Direita nacionalista alemã racha um dia após êxito nas urnas

Por Isabelle LE PAGE
A ex-presidente da AfD, Frauke Petry

Um dia depois do espetacular resultado nas eleições legislativas, o partido da direita nacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD) exibiu suas divisões internas, dando uma amostra do que serão os debates no Bundestag, em um país acostumado ao consenso.

A copresidente do partido, Frauke Petry, surpreendeu nesta segunda-feira (25), ao anunciar, diante do olhar incrédulo das demais lideranças do partido que a acompanhavam, que havia decidido não ocupar sua cadeira na bancada parlamentar. Depois de comunicar a notícia, levantou-se e deixou a sala.

Ela não disse se será a única a renunciar, ou se levará com ela parte dos 90 deputados da AfD que entrarão no Bundestag, depois de a sigla ter terminado em terceiro lugar nas eleições legislativas de domingo (24), com 12,6% dos votos.

Outra líder do partido, Alice Weidel, exigiu sua saída imediata para que "não cause mais danos" à AfD.

A tensão era palpável nas últimas semanas. Petry já havia criticado as palavras de outro importante puxador de votos da legenda, Alexander Gauland, de 76 anos. Segundo ele, os alemães têm o direito de "estarem orgulhosos da atuação dos soldados alemães durante a Segunda Guerra Mundial". No domingo à noite, ele voltou a polemizar, afirmando que seu partido saía "para caçar" a chanceler Angela Merkel.

Essas declarações, que provocaram muita indignação no país, ainda não afetaram os resultados do partido.

- Radicalização da AfD -

Enfraquecida desde um congresso do partido em abril, Petry vinha criticando, há semanas, a radicalização do movimento que multiplicou as declarações virulentas contra os imigrantes e contra os muçulmanos.

Para ela, todos esses excessos da AfD são um obstáculo para se atingir o objetivo desse partido nascido em 2013 com um programa antieuro: alcançar o poder algum dia.

Frauke Petry acredita que a sigla corre o risco de assustar seu eleitorado menos radical, os ex-simpatizantes do partido conservador de Merkel, o qual pode operar uma virada para a direita em sua próxima legislatura. Com isso, tentaria conter a sangria, recuperando os eleitores perdidos - quase um milhão - para a AfD no domingo.

"Vamos lutar", prometeu a chanceler em entrevista coletiva nesta segunda.

"A melhor maneira é solucionar os problemas que afetam a gente quando aparecem", completou.

Seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), e seu aliado bávaro (CSU), ganharam as eleições com 33% dos votos, um resultado historicamente baixo.

A chanceler se considera, em parte, responsável pela ascensão da AfD, não apenas por sua decisão de abrir as fronteiras para milhares de imigrantes, mas também por sua política centrista que confunde seus simpatizantes.

"Os eleitores da AfD são conservadores, inclusive burgueses. Apenas 2% são verdadeiros nazistas", diz o analista político Timo Lochocki, do German Marshall Fund.

- 'Os debates devem ser duros' -

Embora as pesquisas já viessem antecipando isso há semanas, a entrada da AfD no Parlamento - o primeiro partido de direita populista representado na Câmara desde o final da Segunda Guerra Mundial - causou uma grande comoção na Alemanha.

"O espetacular avanço dos populistas de direita constitui um giro histórico para a vida política alemã", acostumada ao consenso e aos debates civilizados, e que entra em uma era que se anuncia como muito mais conflituosa, avalia o jornal conservador "Frankfurter Allgemeine Zeitung" (FAZ).

Na mesma entrevista coletiva abandonada por Petry nesta segunda-feira, Gauland deixou clara sua intenção: "os debates devem ser duros".