Diretor de empresa investigada confirma à CPI contatos com Barros, mas nega ter tratado de vacinas

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BRASÍLIA, DF, 24.08.2021 - Emanuel Catori, sócio da farmacêutica Belcher, ao chegar nesta quarta-feira, 24 de agosto, para reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar ações e gestão do governo durante a pandemia da doença corona vírus (COVID-19), no Senado Federal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
BRASÍLIA, DF, 24.08.2021 - Emanuel Catori, sócio da farmacêutica Belcher, ao chegar nesta quarta-feira, 24 de agosto, para reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar ações e gestão do governo durante a pandemia da doença corona vírus (COVID-19), no Senado Federal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O diretor-presidente da Belcher Farmacêutica, Emanuel Catori, afirmou em depoimento à CPI da Covid que tinha contatos com o líder do governo Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). No entanto, negou que tenha tratado sobre vacinas com o deputado.

A Belcher era a representante da empresa chinesa CanSino Biologicals, responsável pelo desenvolvimento da vacina Convidecia contra a Covid-19.

Inicialmente, Catori disse que não houve nenhum facilitador político para que tivesse contatos no Ministério da Saúde. No entanto, confirmou que foi Barros quem marcou a reunião com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, no dia 15 de abril.

Catori negou por diversas vezes que tratou de vacinas nessa reunião. O assunto seria um medicamento antiviral. Isso porque ele ainda não tinha autorização formal, já que a carta de autorização da CanSino foi feita em 19 de abril, quatro dias depois do encontro.

O relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), avaliou que havia contradições no depoimento, tendo em vista que no dia 6 de abril Catori já tinha um termo de confidencialidade do laboratório chinês.

"Não tem nenhuma contradição. Quando a gente assina uma carta de... estabelecemos um termo de confidencialidade, em nenhum momento a gente pode falar em nome da vacina, enquanto nós não recebemos a autorização. E nesta reunião sequer a gente falou uma palavra sobre a vacina. Foi uma reunião coletiva, onde tinha diversas outras empresas, não somente eu", rebateu Catori.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) voltou a questionar o depoente sobre a relação dele com Barros, dizendo que os membros da CPI teriam uma chance de descobrir contato entre os dois nas quebras de sigilo telefone e telemático.

Nesse momento, ele afirmou que tinha conversas periódicas com o deputado. "Conversas eu converso com ele normalmente, mas nada sobre negócio. Ele é de Maringá. Nós somos de Maringá."

Catori chegou a dizer que Barros é amigo de longa data de seu sócio. Dessa forma, ele também se tornou amigo do deputado. "Uma amizade cordial com ele."

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), questionou o depoente sobre a contratação do advogado Flávio Pansier, que também atua na defesa de Barros e já foi sócio do genro do deputado.

Ele disse que foi mera coincidência e o contratou para a parte regulatória da vacina por conta da sua expertise no assunto. Inclusive, confirmou que ele já participou de reunião na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

No inicío do depoimento, ressaltou que a Belcher foi a responsável legal e representante necessária da CanSino para a vacina Convidecia no Brasil, no período de 19 de abril a 10 de junho de 2021.

"A Belcher nunca foi uma mera intermediária ou facilitadora da CanSino no Brasil para a interface junto aos órgãos públicos. Da mesma forma não era uma simples vendedora, muito menos uma atravessadora."

Em junho deste ano, a CanSino rescindiu contrato de parceria com a Belcher para a oferta da vacina. No entanto, Catori disse que não sabe o motivo da rescisão.

"A Belcher não reconhece as alegações de compliance em prejuízo à nossa companhia. Por isso nossos advogados estão avaliando acerca da possibilidade ou não da judicialização da descontinuidade unilateral promovida pela CanSino", afirmou Catori, que confirmou o fornecimento de 60 milhões de doses da vacina por R$ 5 bilhões ao Ministério da Saúde.

Entretanto, apurações da equipe de Renan mostram que um dos motivos seria a proximidade política e ligações financeiras entre a Belcher, Barros e Roberto Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde.

Apesar de o STF (Supremo Tribunal Federal) ter concedido um habeas corpus a Catori que lhe deu o direito de ficar em silêncio sobre informações que pudessem incriminá-lo, o depoente deixou de prestar poucos esclarecimentos.

Ele ficou calado em relação ao valor de quanto a Belcher receberia da CanSino na venda da vacina e o nome do laboratório russo que teria intermediado o contato entre as duas.

Catori também foi questionado sobre a relação com os empresários Luciano Hang, Carlos Wizard e Alan Eccel. Respondeu que a Belcher foi convidada para contribuir tecnicamente com um grupo de empresários interessados em doar vacinas, insumos e equipamentos ao SUS e reforçar o Programa Nacional de Imunizações.

Nesse contexto, foi convidado a participar, em 17 de março, de uma live com a participação dos empresários. Disse ainda que a partir de algumas conexões internacionais, conseguiram 9 milhões de doses de vacinas prontas da Coronavac.

Ele afirmou que naquela fase, desconhecia a relação de exclusividade existente entre o laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan para a disponibilização da Coronavac no Brasil.

Ao ser questionado sobre a participação de Alan numa reunião do Ministério da Saúde em 13 de abril, Catori disse que se tratava sobre as vacinas que seriam doadas da Coronavac. Não há nenhuma relação dos empresários com a CanSino.

"A Belcher participou de uma reunião presencial com o secretário-executivo do ministério, Rodrigo Cruz, a abordar única e exclusivamente a pretensão das doações. Neste dia, o empresário Alan Eccel participou da agenda. Nesta data, reitero, a Belcher não era representante da CanSino no Brasil."

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