Direita cristã dos EUA se prepara para grande vitória sobre o aborto

Manifestantes em Nova York exibem cartazes com os rostos dos conservadores da Suprema Corte (AFP/Bryan R. Smith) (Bryan R. Smith)

Uma eventual supressão do direito ao aborto, como indica um rascunho da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos vazado pela imprensa, representaria uma vitória para a direita religiosa após uma batalha de cinco décadas para incluir sua agenda na vida política do país.

No centro da "guerra cultural" sobre o feminismo, o racismo, o laicismo e os direitos LGBTQ, a campanha deslanchou quando os católicos conservadores e os protestantes evangélicos se uniram após o histórico caso Roe vs. Wade de 1973, que garantiu o direito ao aborto.

A aliança, inicialmente fraca diante do movimento social progressista, se converteu em uma gigante da política local e nacional nas décadas seguintes.

"Roe vs. Wade foi decidida há 50 anos, a direita respondeu e lançou de imediato uma massiva reação", disse Katherine Franke, professora de direito na Universidade de Columbia.

- Prova de fogo -

Russell Moore, um veterano ativista cristão evangélico e teólogo do Christianity Today, lembra que o aborto não era um tema político partidário na década de 1970.

Na época, "muitos partidários de Roe assumiram que o movimento 'pró-vida' simplesmente desapareceria", acrescentou.

Católicos e evangélicos criaram grupos de resistência como o "Maioria Moral" e "Conselho de Investigação Familiar" que divulgaram sua mensagem em igrejas de todo o país.

Muitos financiaram candidatos a cargos políticos que defendiam o "direito à vida", como ficou conhecido o movimento contra o aborto que foi constantemente ampliando seu poder.

Quando Ronald Reagan chegou à presidência em 1981, o aborto já era considerado um tema central da política conservadora e uma prova de fogo para qualquer candidato republicano.

- Objetivo a longo prazo -

Os ativistas contra o aborto solidificaram assim sua força em Washington com o objetivo a longo prazo de ter seus próprios juízes na Suprema Corte.

"Desde o princípio, eles entenderam que o tema deveria ser tratado a partir do Poder Judiciário", disse Moore.

Essencial para estes esforços foi Leonard Leo, um ex-secretário do juiz mais conservador da corte, Clarence Thomas, e figura antiaborto da corrente Opus Dei da Igreja Católica.

Segundo o Washington Post, na década de 2000, Leo teve grande influência na administração do presidente George W. Bush.

Em especial, liderou as campanhas para promover dos nomeações feitas por Bush à Suprema Corte: Samuel Alito (autor do resumo vazado) e John Roberts, presidente do alto tribunal, que supostamente apoia os três liberais da corte contrários a revogar a Roe vs. Wade.

Um contato-chave de Leo na Casa Branca de Bush foi Brett Kavanaugh, atualmente um dos cincos juízes que, segundo as reportagens, apoia a opinião de Alito.

- Vitória com Trump -

As pesquisas sempre mostraram que uma maioria significativa de americanos apoia o direito à interrupção voluntária da gravidez.

Mas em 2016, o movimento contra o aborto já era suficientemente poderoso para impulsionar a campanha presidencial de Donald Trump.

Sem ser particularmente religioso ou contrário ao aborto, Trump cortejou ativamente os líderes evangélicos e passou a condenar o procedimento.

Ele elegeu como vice o evangélico Mike Pence e anunciou uma "lista estrita" de nomeações para as vagas da Suprema Corte; proporcionada por Leo.

Na eleição de 2016, quase 80% dos evangélicos apoiaram Trump.

A recompensa foi clara: o magnata indicou três conservadores para o tribunal de nove membros, com o respaldo de Leo e sua rede.

O alto tribunal tem prazo até 30 de junho para se pronunciar.

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