.

Durante dez anos (2001-2011), Grudinin foi deputado na Duma pela região de Moscou, mas desde sua ruptura com o Rússia Unida todos as tentativas de retornar à vida pública terminaram em fracasso, o último deles em 2016, por supostas críticas à imigração estrangeira.

Desta vez, a máquina de propaganda do Kremlin se virou com fúria contra o candidato comunista como ocorreu na campanha presidencial de 1996, quando Zyuganov liderava as pesquisas, mas o Kremlin conseguiu que Boris Yeltsin fosse reeleito com o apoio do condecorado general soviético Aleksandr Lebed.

"A ameaça vermelha" foi mais uma vez utilizada como argumento para desprestigiar o candidato comunista, embora nesta ocasião a arma utilizada não tenha sido a ideológica.

Primeiro a imprensa russa o acusou de ter propriedades no exterior, mais precisamente na Espanha, embora tenha alegado que eram de seus filhos. Depois, que tinha contas no exterior - que ele afirmou ter fechado - e de enganar vários acionistas, casos com os quais os tribunais têm lidado há anos.

Durante a campanha, ele economizou as críticas contra Putin, a quem considera um "patriota", embora o culpe pela má gestão do governo, mas negou que seja um projeto do Kremlin, como afirmam os liberais.

Grudinin também condena os subsídios multimilionários para a Chechênia e a Copa do Mundo, já que considera que primeiro é preciso satisfazer as necessidades básicas da população, embora apoie a causa separatista dos cidadãos pró-Rússia de Donetsk e Lugansk, e a anexação da Crimeia. EFE