Direita salvadorenha pede a Congresso que estude capacidade mental do presidente Bukele

Oscar BATRES
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Membros das Forças Armadas salvadorenhas entram na Assembleia Legislativa durante um protesto fora do Congresso em San Salvador, em 9 de fevereiro de 2020

A direita opositora de El Salvador pediu a uma comissão do Congresso nesta terça-feira (9) que aplique a Constituição e estude "a incapacidade mental" para governar do presidente Nayib Bukele, que advertiu para uma "tentativa" de golpe de Estado parlamentar.

“Peço que procedamos a aplicar o procedimento que nos confere o artigo 131 inciso 20 da Constituição e que procedamos à declaração da incapacidade mental do presidente Nayib Bukele”, declarou o deputado Ricardo Velásquez em proposta dirigida à Comissão Política do Congresso.

O presidente reagiu a este pedido e denunciou que o mesmo é uma "tentativa de golpe de Estado parlamentar", que vem a ocorrer a poucos dias das eleições municipais e legislativas de 28 de fevereiro, para as quais os apoiadores do presidente aparecem como favoritos.

"É incrível, mas revelador, ver os autoproclamados 'defensores da democracia' manter silêncio total" diante da intenção da direita, afirmou Bukele, em alusão a organismos locais e internacionais que o tacharam de autoritário.

Velásquez, da oposição Aliança Nacionalista Republicana (ARENA, direita), disse em seu pedido que o presidente deu sinais "notórios" de "sua incapacidade mental" por meio de um discurso "de ódio, não tolerância, agressões".

Em virtude disso, o deputado pede à Comissão que aplique a Constituição, que estabelece “declarar, com no mínimo dois terços dos votos dos deputados eleitos (56 votos), a incapacidade física ou mental do presidente (...) para o exercício dos seus cargos”.

Caso a Comissão, em prazo indeterminado, vote por dar luz verde à petição de Velásquez, a decisão de declarar a incapacidade presidencial caberia a uma equipe de cinco médicos indicados pelo Congresso.

Velásquez, crítico ferrenho de Bukele, disse que o presidente "se sente acima da lei" e considerou que "ou estamos diante de um criminoso ou estamos diante de um louco, um louco que não tem faculdades mentais para exercer o cargo".

Bukele reagiu ao pedido no Twitter: "Isso revelará a todos, sem dúvida, que a ARENA e a FMLN são realmente aliadas, os interesses que defendem são os mesmos."

A Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN, esquerda), uma ex-guerrilha que se tornou partido político, também exerce uma oposição ferrenha ao governo Bukele.

El Salvador viveu uma guerra civil sangrenta entre 1980 e 1992. Os Acordos de Chapultepec, que encerraram o conflito, foram negociados entre a FLMN e a ARENA, que na época detinha o poder.

Até o momento, o bloco de oposição não se pronunciou sobre a possibilidade de aceitar o pedido, embora tenha os votos necessários para fazê-lo.

A Comissão Política é composta por 13 membros, sendo 10 opositores (incluindo um deputado independente) e três membros oficiais.

A petição chega algumas semanas antes das eleições legislativas e municipais de 28 de fevereiro, nas quais os apoiadores de Bukele aparecem como favoritos.

Ocorre também em um momento em que várias organizações salvadorenhas exigem nas ruas que Bukele “nunca mais” militarize o Congresso, como aconteceu em 9 de fevereiro de 2020, fato que foi descrito pela oposição como uma tentativa de golpe.

Naquela data, Bukele entrou no Congresso acompanhado pela tropa de choque e soldados do exército vestindo coletes à prova de balas e rifles de assalto. Com isso, o presidente procurou pressionar o Congresso a aprovar um empréstimo milionário.

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