Direções opostas: enquanto número de mortes por coronavírus sobe, isolamento cai em cinco bairros do Rio

Rafael Galdo
Pessoas circulam pelo calçadão de Campo Grande

RIO - Apenas cinco bairros concentram 21,5% (87) das 405 mortes causadas pelo coronavírus no Rio, de acordo com um boletim divulgado nesta segunda-feira pela prefeitura. Mas, apesar de estarem no topo do dramático ranking oficial de óbitos, num cenário de quase colapso da rede hospitalar, Copacabana, Campo Grande, Tijuca, Realengo e Bangu têm registrado afrouxamento no isolamento social, como revelam dados do Centro de Operações Rio (COR) levantados em parceria com a operadora de telefonia TIM.

Enquanto a curva do número de mortes provocadas pela Covid-19 não para subir, nos picos de aglomeração dos cinco bairros havia, se somadas, 27.200 pessoas circulando anteontem, 118% a mais que no domingo anterior (12.440), levando em conta apenas os usuários da operadora. A quantidade de gente se deslocando aumentou nesses locais seguindo uma tendência geral da cidade, como apontam também outras metodologias para aferir a efetividade da recomendação de isolamento social para quem pode ficar em casa.

Só em Copacabana, bairro com maior número de mortos até agora, 23 no total, no momento de maior aglomeração anteontem, de acordo com o COR, havia 1.200 pessoas nas ruas, 61% a mais que as 743 do auge do domingo anterior. Na manhã desta segunda, esse cenário se repetia. Calçadas de vias internas do bairro estavam tomadas de pedestres, numa movimentação parecida com a que se via na orla. Na Rua Barata Ribeiro, os pontos de ônibus estavam cheios, com muitos idosos, grupo de risco para a Covid-19.

— É um absurdo. O isolamento social é a única medida eficaz para conter o avanço do coronavírus. Nas próximas duas a três semanas, devemos ter um aumento do número de mortos, com os leitos dos hospitais perto de um esgotamento. As pessoas precisam entender que não se pode relaxar agora — alerta o infectologista Alberto Chebabo.

Campo grande preocupa

Em toda a cidade do Rio, segundo números da prefeitura, até esta segunda-feira já eram 5.261 casos de coronavírus, 763 a mais que os informados um dia antes, um recorde na série histórica. Já os mortos, que chegaram a 405, foram 23 a mais do que se contabilizava no domingo. Depois de Copacabana, Campo Grande, na Zona Oeste, é o segundo bairro com mais óbitos: 20 vítimas. E a região é a que enfrenta o panorama mais alarmante quando o assunto é isolamento social.

Importante centro comercial da Zona Oeste, o bairro mais populoso da cidade, com mais de 328 mil moradores, chegou a registrar um extremo de aglomeração de 16.200 pessoas anteontem — quatro vezes mais que as 3.200 no pico do domingo retrasado, segundo o COR. É como se quase toda a população de um município do tamanho de Porto Real, no Sul Fluminense, saísse às ruas ao mesmo tempo.

De acordo com os números da prefeitura, Campo Grande foi o bairro com mais gente aglomerada neste último domingo, seguido pela Rocinha (5.900), na Zona Sul. No bairro, agentes da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) chegaram a ter de interromper uma partida de futebol e fechar um bar próximo ao campo onde acontecia o jogo. Nesta segunda-feira, até as 13h40m, já havia, de novo, outro amontoado de gente fora de casa: 8.921 pessoas num único horário.

Na Rua Aurélio Figueiredo, uma agência bancária chegou a colocar na calçada placas indicando filas para atendimento nos guichês, nos caixas eletrônicos e na gerência. Era tanto movimento, porém, que a medida não evitou cenas que desafiavam o distanciamento social.

Enquanto isso, as vítimas da pandemia vêm avançando na Zona Oeste. Até 31 de março, Campo Grande, por exemplo, tinha um número reduzido de casos e mortes em relação a bairros da Zona Sul. Eram sete registros confirmados de Covid-19, sendo que apenas um resultou em morte. Entre os dias 1º e 13 de abril, houve um salto no bairro: foram mais 66 doentes, dos quais 14 morreram. No boletim de ontem, a região já somava 144 casos.

Em Realengo, quarto em número de óbitos até agora (15), o domingo passado, segundo os dados do COR, teve um pico de quatro mil pessoas nas ruas. Na vizinhança, Bangu, com 13 mortes confirmadas, registrou 4.500.

Copacabana, Campo Grande, Realengo e Bangu, assim como a Tijuca (terceiro em número de mortes, com 16 casos), também aparecem na lista dos dez bairros com mais reclamações no Disk-Aglomeração, criado pela prefeitura. Até ontem, a central tinha recebido 3.421 chamados em toda a cidade.

Enquanto isso, reforçando a recomendação de especialistas, o prefeito Marcelo Crivella ressaltou num vídeo divulgado ontem que o uso de máscaras não é um passaporte para que as pessoas saiam às ruas.

— Evitem a todo custo a aglomeração. A máscara não é um passaporte para a gente sair de casa — disse ele. — Estamos num momento delicado porque crescem os números de infectados, de internações em UTI e óbitos. Então, é muito importante que as pessoas fiquem em casa. Aquele decreto da máscara é para a proteção das pessoas que têm que sair por necessidade especial ou porque estão trabalhando em atividades essenciais da nossa economia — reiterou.

A orientação é parecida com a de Chebabo, que afirma que a máscara é apenas uma medida auxiliar:

— As pessoas estão confundindo o uso da máscara. Acham que, com ela, já podem ir ao mercado tranquilamente, passear... Não é assim. Elas devem ser usadas por quem precisa fazer uma atividade essencial na rua. As de tecido e sem filtro, por exemplo, protegem por, no máximo, alguns minutos. Têm um nível de proteção baixo, que diminui ainda mais conforme são lavadas, porque o pano esgarça — afirma o médico.

Ele ressalta ainda que a população não pode descuidar de outras medidas, como lavar as mãos e fazer o uso do álcool em gel.