Diplomacia da vacina e economia viram armas dos EUA e aliados contra China

IGOR GIELOW
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A geopolítica da vacina contra a Covid-19 e a cooperação tecnológica entraram no arsenal usado pelos Estados Unidos e seus aliados no entorno da China como forma de conter a expansão de Pequim, embora o componente central da estratégia siga sendo militar. "Um Indo-Pacífico livre e aberto é essencial para cada um dos nossos futuros", ressaltou o presidente Joe Biden em encontro virtual com os premiês Narendra Modi (Índia), Yushihide Suga (Japão) e Scott Morrisson (Austrália). É a primeira reunião de chefes de Estado do Quad, abreviação para Diálogo de Segurança Quadrilateral. O grupo começou a tomar forma após o tsunami que varreu o oceano Índico em 2004. Instalado em 2007, ele desapareceu e foi trazido à vida por Donald Trump dez anos depois, como parte de sua Guerra Fria 2.0 contra a China. A fala de Biden antecipa a reunião entre os chefes da diplomacia americana e chinesa, que ocorrerá dia 18 no Alasca, para iniciar o contato direto entre as duas potências dominantes do século 21 até aqui. Por "Indo-Pacífico livre e aberto" deve-se entender a manutenção do caráter internacional de rotas comerciais usadas pela China nos mares a seu redor, sua obsessão estratégica. Os EUA fazem isso rotineiramente ao conduzir exercícios militares e navegação em áreas que os chineses consideram suas. Mas o encontro foi além. A Índia, que no ano passado teve um coque fronteiriço coma China em região disputada no Himalaia que deixou dezenas de soldados mortos, pediu para que o grupo financiasse a produção de vacinas com tecnologia americana em seu território. No caso, os fármacos da Janssen e da Novavax. Nova Déli fabrica vacinas da AstraZeneca sob licença e tem a Covaxin desenvolvida em seu território, e vem disputando com China e Rússia a primazia da diplomacia da vacina --ou seja, fornecimento por contratos ou doação a países desassistidos pelo mundo rico, focado na imunização de sua população. Não foi dado nenhum detalhe sobre a iniciativa, o que levanta suspeitas sobre sua exequibilidade. As empresas americanas resistem a transferir tecnologia para os indianos, temendo pirataria e competição. Seja como for, a promessa ventilada seria a de aumentar o fornecimento de imunizantes para o Sudeste Asiático, quintal geopolítico da China. Cabe ressaltar que os EUA, que vêm acumulando estoques de vacinas e são criticados na Europa por isso, não falaram em distribuir suas doses na região. Houve também promessas de distribuição de cooperação maior em tecnologia, notadamente o 5G que opõe a chinesa Huawei a fabricantes ocidentais, e de criação a alternativas às cadeias produtivas que dependem da China. "Quando governos se reúnem no mais alto escalão, isso mostra um novo nível de cooperação para criar uma nova âncora para paz e estabilidade", afirmou Morrisson a repórteres. A Austrália tem tido desavenças em série com os chineses durante a pandemia do novo coronavírus, acerca do manejo sanitário e de questões comerciais. Suga, que assumiu no ano passado e já afirmou que quer um Quad forte, ressaltou o a ideia de "Indo-Pacífico livre e aberto". O Japão tem lidado com uma maior militarização nos últimos anos, muito por suspeita do comprometimento dos EUA com sua defesa. Biden sinaliza uma política de aproximação com seus aliados mais organizada do que a proposta por Trump. Em algumas reuniões anteriores, o grupo já estabelecera uma retórica mais militarista. A China tomou nota, e autoridades passaram a chamá-lo de "mini-Otan", em referência à aliança criada em 1949 pelo Ocidente para fazer frente à União Soviética e, hoje, à Rússia. É um claro exagero, dado que não há nada parecido com a integração militar na Europa no Indo-Pacífico. Mas passos foram tomados, como a entrada da Austrália no regime de exercícios navais anuais de EUA, Índia e Japão. O recado é claro, neste caso: Pequim precisa conter sua assertividade regional, a começar pela militarização do mar do Sul da China que considera seu, e o instrumento para coibi-la é a ameaça a suas rotas marítimas. Os chineses têm investido pesadamente em sua Marinha, mas estão muito distantes das capacidades americanas --e também dos outros membros do Quad, que formam geograficamente um cerco às saídas de Pequim para o mundo. No curto prazo, poucos veem risco real de guerra entre EUA e China, mas a dinâmica da ascensão asiática ante o poderio estabelecido por Washington historicamente gera conflitos. E há riscos de acidentes, claro, e movimentos como a reativação da Primeira Frota americana, no Índico, aumentam a desconfiança. Para reforçar sua posição, antes do encontro do Alasca o secretário de Estado americano, Antony Blinken, irá visitar o Japão e a Coreia do Sul --que não faz parte do Quad, mas é um dos entrepostos militares mais importantes dos EUA no exterior. A China apresentou seu termos de engajamento com os EUA durante a semana, quando houve a reunião anual de seu Congresso. Apesar de acertar a reunião no Alasca, acusou os americanos de desestabilizar o mundo em nome da promoção da democracia. Também foi clara em dizer que não aceitará interferência no que considera assunto interno, como a repressão ao movimento democrático em Hong Kong ou o trato da minoria muçulmana uigur, o que os EUA chamam de genocídio.