Direitos internacionais: clubes do Brasileirão evitam briga inicial com grandes ligas

Igor Siqueira
Flamengo e Palmeiras são os últimos campeões nacionais

Com a venda dos direitos internacionais, o Brasileirão está prestes a entrar em uma disputa na qual os clubes admitem não haver pretensão de brigar pelo topo. Esquecendo a queda de braço com as principais ligas europeias, o passo considerado relevante para a internacionalização não é abocanhar uma fatia grande de dinheiro, mas apenas fincar o pé em terras além-mar. Estratégias já foram debatidas no processo de escolha das empresas responsáveis pela comercialização.

— Precisamos ser mais exigentes com previsibilidade de programação, de horários, e criar um relacionamento com marcas globais. Ao mesmo tempo, não dá para concorrer com outras ligas mais fortes. Entrar sendo premium seria algo errado. Vamos precisar começar como um modelo secundário. Mas não queremos nos perpetuar nessa condição. É só uma estratégia de entrada — explicou o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, um dos que têm liderado as discussões sobre o tema na Comissão Nacional de Clubes.

Geograficamente, os alvos para venda dos direitos do Brasileirão são Europa, Ásia e América do Norte. Quanto à relevância, o presidente do Bahia cita o papel que a Bundesliga tem no Brasil. O Campeonato Alemão não se equipara ao Inglês, ao Espanhol e muito menos à Liga dos Campeões, mas tem espaço na programação.

Para afinar as práticas em relação à tabela, a colaboração da CBF é importante. A ideia é evitar, dentro do possível, o choque de horários.

O diálogo com empresas do exterior já vira responsabilidade das detentoras dos direitos. Os clubes anunciaram a Global Sports Rights Management (GSRM) para negociar no exterior os direitos em TV aberta, fechada, pay-per-view, internet e OTT/streaming.

A empresa tem executivos argentinos e chilenos e é fruto da fusão de Fanatiz, 1190 Sports, que comercializa a marca da seleção chilena, e 777 Partners, companhia de investimento privado, em Miami (EUA).

A GSRM, quando chamada ASRM, esteve no meio de uma polêmica na venda dos direitos da Superliga Argentina, segundo informou o “La Nación”. Os concorrentes acusaram a ASRM de receber privilégios no processo licitatório, do qual a companhia acabou saindo. O prazo para definição da vencedora na Argentina foi postergado.

Por outro lado, um consórcio formado por Zeus Sports Marketing e Stats Perform — com atuação na Europa e nos Estados Unidos — tratará dos betting rights, do Brasileirão a transmissão em sites de apostas. As assinaturas não aconteceram ainda porque as partes estão revisando as minutas dos contratos.

Aperitivo

Os clubes estabeleceram uma gestão compartilhada para tomada de decisão, numa tentativa de evitar que as novas parceiras coloquem os contratos na gaveta. Até 2023, a comercialização dos direitos se atém mais à necessidade de uma boa distribuição em detrimento da receita. O acordo prevê uma garantia mínima anual e divisão de receita de acordo com as vendas.

— A grande questão do contrato é ser um experimento. Vamos distribuir praticamente de graça o primeiro ano. É um aperitivo. Os valores que pensamos para três anos foram diluídos em quatro — explicou Bellintani.

Os clubes entendem que é preciso até mesmo repensar a venda de publicidade estática da Série A e consolidar mais a logomarca da competição. Nesse movimento, uma questão foi valorizada: a união na discussão.

Contra-ataque

Ao mesmo tempo que olham para o exterior, os clubes brasileiros se veem em um cenário de crise agravado pelo coronavírus, que demanda preocupação com o dever de casa. Enquanto o Brasileirão ainda nem engatinha lá fora, o movimento dos europeus é o de tentar converter o torcedor brasileiro.

— Internacionalizar passa a ser muito mais um movimento de defesa e de nacionalização. Somos um mercado importante na estratégia de qualquer marca da Europa. Culturalmente não há barreira. Pelo contrário: nossos ídolos jogam nesses times — diz Gustavo Herbetta, fundador da agência de marketing esportivo da Lmid.

Outro aspecto do dever de casa dos clubes é pensar em conteúdos que se comuniquem com o exterior.

— Ter conteúdo voltado para o público de fora certamente pode acelerar o processo de exposição no exterior. Não basta fazer perfis e sites em língua estrangeira, é preciso pensar em outros tipos para apresentar o conceito de um jeito que envolva um torcedor que tem uma boa imagem do nosso futebol — pontua André Monnerat, diretor de negócios da Feng Brasil, empresa especializada em programas de sócios e engajamento de torcedores.