Dinheiro público participaria de 90% do desmatamento da Amazônia

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Na última década, o setor pecuário recebeu de volta quase 80% de tudo que pagou em impostos. Foram em média R$ 12,3 bilhões ao ano em subsídios (CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)
Na última década, o setor pecuário recebeu de volta quase 80% de tudo que pagou em impostos. Foram em média R$ 12,3 bilhões ao ano em subsídios (CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)

Cerca de 90% de toda a Amazônia que foi desmatada se tornou pasto. Isso significa que mais de 656 mil km2 de floresta foram derrubadas - quase duas Alemanhas - para alimentar os rebanhos de gado que avançam sobre o bioma. Metade desse avanço ocorreu nos últimos 20 anos, segundo dados do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) e do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)

Os dados do relatório do órgão não governamental mostram que os rebanhos vêm aumentando progressivamente em áreas da floresta amazônica desde 1974, enquanto no resto do Brasil os rebanhos estão relativamente estáveis desde a década de 1990. Já são 89 milhões de animais ocupando áreas que antes eram florestas, ou 42% do total do Brasil. A Amazônia Legal foi responsável por 93% do crescimento do rebanho brasileiro entre 1990 e 2019.

Dados do Instituto Escolhas mostram a gravidade do avanço: enquanto no resto do Brasil são gerados, em média, 23kg de CO2 para cada quilo de carne bovina produzida, na Amazônia esse número é seis vezes maior, fruto do desmatamento e das queimadas utilizadas para limpeza do terreno após a derrubada da floresta. Em Estados como Amazonas e Roraima, essa emissão passa de 700km de CO2 por quilo de carne.

Segundo consultorias especializadas, entre 1990 e 2016, 1,3 hectare de pastos foi perdido nas fazendas para cada novo hectare desmatado. Isso significa que para muitos fazendeiros é mais vantajoso desmatar do que renovar pastos degradados.

(CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)
(CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, vem nos últimos anos defendendo a manutenção da floresta em pé, e que para aumentar a produção de carne não é necessário desmatar. “Não precisamos desmatar para comer, basta aumentar a produtividade”, disse Tereza Cristina à Folha em janeiro deste ano.

Diante disso, a ONG Instituto Escolhas critica a concessão de subsídios públicos sem avaliação de crimes ambientais e lançou nesta quarta-feira, dia nacional da Pecuária, uma campanha visando a desmonetização de pecuaristas com ficha suja junto ao Ibama e órgãos ambientais.

Na última década, o setor pecuário recebeu de volta quase 80% de tudo que pagou em impostos. Foram em média R$ 12,3 bilhões ao ano em subsídios - entre crédito bancário, subsídios diretos e seguro rural - contra uma arrecadação de R$ 15,1 bilhões. Relatório do coletivo internacional Forest and Finance mostrou em agosto do ano passado que o Banco do Brasil é o maior financiador de empresas de commodities com risco de desmatamento no Brasil, somando U$ 30 bilhões em financiamentos, muito devido ao seu papel como o maior operador do Crédito Rural.

Diretor Executivo do Instituto Escolhas, Sérgio Leitão afirma que o dinheiro público deve incentivar aumento da produtividade e recuperação de áreas já desmatadas. “O governo deve fazer a sua parte sendo coerente com o discurso da ministra e negar financiamento para quem desmata. Para ele, há bons exemplos na pecuária porque já tem gente produzindo direito, usando áreas que já foram desmatadas e aumentando a produção com respeito ao meio ambiente. E finaliza: "O que o Brasil precisa é garantir que esse produtor, principalmente o pequeno, é quem vai receber dinheiro público para produzir”.

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