Diretor de 'Travessia', Mauro Mendonça Filho afirma: 'Novela tem que ter o pior e o melhor do audiovisual'

Trinta e oito anos é o tempo de carreira de Mauro Mendonça Filho, diretor de "Travessia", na Globo. Em 1984, ele iniciou o trabalho no canal na função de editor. Quatro anos depois, foi assistente de direção em "Vale tudo", novela de Gilberto Braga. Depois dali, já ocupou a principal cadeira na direção da minissérie "A. E. I. O. U. Urca", de Doc Comparato e Carlos Manga. Com Gloria Perez, já tinha trabalhado na série "Dupla identidade", de 2014. Foi assim, transitando entre folhetins e séries, que o filho de Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça fez seu nome. O carioca, de 57 anos, diz prezar por manter inabaladas as características de cada estilo, sem mesclas, ainda que haja resistência de parte da audiência:

— "Travessia" é uma novela old school (novela à moda antiga). Eu acho que se faz novela, faz novela. Se eu for fazer série, vou fazer série. Uma vez eu fiz uma cena meio melodramática numa série e... Ali, para mim, foi um divisor de águas. Alguém escreveu assim: "Se eu quisesse ver uma novela, ia ver uma novela". E realmente. Você tem que direcionar para lá, tem que ser radical no tom da coisa. Eu não critico novela. Nem um pouquinho. As pessoas amam. E ela tem que ter o pior e o melhor, tem que ser abrangente, o Brasil é muito complexo. Ela tem que ter o pior e o melhor do audiovisual. Tem que ter umas coisas muito melodramáticas e outras em que você fala "uau". Eu não me preocupo nem um pouquinho (com a resistência de parte do público a respeito de uma ou de outra). O melodrama está enraizado (na novela) mesmo. Mas, na hora de fazer série, o buraco é mais embaixo — frisa.

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Cenas como as que fizeram Grazi Massafera brilhar nos primeiros capítulos ganharam o coração do público. Por outro lado, a presença de Jade Picon no elenco dividiu opiniões na internet. Mauro ressalta que teve conversas com a iniciante para prepará-la:

– Qualquer cobrança anterior à estreia não tem nada a ver com o trabalho. (Já com a novela tendo estreado) a cobrança para ela é para mim também. É normal. E o que vale para ela, vale para qualquer um. E qualquer cobrança anterior é referente a assuntos que nem cabem a mim. Na verdade, para ser sincero, não estamos dando essa importância toda. Trabalhamos seriamente, ela também, todo mundo. Foi o que eu falei para ela antes: "Se o seu trabalho não agradar, é supernormal. Trabalha para continuar e agradar. Isso é da profissão de atriz".

Em "Travessia", Mauro tem dirigido atores e atrizes veteranos — entre eles Cássia Kis, Humberto Martins, Alessandra Negrini — e um elenco jovem testado após papéis em séries do streaming. Nathalia Falcão, de "Desalma" (Globoplay), e Danielle Olímpia (de "Sintonia", da Netflix) são algumas delas. O diretor comenta:

– Antigamente havia uma diferença do ator de teatro e do ator que era especificamente de televisão. Hoje acho que elas desapareceram. As oportunidades estão cada vez maiores, estão em qualquer lugar. E assim também acontece com as oportunidades de se mostrar. Com a tecnologia, a gente vê inúmeras pessoas de quem nunca tinha ouvido falar, entrevistadores fazendo papéis de jornalistas. Uns fazendo muito bem, outros fazendo muito mal. Mas muita gente mostra talento. Essa é a nossa profissão. É importante mostrar talento e seriedade. As portas se abrem para quem tem algum borogodó. E seriedade vale para cada um. Vários atores vão perdendo e achando no meio do caminho. E tem outros que traçam rumos opostos. O pessoal tem que acreditar, saber explorar, encontrar.

A novela das 21h tem abordado a tecnologia como pano de fundo. Mauro frisa que, na dramaturgia, ele e Gloria Perez quiseram focar nas idiossincrasias humanas e nos efeitos que um uso doentio podem provocar. Essa é a justificativa para a deep fake (montagem digital após alterar rostos ou vozes em vídeos e fotos), por exemplo, estar sendo abordada numa trama cujo destaque está nas relações interpessoais de Brisa (Lucy Alves):

— A novela não aborda nenhum tema político. Gloria sempre trata de temas sociopolíticos. Temas sociais são políticos. Mas não temas da política, sabe? O que a gente está buscando muito é a identificação humana com essa transição que a gente está fazendo, com essa ultraconexão. (Na trama), uma mãe está com um filho viciado na internet, eu mesmo entrei numa rede social popular tem dois anos e estou completamente viciado nela. Aí você já acorda olhando o celular e daqui a pouco pensa: "Vou malhar ou vou ficar no celular?". Depois, vê que ficou uma hora ali. E diz: "Caramba, eu poderia estar malhando, poderia estar aí na praia". A novela fala sobre isso: da relação humana com essas novas conexões da vida. Mais do que sobre a questão tecnológica.

Fato é que a onipresença da tecnologia na vida do telespectador é marcante. Um celular na mão permite ao internauta assistir à novela, acompanhar a vida compartilhada na web pelo elenco e opinar sobre o trabalho de cada um instantaneamente. O diretor avalia:

— Não digo que isso afeta o desempenho (do ator), mas a maneira como as pessoas estão assimilando quem é aquela figura. Primeiro, com a verticalização da tela (a adaptação para o mobile dos vídeos produzidos), segundo com a superexposição de si mesmo. E eu vejo de uma forma até negativa. Ninguém posta: "Olha, gente, estou deprimido". Só que o nosso trabalho, de uma certa forma, aprofunda muito mais a alma do que as redes sociais. (As mídias sociais) são sempre uma estampa. E é uma coisa muito terrível para quem consome isso o tempo inteiro: meninas, principalmente. É bem complicado. Eu acho que isso não tem nada a ver com a gente. Estamos falando sobre isso. Mas não tem a ver com nossos processos.

Questionado sobre a possibilidade de algum personagem de "Travessia" ganhar um perfil na web, ele diz:

— Não fazemos tanto (o crossover redes sociais, TV e publicidade). É uma novela old school mesmo. E por isso eu acho complicado o personagem atravessar (a tela). Pode trazer uma perda de credibilidade, seja de um lado ou de outro. Essa é minha opinião. E a Gloria tem a mesma. As oportunidades comerciais de novelas existem e existirão. Pode ser, sim, que haja um Instagram de personagem, rede social... Mas não foi nada definido. Hoje em dia, se você assistir a alguns filmes, todo mundo faz isso. O povo adora se relacionar com personagem. A relação do público com os personagens é intensa e com os atores também é. Só que a dramaturgia a gente preserva, blinda.