Em recado a Lula, Campos Neto diz que inflação depende do fiscal e população sofre com desequilíbrio

Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fala perto do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao deixar Palácio do Alvorada em Brasília

Por Bernardo Caram

BRASÍLIA (Reuters) - A dinâmica inflacionária no Brasil depende das definições do governo sobre o arcabouço fiscal, disse nesta sexta-feira o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ressaltando que o mercado está sensível ao debate sobre as contas públicas.

Em discurso fortemente focado na questão fiscal e com recados ao governo eleito, Campos Neto afirmou que o Brasil registrou uma piora recente na percepção sobre quando a redução nas taxas de juros será iniciada, acrescentando que esse movimento ocorreu “muito devido à percepção sobre qual será o novo arcabouço fiscal”.

Ele disse ainda que a autonomia do Banco Central passará por um "teste importante" com a primeira transição política após a aprovação da nova lei, mas frisou que a autarquia é um órgão técnico e vai cooperar com o governo eleito.

"A gente vê uma dinâmica positiva (da inflação) na margem que precisa ser confirmada. Obviamente, vai depender muito de expectativa, vai depender muito de qual vai ser o plano fiscal, qual vai ser o arcabouço fiscal à frente", disse Campos Neto durante palestra na associação de finanças CFA Society Brazil.

O presidente do BC afirmou que é necessário “ter um olho" para o social, mas também para o equilíbrio fiscal, sem o qual há ampliação das incertezas e “quem sofre é a população que você quer ajudar”.

"Se não tiver equilíbrio fiscal e começar a afetar as outras variáveis, vai achar que fazendo um gasto adicional muito maior vai ajudar a sua causa de gerar emprego e atender a população carente, mas na realidade pode estar tendo efeito oposto", afirmou.

"Se você desorganiza o mercado, diminui investimento, gera instabilidade, acaba gerando desemprego. Essa equação que o governo tem que resolver, e o Banco Central vai trabalhar junto."

O mercado teve forte reação negativa na quinta-feira após o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva afirmar que gastos públicos têm que ser considerados investimentos e voltar a criticar a regra do teto de gastos, com o dólar disparando mais de 4% no fechamento do dia, enquanto o Ibovespa caiu 3,61%.

Em sua apresentação, Campos Neto disse que o movimento observado no mercado doméstico foi uma demonstração clara da sensibilidade em relação ao fiscal, ressaltando que isso tem ocorrido globalmente. Ele ponderou que é normal a existência de ruídos em momentos de transição de governo.

"Não sei se foi (um) momento Liz Truss, mas acho que foi na verdade um momento onde a gente na verdade tem demonstração clara da sensibilidade dos mercados, não só no Brasil, outros países também passaram por isso, em relação ao fiscal", disse Campos Neto, fazendo referência à ex-primeira-ministra britânica que enfrentou forte reação negativa dos mercados globais a seu programa econômico, visto como fiscalmente insustentável.

Campos Neto também disse que “o problema" foi que durante a campanha foram feitas promessas pelos candidatos, mas agora o mercado começa a entender que parte dos programas que seriam temporários acabaram se estendendo.

AUTONOMIA DO BC

Perguntado sobre eventual existência de risco de a autonomia do BC ser alterada, Campos Neto disse que a regra teve apoio do Congresso e do Judiciário, argumentando ser importante permanecer na presidência do órgão por mais dois anos para mostrar que o mecanismo funciona.

"Mas o Banco Central é técnico, vai trabalhar com o novo governo, vai tentar cooperar no máximo que for possível", afirmou.

O presidente do BC disse ainda que tem conversado com o economista Persio Arida, membro do grupo de transição de governo. Ele afirmou que a autoridade monetária está aberta a participar dos trabalhos, "entendendo que a gente não faz fiscal".