Diretor do Instituto Butantan espera que Anvisa retome estudos da CoronaVac 'entre hoje e amanhã'

João Conrado Kneipp
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Dimas Tadeu Covas, director of Instituto Butantan gestures as he speaks during an interview with Reuters in Sao Paulo, Brazil July 28, 2020. Picture taken July 28, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
Diretor do Instituto Butantan afirmou que espera que a Anvisa retome os estudos clínicos da fase 3 da CoronaVac até quarta-feira. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que espera que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) retome os testes da CoronaVac no máximo até quarta-feira (11). Na noite de segunda, a Anvisa paralisou o estudo da vacina contra o novo coronavírus desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa Sinovac Biotech.

“Espero que seja (retomado) entre hoje (terça-feira) e amanhã (quarta). Não tem porque protelarmos mais essa situação”, reforçou Covas, em entrevista coletiva concedida no fim da manhã desta terça, na sede do Instituto Butantan.

A Anvisa justificou a paralisação dos testes da CoronaVac por um suposto “evento adverso grave” ocorrido no dia 29 de outubro, sem dar detalhes do que seria. O anúncio foi comemorado pelo presidente Jair Bolsonaro, que trava com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Na manhã desta terça-feira (10), o presidente compartilhou a notícia de suspensão pela Anvisa dos testes da vacina Coronavac e disse ter “ganhado” do tucano.

Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde de São Paulo, criticou a forma como o órgão tomou a atitude e reiterou a segurança da vacina. "Esta vacina é segura. Estamos a favor da vida, da verdade e da transparência”. “Sequer tivéssemos tido a possibilidade de fazer uma análise conjunta e clara sobre os fatos.”, complementou Gorinchteyn.

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Em mais de um momento, Dimas Covas afirmou que o “evento adverso grave” citado pela Anvisa não possui relação com a CoronaVac: “é impossível que esse evento tenha relação com a vacina”.

Covas disse que os detalhes concretos do evento não podem ser revelados por motivos éticos e justifica a suspensão por um “lapso de informação” entre Anvisa e governo de São Paulo.

O diretor do Butantan pediu ainda que o órgão nacional de vigilância sanitária esclareça os motivos da interrupção o mais rápido possível para evitar que pairem dúvidas sobre o estudo e sobre a eficácia da vacina.

“É fundamental que a Anvisa esclareça todos esses pontos e que permita que o estudo continue. Não podemos deixar pairar nenhuma dúvida sobre lisura e sobre transparência do estudo, e segurança da vacina. Essa vacina é a mais segura das que estão em estudo no momento, e não apresentou reação adversa grave”, completou Dimas Covas.

GABBARDO: ‘SUSPENSÃO INJUSTA’

O secretário-executivo do Centro de Contingência do combate ao coronavírus no estado de São Paulo, João Gabbardo dos Reis, também pediu celeridade à Anvisa para o retorno dos testes e classificou como injusta a paralisação.

“Só tem um caminho: o mais rápido possível reestabelecer a continuidade da pesquisa. É isso que esperamos da Anvisa nesse momento”.

Sem citar Bolsonaro ou o governo federal, Gabbardo também descartou que a suspensão dos testes pela Anvisa tenha sido motivada por razões políticas. No entanto, afirmou ter certeza que há um uso político da paralisação na tentativa de descredenciar a vacina do Instituto Butantan.

“Conheço as pessoas que estão na Anvisa, são pessoas que sempre tivemos respeito e consideração e imaginamos que não tenha sido algum motivo político ou interessado em prejudicar a ação do governo do estado. Mas provavelmente essa informação tenha sido utilizada por alguém com interesse em criar um fato. Isso com certeza. Estava sendo discutido tecnicamente um assunto e de alguma maneira alguém usou essa informação para criar essa situação”, afirmou.

ENTENDA A ‘GUERRA DAS VACINAS’ ENTRE BOLSONARO E DORIA

Há tempos, Doria e Bolsonaro travam uma espécie de “guerra das vacinas”, com o tucano defendendo a aplicação obrigatória do imunizante enquanto o presidente comanda um movimento anti-vacinas.

Na avaliação de aliados do presidente, Doria estaria tentando ganhar “capital político” ao encampar a produção de uma vacina contra a Covid-19 e chegaria municiado neste tema em uma eventual disputa pela presidência em 2022 contra Bolsonaro.

Com a paralisação dos testes, nenhum novo voluntário poderá receber a vacina. A ação ocorreu no mesmo dia em que Doria anunciou que 120 mil doses da CoronaVac chegarão ao estado ainda no mês de novembro.

A suspensão do teste clínico pegou próprio governo de João Doria (PSDB) de surpresa. A gestão do tucano diz não ter sido avisado pela Anvisa e aliados de Doria questionaram a divulgação da informação por meio de nota, em horário nobre de noticiários de televisão.