Dinamite e o Vasco: em 52 anos, Roberto viveu eras de jogador, dirigente e ídolo

Nos últimos 52 anos, ninguém viveu mais o Club de Regatas Vasco da Gama do que Roberto Dinamite. De craque nos campos a presidente de altos e baixos, numa história que termina com reconhecimento merecido em meio a um momento de esperança vivido pelo cruz-maltino, o maior nome que já passou por São Januário encerra seu legado como personagem central de três eras que perpassam quase metade dos 124 anos de existência do clube.

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Na primeira delas, os vitoriosos anos 1970 e 1980, foi a luz no fim do túnel de um Vasco que viveu uma década de 1960 complicada, combalido por dívidas e problemas administrativos após décadas de sucesso no Brasil e no exterior. O cruz-maltino dos Camisas Negras e do Expresso da Vitória entrava na era dos Brasileiros sem grandes perspectivas, até o “garoto-dinamite” mudar o jogo. Explodiu em em 1971 e de temporada em temporada, ampliava sua lenda até viver a consagração máxima: o título brasileiro de 1974, inédito para o clube, ano em que foi artilheiro da edição com 16 gols, atuando ao lado de nomes como Andrada, Alcir Portela e Jorginho Carvoeiro.

Aquelas décadas também ficaram marcadas por numerosos confrontos com Zico, craque do Flamengo. Nos anos de rivalidade, Roberto venceu quatro Cariocas, em 1977, 1982, 1987 e 1988 — ainda conquistaria mais um em 1992, já na reta final da carreira. Foi seu nome que ajudou a eternizar os do Vasco e do futebol carioca no imaginário popular num momento em que o campeonato estadual do Rio vivia uma explosão de sucesso competitivo e abrangência nacional, consolidando o gigantismo e a paixão da torcida cruz-maltina no país.

Desgaste na política

Dinamite sairia de cena em campo e migraria pouco a pouco ao cenário da política vascaína. Foi a segunda era que protagonizou na Colina, e também a que mais desgastou sua imagem.

Em 2002, chegou a ser expulso da tribuna de honra de São Januário por ordem de Eurico Miranda, que cumpria seu primeiro mandato como presidente, num longo reinado com plenos poderes em São Januário. Foi o ídolo que conseguiu derrubar Eurico da cadeira presidencial em 2008, após eleição (de 2006) refeita por ordem judicial.

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— Sinto no Conselho uma vontade de mudança muito grande — disse, em sua eleição, contrapondo palavras de Miranda na época do episódio da tribuna.

O imponderável nunca segurou Dinamite e a idolatria dos vascaínos, mas o cruel cenário da política e a dramática situação financeira vivida pelo clube, sim. Em dois mandatos, Dinamite viu o Vasco ser rebaixado duas vezes (2008 e 2013), embora tenha registrado a inédita conquista da Copa do Brasil e um vice-campeonato Brasileiro em 2011, o melhor momento de sua gestão. Sob pressão interna e uma insustentável situação nas finanças ainda viu Eurico, que comandava a oposição, retornar.

Depois de anos de afastamento, a imagem do maior ídolo começou a ser reformada em São Januário. A memória de Roberto como dirigente começou a ficar para trás, dando espaço para a do maior artilheiro do clube, que nunca perdera o carinho da maior parte da torcida.

Estátua e homenagens

Em abril do ano passado, ganhou a maior das homenagens com uma estátua no gramado de São Januário. No seu último evento público na Colina, inaugurou o monumento que eterniza sua comemoração icônica, de frente para a torcida, num momento em que os vascaínos voltam a crer em um futuro de glórias após a venda de sua SAF.

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"O meu desejo é ver novamente o Vasco forte, campeão", disse à época.

Dinamite parte em paz com a instituição que agigantou e sob a admiração de milhões. E com a possibilidade de ver seu desejo ser realizado nos próximos anos. A sua terceira e última era na Colina é a do ídolo eterno.